DC: Continuando a falar de estrutura e indo
já para os filmes, acho interessante notar o
desempenho da Globofilmes esse ano, no qual conseguiu
fazer um de seus maiores sucessos, Se Eu Fosse Você,
possivelmente o maior sucesso com o "selo" Globofilmes,
porque esse realmente teve a gênese lá,
é um filme do chefão da Globofilmes que
é o Daniel Filho. Ao mesmo tempo, muito curiosamente,
ele foi muito humilde depois de fazer três milhões
e meio de espectadores, lançando um segundo filme
nesse ano, o Muito Gelo e Dois Dedos d’Água,
e no lançamento acusaram ele de cinismo – o que
é uma grande injustiça – por ter dito
que se o filme seguinte dele, o Muito Gelo, tivesse
50 mil espectadores estaria ótimo. Acusaram ele
de cinismo e tal, mas na verdade a gente tem de ficar
feliz, porque com a quantidade de cópias que
o filme teve, 500 mil espectadores é um número
bastante bacana, com todos os astros do elenco... Mas
é bom até pra baixar um pouco essa bola
da Globo, porque, como eu cheguei a escrever na Contracampo,
Muito Gelo é aquilo que, mesmo com um
público respeitável de 500 mil espectadores,
pode se chamar de fracasso do esquema de cross media.
A Globo tem esse fenomenal método de divulgação,
que tanto dá certo que o filme teve um razoável
retorno, mas é um esquema em que os personagens
das novelas comentam o filme e os jornais fazem matérias,
ao invés de haver apenas um comercial que aparece
de vez em quando. Tem de fato um programa destacando
a produção do filme, e mesmo assim ele
não se saiu tão bem. Vale a pena discutir
isso, sobretudo porque Se Eu Fosse Você,
concordando com o Fernando Veríssimo, é
um filme muito mais bem feito do que esses filmes que
vemos saídos da fábrica Globofilmes com
o selo "Globofilmes sangue puro", ou seja, não
é filme de fora que eles co-produzem. Ao mesmo
tempo, um filme com algumas coisas realmente risíveis,
engraçadas, como por exemplo o fato de que os
protagonistas são pessoas que moram numa mansão,
gigantesca, e tem carros novíssimos.
LL: As primeiras imagens do filme são
isso: eles saem com dois supercarros da mansão.
DC: Nossos protagonistas agora são riquíssimos.
RG: Bom, cada país tem o Lubitsch que
merece...(risos) Muito Gelo é um filme
que eu fui ver sem saber muita coisa dele, e até
que ele é curioso. O filme tenta ser mal-comportado,
ele tenta ser do contra, e isso é até
interessante do ponto de vista de algo tão certinho
como o esquema de produção super metido
a ISO 9002, e não é um filme do qual eu
tenha uma grande antipatia, exatamente por ter esse
aspecto mal-comportado, das protagonistas falarem palavrão,
terem nudez parcial, sendo atrizes da Globo... Então
na verdade é um filme que assume vários
riscos e é uma comédia de humor negro,
uma comédia sobre torturar sua avó, e
apesar disso é um filme indefensável por
razões cinematográficas. É um filme
extremamente mal feito, com uma harmonia toda errada,
é difícil entrar de verdade no filme,
e naturalmente eles deviam aproveitar alguém
para trabalhar com casting, porque qualquer ator, mesmo
um ator mirim, funcionaria melhor no papel de protagonista
do que o Thiago Lacerda, porque francamente ele não
tem nenhum tino para comédia. Mas Casseta
& Planeta Seus Problemas Acabaram me parece
muito mais antipático porque na verdade é
um retrocesso em relação ao primeiro filme,
a principio mais arriscado, e igualmente inepto do ponto
de vista artístico.
DC: Porque eles ainda não se deram conta
de que a performance de ator é algo que eles
ainda não fizeram questão de dominar.
Isso é um problema sempre muito grave pro Casseta
& Planeta. O engraçado do filme é
sua lógica estranha: no primeiro filme eles fizeram
algo diferente e não deu certo, aí ao
invés de considerar que fizeram algo diferente
porém mal feito, resolveram fazer o que já
fazem na tevê. Vem então a questão,
não tem como fugir: por que o sujeito vai sair
de casa para ver um negócio que na tevê
é de graça?
EG: É de graça e melhor, porque
apesar do grupo estar ruim já faz um tempo, os
programas ainda são muito melhores que esse filme.
RG: Agora, esse é o tipo do filme que
pode ter um resultado medíocre na bilheteria,
mas que por conta das estrelas e da divulgação
que teve na época de seu lançamento vai
capitalizar bastante no mercado de DVD.
DC: No caso do Se Eu Fosse Você,
o segredo do filme passa pela relação
com os atores. A fotografia é super bem feita,
a montagem é certinha, mas a grande força
do filme está no desempenho dos dois protagonistas,
tanto a Gloria Pires como o Tony Ramos se saem muito
bem com o espaço que tiveram. E eles têm
essa coisa do público já os conhecer,
e por ninguém esperar deles um desempenho cômico
e eles se saírem bem, gostarem de fazer, eu vejo
um certo sentido do filme ter feito tanto sucesso, ainda
que em certos momentos o filme chegue às raias
do ridículo. Se a gente for olhar bem o universo
dos personagens, é muito revelador do público
que o cinema brasileiro tem.
RG: Não, esse não é o filme
do público do cinema brasileiro. É o filme
de um determinado cinema segmentado a partir da Globofilmes.
Se você faz esse filme sem star system
dá 30 mil.
DC: Concordo inteiramente com você. O que
quero dizer é que essas figuras, pessoas ricas,
que tem carrões e moram em mansões no
Recreio dos Bandeirantes, essas figuras são muito
atraentes para pessoas que freqüentam cinemas em
shopping center.
EG: Essa classe é a mesma que aparece
em novelas o tempo todo. Páginas da Vida,
por exemplo, só mostra magnatas, é a mesma
coisa.
RG: O que eu acho mais interessante em Se
Eu Fosse Você – já falei isso na crítica
mas não custa frisar – é a partilha do
feminino e do masculino. É um filme que o tempo
inteiro tira seus momentos de humor ao fazer a Gloria
Pires coçar o saco ou fazer o Tony Ramos rebolar,
o que num dado momento da sociedade brasileira me parece
extremamente conservador, ainda pega os resquícios
de homofobia da classe média. Mas acima de tudo,
e aí assim se torna desagradável, a partilha
(sem trocadilhos) entre homem e mulher ainda permanece
aquela mesma coisa rançosa, de que o homem é
um empreendedor, a mulher na pele do homem aprende a
ser empreendedora, e o homem na pele da mulher aprende
a ser organizador, ou seja, não pensa só
no fazer mas no "como fazer", e um pouco de sensibilidade,
um pouco de cuidado na interface, na relação
com outras pessoas, e não só na idéia.
DC: Um filme que lida com estereótipos
do início ao fim, isso é claro.
RG: Um filme extremamente ratificador de um status
quo, e que possivelmente não é o status
quo progressista de vinte anos atrás, muito
pelo contrário: o filme faz a sociedade brasileira
voltar às partilhas sexuais da época da
ditadura.
LCOJr: Uma coisa a se pensar na produção
da Globo – e aí não falo só da
Globofilmes, falo também da TV Globo e sua relação
com a Globofilmes – é que se você for ver
bem, as novelas da Globo propõem uma abertura
para a sociedade muito maior que os filmes que ela faz.
Os filmes do Daniel Filho são todos passados
dentro de um aquário.
DC: Mas isso é natural, porque a novela
é feita com o passar do tempo. O autor da novela
não tem controle, o ibope o obriga a mudar.
RG: Acho que não é nada disso.
Quanto mais saudável economicamente uma forma
de arte, mais relação ela tem com a sociedade.
Nesse sentido dou razão completa ao Júnior.
Se grande parte dos filmes da Globo não funcionam,
é basicamente porque eles não respiram
no mesmo patamar que o público que eles pretendem
alcançar respira.
LCOJr: Eu duvido que se a Globofilmes fizer um
filme sobre os episódios mais recentes do mensalão
ela vai atingir o grau de frontalidade e até,
eu diria, de relevância crítica, como comentário
sobre a sociedade, que um episódio de Pé
na Jaca teve esse ano. Há todo um
frescor das questões que atingem a sociedade
brasileira sendo buscado a todo momento tanto numa novela
do Carlos Lombardi quanto numa novela do Manoel Carlos,
cujos diálogos quase todos funcionam como um
comentário sobre algum tema "relevante" neste
momento, e a produção cinematográfica
da Globo não tem a mínima vontade de fazer
algo parecido, em nenhum momento faz um reflexo disso,
ou entra nesse terreno.
DC: A Globofilmes se ligou a Antonia,
a Carandiru, Cidade de Deus... então
a gente tem de relativizar.
RM: A Globofilmes distribuiu alguns filmes que
nos agradam mais cinematograficamente, por assim dizer,
como O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias.
LCOJr: Mas eu falo dos filmes que o Daniel definiu
aqui como "Globofilmes sangue puro".
RM: Mas até filmes que nos agradam mais
são filmes que não vão questionar
muito conteúdo.
TM: Mais eu acho que não é questionar
mesmo não, são filmes que já se
inserem num esquema de gênero.
RM: Mas é um filme cujo conteúdo
funciona dentro de um padrão aceitável
para um espectador médio, o próprio Anjos
do Sol é um pouco assim.
LCOJr: Mas mal ou bem são filmes que fazem
algum tipo de contracampo com a sociedade. Os filmes
do Daniel Filho são desprovidos disso. Aquilo
não é feito para se relacionar com um
"fora", são todos universos auto-suficientes
e inquestionáveis.
RM: O que quero dizer é que mesmo o Anjos
do Sol, que tem um conteúdo impactante, é
a parte da Globofilmes mais...
DC: O Daniel Filho quis remontar o filme, sugeriu
ao diretor uma remontagem, o diretor não topou
e aí a Globofilmes entrou sem mexer no filme,
foi a primeira vez que isso aconteceu.
LCOJr: O que importa é que mal ou bem
num filme como esse você vê um fragmento
desse pedaço do mundo que a gente chama de Brasil,
você vê isso acontecendo no filme.
RM: Por isso que corresponde a uma parcela da
Globofilmes que tenta fugir do padrão...
LL: No Se Eu Fosse Você não
é assim. E a novela do Manoel Carlos é
profundamente conservadora, como o Se Eu Fosse Você.
TM: Acho que o Júnior estava falando de
trazer aquele tipo de comentário pra dentro daqueles
universos, porque isso que traz a relação
com o público.
DC: As novelas são totalmente aquário
também, elas puxam assuntos do cotidiano das
pessoas para render ibope e a partir daí elas
vão inserindo ou tirando aquilo que interessa.
E a questão do filme não responder tanto
a essas questões é que ele é feito
previamente e o público não vai responder
a isso. E as novelas são muito mais mal feitas
que qualquer filme da Globofilmes, mais mal fotografas,
mal sonorizadas, mal editadas.
LCOJr: Discordo disso. E acho que a questão
que eu coloquei é muito mais profunda do que
esse ponto de vista. A novela sabe que ela precisa responder
a um público, e quando responde, é falando
do espaço dele também, das questões
que atingem ele também. O filme não
precisa responder ao público. Que a novela é
também um aquário ninguém discorda,
mas que ela não se esquiva aos assuntos urgentes,
isso há de se admitir. Se ela encaixa esses assuntos
num mesmo velho discurso conservador e acomoda as abordagens
aos interesses da corporação, aí
já é outra discussão. O fato é:
na novela você vê a sociedade brasileira
em pauta, às vezes exatamente os mesmos temas
que passam no Jornal Nacional. No filme da Globofilmes,
isso não acontece. A novela não retrata
fielmente a sociedade brasileira, claro que não.
Mas insere os temas que lhe dizem respeito diretamente.
TM: De uma forma ou de outra, a novela insere
os temas, é isso.
DC: O filme não tem como inserir porque
não tem como o público ver e depois o
cara inserir.
RG: Já que estamos falando da questão
da sociedade e do cinema, e de como o cinema não
trabalha a sociedade, e como curiosamente o ano todo
se falou em corrupção e um dos filmes
brasileiros do ano também trabalha nessa chave,
que é o Brasília 18%, eu acho que
para começar a falar dos filmes que nos interessam,
gostando ou não, é interessante começar
pelo filme do Nelson Pereira dos Santos.
RM: A primeira coisa a se falar é que
estatisticamente, proporcionalmente, ele teve a pior
carreira de 2006. Inclusive é dos filmes com
menos semanas em cartaz: 9, o que é pouco se
comparado com filmes do mesmo padrão de público
e tendo em vista, claro, o número de cópias.
DC: Estatisticamente ele é o Signo
do Caos desse ano, um fracasso absoluto. 46 cópias
e 15 mil espectadores. Brasília 18%
é exatamente o tipo do caso que eu estava
falando no começo. O fracasso de Brasília
18% não é discutir o fracasso artístico
do filme.
RG: Sem dúvida. Ninguém aqui faz
essa relação.
DC: A gente falava de fracassos estruturais,
não de fracassos artísticos diretamente.
No caso do Brasília 18%, eu depois de
ter revisto o filme, de ter escrito sobre ele, de ter
conversado com as pessoas, eu confesso que fiquei extremamente
assustado com o que vi. Eu acuso a burrice da crítica,
a burrice do olhar, porque acho que, sendo muito sintético
depois do que escrevi, e depois do que o Eduardo escreveu
na Cinética, não consigo mais respeitar
a crítica brasileira ou ironizar a crítica
americana por não entender David Lynch. O Brasília
18% tem diversas características bastante
difíceis de serem compreendidas, mas o filme
foi tratado como se fosse o filme de um débil-mental,
como se fosse o filme de um analfabeto cinematográfico,
foi um filme visto de uma forma bastante preguiçosa.
Isso chega a me constranger. O filme estava tratando
de uma questão absolutamente presente pros brasileiros,
a gente sabe como esse tipo de questão cansa
as pessoas naturalmente, elas preferem nem sequer falar
delas. Grande parte do fracasso do filme acho que vem
disso. As pessoas recusaram o filme antes de vê-lo
porque falava do mensalão, porque falava de crise
política e ninguém mais agüentava
isso. E as pessoas que iam ver não aceitavam
o filme porque ele não tem uma lógica
coerente interna que o guie inteiramente. Mas não
é por isso que a gente vai tratar o filme como
se ele fosse um negócio extremamente mal feito.
Me impressiona que uma figura como o Nelson, que já
faz filmes há 50 anos, ainda tenha de repente
que provar que não está gagá, que
não está esclerosado – porque eu li isso
na internet, vi isso em comentários que diziam
que ele está preguiçoso. Quem está
preguiçoso é quem vai ao cinema e não
percebe o que está vendo. Com dois minutos de
filme a gente descobre que o protagonista não
sabe o que é a realidade. Ao longo do filme inteiro
a gente tem uma relação com a política
de Brasília que é uma relação
muito próxima à que nós temos fora
daquele teatro. Na verdade, a grande figura que tenta
ligar a política nacional com o seu cotidiano
no cinema brasileiro recente é essa. A tentativa
de um cara que está perdido e não sabe
qual é seu universo, qual é seu lugar.
RG: Bom, eu acho que você está falando
de O Maior Amor do Mundo, do Cacá Diegues.
Tudo isso que você falou bate exatamente com o
filme.
DC: De fato. Agora, com certeza, no filme do
Cacá a gente vê um olhar envelhecido que
não é o do Nelson. O olhar do Nelson pode
ser o de não compreender, mas ele faz questão
de deixar isso claro, o que é bastante interessante.
E o filme do Cacá foi recebido com muito mais
respeito que o do Nelson.
RG: Certamente. O dinheiro da produção
exerceu uma pressão nesse sentido. O filme
do Cacá é de um orçamento muito
maior, e isso pode ter influenciado.
RM: O Cacá é um cara com uma força
política dentro dos jornais muito maior que a
do Nelson.
RG: Sempre quando a gente fala que tal filme
é uma obra-prima e quem não entendeu é
burro, a gente arrisca acabar com a discussão,
porque basicamente transforma nosso ponto de vista em
fundamentalista, e eu acho que você ao falar do
filme do Nelson Pereira começou a fazer isso,
Daniel. Obviamente eu não acho que o Nelson Pereira
está velho demais ou esclerosado, acho-o uma
pessoa lúcida, ainda que tenha feito um filme
que ao meu ver só vai até um determinado
ponto ou não chega em ponto nenhum, ou trabalha
com uma certa gama de metáforas e de relações
extremamente desgastada. Não sei se sou um débil-mental
ou se você vai perder o respeito por mim. A relação
não foi só com críticos débeis,
mas também com figuras seríssimas, alguns
dos maiores montadores, ou jovens curta-metragistas,
co-diretores inclusive com você no Conceição,
que ficaram tão decepcionados com o filme quanto
eu. Não me parece que seja algo tão unânime
a ponto de uma reação tão extrema
sua.
DC: Foi unânime, o filme foi muito mal
recebido.
LL: Há uma diferença entre achar
que ele está gagá e ficar decepcionado
com um filme de que você poderia muito bem gostar.
DC: Quando eu falo das acusações
de gagá e de esclerosado, é porque pra
mim isso foi um sinal da preguiça com que o filme
foi enxergado, apenas isso. O assunto para as
pessoas hoje é um vespeiro. Os filmes que lidavam
com as grandes questões nacionais antigamente
entusiasmavam muito mais as pessoas. 2006 foi um ano
em que as coisas se dividiram. Falando com mais clareza:
eu vi o filme do Nelson ser atacado por ser antipetista
e por ser petista. Nessa burrice coletiva que tomou
o nosso país e o dividiu durante o período
das eleições entre pró ou contra,
enfim, nesse momento de escolha entre "torcer pro Vasco
ou pro Flamengo", o filme vinha de uma figura que tomou
sua posição anos atrás e agora
percebe isso como algo extremamente incerto. A gente
apenas percebe que tem muita coisa podre, mas compreender
isso aí é muito difícil.
RM: Só uma questão, que foi curioso,
que o Ruy falou, comparando O Maior Amor do Mundo
com o Brasília 18%, que tem muita coisa
em comum mas acho que a grande diferença entre
os dois é o posicionamento, a postura do diretor
frente ao que ele apresenta, que ai talvez eu até
concorde em parte com o que o Daniel fala de preguiça
de receber o filme, acho que é muito mais um
lance de aceitação mesmo porque o protagonista
do Brasília vai tá perdido e o espectador
também dificilmente, ao mesmo tempo que se identifica
com ele de tá perdido no meio daquela condição
e não saber onde se coloca também não
se reconhece tanto, mantém um certo distanciamento
e nesse sentido o filme do Nelson é muito mais
provocativo, já o Cacá, no Maior Amor
do Mundo é sempre aquela mesma coisa de que
ele vai idealizar o indivíduo e você se
reconhece nele, mas sempre há uma complacência
com o personagem e automaticamente com o espectador.
Nesse sentido, sim, o espectador é muito mais
preguiçoso em relação ao Brasília
18% e o filme se faz muito mais provocativo...
DC: O filme é um enigma!
RM: ...porque o filme do Cacá Diegues,
eu acho que ele acaba sendo bem recebido, traz, desperta
questões, sei lá, mas no fundo é
sempre a mesma e velha questão. Ele vai lá,
desperta as questões, mas depois coloca os panos
quentes, apazigua, porque aquele indivíduo é
passível de erro, é humano e vem com aquele
discurso humanista todo... Então nesse sentido
há uma certa preguiça sim.
RG: Não, e o filme do Cacá Diegues
ainda trabalha sempre aquela coisa: o povo é
sempre a mesma coisa no filme do Cacá Diegues.
Ele pode ser sofrido, ele pode ser pobre, ele, por ser
pobre é um anjo caído, então ele
tem que fazer as coisas erradas, mas no limite, ele
ainda é aquele, como tem na cena da trepada,
ele é aquele que dá a vida, que mostra
como é a vida de verdade.
EG: Não só o pobre, como o Negro,
né. Todo filme dele trabalha o negro como espetáculo
e as raízes...
RG: Esse velho clichê de uma determinada
esquerda caduca há mais de 40 anos. E nesse sentido
eu concordo que a defesa do Raphael é perfeita
e eu concordo com tudo isso. O que você falou
é o que eu vi do filme Brasília 18%
e de fato acho que os filmes estão em níveis
diferentes de qualidade e de complexidade, a relação
do espectador com o protagonista, acho que você
trabalhou de uma forma perfeita. Eu acho curioso, extremamente
curioso que David Lynch venha a ser citado, porque eu
acho que as semelhanças dos filmes são
puramente circunstanciais, porque na verdade o Nelson
trabalha numa chave de relação com a realidade,
numa chave de relação com a ficção,
com a construção da imagem de uma forma
totalmente diferente do David Lynch. E, ao contrário,
me parece muito curioso que um nome como Marco Bellocchio
não tenha vindo porque, Brasília 18%,
apesar de ser um filme que se tiver que dizer que gosto
ou não gosto, é um filme que não
gosto, é um filme que tece uma série de
relações e de comparações,
não de superfície, mas profundidade, com
A Hora da Religião.
DC: É verdade. Mas com relação
ao Lynch é bom esclarecer, a questão é
simples: o Lynch é hoje basicamente a figura
que é mais reconhecida por criar narrativas que
dependem de uma vontade do espectador para interpretá-las
e a narrativa do Brasília 18% não
fecha. Ele estabelece uma estética que ele não
termina, estabelece questões que ele não
fecha. Por isso que acho que essa comparação...
Muito mais do que o Bellocchio, em que a trama pode
ir prum outro lado, mas em nenhum momento você
diz "pô, qual é a trama? Como é
que ela aconteceu, O que aconteceu de fato?"
LCOJr: Eu me pergunto isso em A Hora da Religião.
RG: Não, no Bellocchio não. Ao
contrario, sempre no Bellocchio você vê
o personagem tomado por uma série de coisas e
a narrativa, na verdade, ela segue a narrativa interna
dos sentimentos dos personagens e manda embora a narrativa
geral, o que eu acho que é mais um motivo pra
corroborar essa aproximação do Bellocchio.
DC: Não existe a idéia do fato
que você não compreendeu no filme do Bellocchio.
Não tem essa questão. Qual o fato que
eu não compreendi? Não tem. Agora nos
filmes do Lynch tem. Alguma coisa que ele faz questão
de não deixar claro, isso tem.
LCOJr: No Bellocchio tem isso...
RG: O tempo inteiro. Me parece que não
só nesse filme como na obra inteira dele.
LCOJr: Tem situações absolutamente
fantasmáticas que você... O duelo lá,
que pode tanto ter acontecido como não ter acontecido.
RG: Bom, me parece acima de tudo, sobretudo na
questão da menina como mcguffin, o filme
Brasília 18% recorre a um imaginário
extremamente desgastado sem dar muitos passos adiante.
LL: Mas deixa só eu complementar uma coisa
disso que o Daniel falou... Parece que o Brasília
18% virou meio que um filme "intocável" do
ano, num sentido em que ou você é fã
ou você é preguiçoso... Parece que
não pode haver uma discussão séria
sobre o Brasília 18%. Você começou
colocando a questão assim e o outro lado da questão
você partiu exatamente pro outro lado da questão,
que não dá pra se conversar sobre o Brasília
18% sem tomar um posicionamento...
DC: Não, de jeito nenhum, acho que inclusive
esse tipo de discussão é válido.
O problema é que esse tipo de discussão
não aconteceu na época do filme. Quando
ele estreou não havia nenhum argumento desse
tipo. Eu acho inclusive, tem algumas coisas que eu concordo
inteiramente com o Ruy, com o Raphael... Tem outras
coisas que eu adicionaria, mas esse tipo de discussão
não aconteceu. Quando o filme estreou ele não
teve esse tipo de olhar. Ninguém tentou compreender
o personagem do Ricelli, ninguém tentou compreender
o que é a trajetória dele em Brasília,
o que poderia representar aquele senador e aquela figura,
os eventos misteriosos e as coisas que não se
esclarecem.
RG: Mas se você parar pra pensar no cinema
brasileiro, algum filme teve esse tipo de discussão?
RM: Talvez A Concepção.
DC: A Concepção teve, O
Céu de Suely teve, Estamira teve,
Tapete Vermelho teve, Anjos do Sol teve,
O Maior Amor do Mundo teve.
RG: Tapete Vermelho nem foi visto!
RM: Não, eu discordo do Daniel, o único
filme assim que responderia à pergunta do Ruy
olhando rapidamente agora foi A Concepção
que vai trabalhar algumas questões políticas
e acabou despertando isso aí no que se falou
sobre o filme, mas isso tá diretamente ligado
a como o filme se apresenta formalmente, muito mais
impactante, mais agressivo, mais ágil, com uma
nova estrutura narrativa... E aí sim, acho que
isso vai despertar muito mais questões no espectador
padrão...
LL: ...que despertou onde?
DC: Que despertou nas críticas. A gente
percebe: uma crítica falava uma coisa, outra
falava outra. É isso que eu quero dizer. Do Globo,
da Folha, do Estado, da internet, da Contracampo, da
Cinética, da Cinequanon, Cinema em Cena... Enfim,
esses lugares, as críticas, um observava um detalhe,
outro observava outro, havia uma contraposição.
Eu não to falando de haver uma grande polêmica,
mas de fato você percebe olhares diferenciados.
No Brasília 18% só o que eu via
era isso, "o filme não acontece, nada faz sentido,
o filme é preguiçoso, ele não fez
o filme direito". Porra!
LL: Mas, do Brasília 18%, a crítica
da Contracampo foi positiva, a crítica da Cinética
foi positiva, do Globo foi negativa e a partir desse
princípio também houve a mesma discussão.
DC: Sim, sim. Com relação a isso
eu concordo.
RG: A Concepção... Engraçado,
não sei por que o Bellocchio novamente volta
um pouco a minha cabeça, não na chave...
EG: A Concepção?
RG: A Concepção, sim. Acima
de tudo por uma certa agressividade de comportamento
dos personagens.
EG: Eu vejo mais um Bertolucci de Os Sonhadores
em A Concepção do que um Bellocchio.
RG: Ah, não, naturalmente a isso a gente
chega com clareza, eu também vejo, mas eu não
sei, porque ao mesmo tempo em que o Bellocchio trabalha
um meio corrupto, um meio hipócrita em filmes
como De Punhos Cerrados ou A China Está
Próxima, filmes que foram exibidos na Mostra
de São Paulo esse ano e eu pude ver pela primeira
vez, eles trabalham o jovem com uma agressividade enorme,
é uma agressividade contra o meio e é
curioso, porque essa relação do sujeito
com o meio tá no Brasília 18%,
mas não tem essa agressividade, o Ricelli não
trabalha com isso numa chave de agressividade, mas de
uma não-compreensão. E essa agressividade,
ao contrário, ela funciona de uma forma muito
grande em A Concepção, mas ao mesmo
tempo eu acho...
DC: Mas são Brasílias bem diferentes.
RG: São, são Brasílias bem
diferentes e eu nem tava falando dessa idéia
de duas cidades... E, da mesma forma que o Brasília
18%, A Concepcão é um filme
que me é extremamente simpático como proposta.
Nao é um filme que eu admire, mas é um
filme que me interessa bastante como proposta, como
uma série de buscas, mas ao mesmo tempo acho
que ele é limitado da maneira como ele tenta
conformar dois grandes sucessos de circuitinho dos últimos
anos, um, claro, que é o filme do Bertolucci
sobre cinema, Os Sonhadores, e ao mesmo tempo
Os Idiotas, do Lars Von Trier, nessa idéia
de um grupo se fechar sobre si e ir chegando até
o limite do esgotamento...
DC: Confrontando a sociedade...
RG: Confrontando a sociedade, inclusive existe
uma cena da mulher dando de comer pro parente que é
tirada, cuspida e escarradamente de Os Idiotas.
RM: A cena que eles estão andando pelados
também...
LL: Eu acho que o filme pega muito mais de Os
Idiotas do que de Os Sonhadores. Acho que
o filme pega de Os Sonhadores muito mais uma
certa teleologia do que a forma, a proposta dele...
RM: Não, e o filme vai chupar de Os
Idiotas não só a forma narrativa,
a condução disso tudo, mas até
a idéia do movimento Dogma, criar um certo número
de regras e tal que de certa forma tem alguma relação
com aquilo que os personagens de A Concepção
propõem.
EG: Não...
DC: Me parece um filme muito mais vivo e vigoroso
do que Os Sonhadores...
RG: Sem dúvida!
DC: Um filme muito mais acreditando na necessidade
do erro.
LL: Durante boa parte do filme, pelo menos
RG: Mas ao mesmo tempo eu fico com uma sensação
estranha, quando eu vejo Os Idiotas, independente
de gostar do filme ou não, e é um filme
que eu gosto, eu vejo que pelo menos existe uma verdade
que tenta ser passada. Não que seja verdade daquele
grupo, que o diretor tenha aderido aos princípios
daquele grupo, mas que ele tenta passar uma verdade
daquele grupo. Ao passo que com A Concepção
eu não tenho essa clareza, eu vejo isso muito
mais com uma certa pose...
EG: Eu também acho...
RG: Uma necessidade de modinha do que algo sólido.
TM: Eu tenho um diagnóstico muito parecido...
Um simulacro, uma aceleração inconstante
em cima do nada.
RG: Ele parece como se Os Idiotas fosse
feito pelo Danny Boyle.
Daniel: Eu acho que isso é muito mais o reflexo
da descrença de vocês no projeto deles
do que numa descrença no filme.
TM:O que eu estou falando é da ordem da
montagem, é da ordem do movimento de câmera,
atuação, de toda a mise en scène.
DC: Como assim? Por exemplo...
TM: Por exemplo a parte que eles ficam lá
pelados naquela pseudo exposição, e ele
fica lá com a câmera...
RM: O próprio tratamento de câmera,
ele vai granular no branco... Ele tem uns efeitos estilísticos...
DC: Não, isso aí não, isso
eu não concordo. Esse ritmo é um ritmo
de linguagem, de estrutura, que a gente pode... Mas
o que eu acho que não dá para acusar o
filme é de não acreditar, é de
zombar do risco dos personagens.
RG: Ninguém tá falando isso.
DC: Não, veja bem, o que eu quero dizer
é que quando você vira e diz que ele não
está acreditando naquilo... É por isso
que eu estou dizendo: eu acho que ele acredita sim.
Você falou que de repente em Os Idiotas você
percebe isso, que não há uma descrença...
É, que há essa verdade, que acredita nos
fatos. Eu acho que não acreditar no projeto deles,
achar que eles são uns idiotas, umas bestas em
acreditar naquele projeto tá muito mais num olhar
de um certo espectador que está julgando. O filme,
ele entra naquele negócio... Acho que ele tá
interessado em tratar um certo ímpeto de juventude.
Uma defesa do erro. Nisso que eu acho que o filme pode
ser defendido.
LL: Formalmente, o A Concepção
trata as pessoas com um certo clichê de modernidade.
Pelo menos para mim. Um clichê de modernidade
que causa esse distanciamento para retratar os jovens
eu teria que retratar daquela forma, eu teria que filmar
daquela forma e aí cria já uma certa pose
daqueles jovens. Eles já não são
mais naturais, mas são aquele exemplo de modo
de como se deve tratar a juventude.
TM: Pra mim existe um peso na proposta...
DC: Acho inserido no mundo e defendendo o erro
deles.
LCOJr: Eu vejo A Concepção acima
de tudo como um filme que tem um conceito sobre Brasília,
concorde você ou não, ache você ou
não esse conceito mais frágil, mais interessante...
É um filme que basicamente se estrutura sobre
um conceito de Brasília que o diretor tem e que
ele trabalha lá com afinco, sim. E o cara tem
uma idéia de estilo, uma idéia de que
existe um estilo que ele quer trabalhar ali. O filme
em grande parte pra mim é um grande exercício
de estilo do Belmonte, pelo menos é o que eu
vejo lá se configurando nos curtas dele...
EG: Mas eu acho que o filme é fraco como
exercício de estilo, inclusive... Acho ele inócuo
como problema de estilo, porque do meio pro final ele
meio que nega tudo que ele fez no começo. Acho
que ele é totalmente incoerente, auto-explicativo
demais, quando ele tenta ser mais palatável,
ser mais digerível.
LCOJr: Acho que ele não quer ser digerível,
ele tem um conceito, quer provar...
DC: Acho que ele quer ser o anti-Larry Clark,
ele não quer julgar os erros. Ele vê como
erro mas a vida segue em frente. Ao contrário
do Larry Clark, que destrói a vida das pessoas,
ele acha que a vida segue em frente. Essa é a
grande característica que dá vitalidade
ao filme.
TM: Não, acho que ele carrega um peso
da proposta que vai nesse sentido do conceito em que
ele deixa de ter substância no decorrer do filme.
Ele não consegue apresentar uma substância
porque ele tem um peso, que é o da proposta.
EG: Acho que ao longo da projeção
ele vai se esvaziando. Vai gradativamente se esvaziando,
a força com a qual ele começa vai gradativamente
se esvaziando.
LCOJr: Apesar de eu ser simpático ao filme,
esse é de fato um risco que o filme corre e ele
sofre realmente com isso, é um filme que na sua
duração vai realmente...
EG: Se fosse um curta era outra coisa, porque
todo o vigor dele, inicial...
LL: Tem todo um vigor inicial de desorientação
que vai seguindo até o momento em que aquela
desorientação vai virando orientação,
orientação... E acaba aquilo.
RM: Mas eu não acho que isso seja pra
tornar o filme palatável, entende?
EG: Ele fica explicativo...
LL: Não sei se é pra tornar o filme
palatável, mas um certo cansaço daquela
proposta inicial que vai se dando ao longo...
LCOJr: É uma coisa de saturação,
o filme é saturado, sob todos os aspectos. Saturado
de tema, saturado de estética modernosa.
RM: É uma certa frustração
naquele projeto deles, daqueles jovens e aquilo vai
degringolando. É um projeto frustrado mesmo e
aquilo lá é acompanhado pela estética
que começa toda acelerada, moderna e cheia dos
efeitos e vai ficando cada vez mais normal como se ele
tivesse vendo aquilo lá como um processo frustrado.
LL: Eu vejo uma forçação
de barra em embarcar naquilo que não me soa de
forma natural.
Parte 1: Estrutura,
documentários
Parte 3: O Veneno
da Madrugada, Árido Movie e
estréias em longa-metragem.
Parte 4: O teatro e
o parasitismo,
novamente documentários.
Parte 5: Os
quatro filmes preferidos.
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