CINEMA FALADO PARTE 2
Globofilmes, cinema e televisão, Brasília 18% e O Maior Amor do Mundo, A Concepção.

DC: Continuando a falar de estrutura e indo já para os filmes, acho interessante notar o desempenho da Globofilmes esse ano, no qual conseguiu fazer um de seus maiores sucessos, Se Eu Fosse Você, possivelmente o maior sucesso com o "selo" Globofilmes, porque esse realmente teve a gênese lá, é um filme do chefão da Globofilmes que é o Daniel Filho. Ao mesmo tempo, muito curiosamente, ele foi muito humilde depois de fazer três milhões e meio de espectadores, lançando um segundo filme nesse ano, o Muito Gelo e Dois Dedos d’Água, e no lançamento acusaram ele de cinismo – o que é uma grande injustiça – por ter dito que se o filme seguinte dele, o Muito Gelo, tivesse 50 mil espectadores estaria ótimo. Acusaram ele de cinismo e tal, mas na verdade a gente tem de ficar feliz, porque com a quantidade de cópias que o filme teve, 500 mil espectadores é um número bastante bacana, com todos os astros do elenco... Mas é bom até pra baixar um pouco essa bola da Globo, porque, como eu cheguei a escrever na Contracampo, Muito Gelo é aquilo que, mesmo com um público respeitável de 500 mil espectadores, pode se chamar de fracasso do esquema de cross media. A Globo tem esse fenomenal método de divulgação, que tanto dá certo que o filme teve um razoável retorno, mas é um esquema em que os personagens das novelas comentam o filme e os jornais fazem matérias, ao invés de haver apenas um comercial que aparece de vez em quando. Tem de fato um programa destacando a produção do filme, e mesmo assim ele não se saiu tão bem. Vale a pena discutir isso, sobretudo porque Se Eu Fosse Você, concordando com o Fernando Veríssimo, é um filme muito mais bem feito do que esses filmes que vemos saídos da fábrica Globofilmes com o selo "Globofilmes sangue puro", ou seja, não é filme de fora que eles co-produzem. Ao mesmo tempo, um filme com algumas coisas realmente risíveis, engraçadas, como por exemplo o fato de que os protagonistas são pessoas que moram numa mansão, gigantesca, e tem carros novíssimos.

LL: As primeiras imagens do filme são isso: eles saem com dois supercarros da mansão.

DC: Nossos protagonistas agora são riquíssimos.

RG: Bom, cada país tem o Lubitsch que merece...(risos) Muito Gelo é um filme que eu fui ver sem saber muita coisa dele, e até que ele é curioso. O filme tenta ser mal-comportado, ele tenta ser do contra, e isso é até interessante do ponto de vista de algo tão certinho como o esquema de produção super metido a ISO 9002, e não é um filme do qual eu tenha uma grande antipatia, exatamente por ter esse aspecto mal-comportado, das protagonistas falarem palavrão, terem nudez parcial, sendo atrizes da Globo... Então na verdade é um filme que assume vários riscos e é uma comédia de humor negro, uma comédia sobre torturar sua avó, e apesar disso é um filme indefensável por razões cinematográficas. É um filme extremamente mal feito, com uma harmonia toda errada, é difícil entrar de verdade no filme, e naturalmente eles deviam aproveitar alguém para trabalhar com casting, porque qualquer ator, mesmo um ator mirim, funcionaria melhor no papel de protagonista do que o Thiago Lacerda, porque francamente ele não tem nenhum tino para comédia. Mas Casseta & Planeta – Seus Problemas Acabaram me parece muito mais antipático porque na verdade é um retrocesso em relação ao primeiro filme, a principio mais arriscado, e igualmente inepto do ponto de vista artístico.

DC: Porque eles ainda não se deram conta de que a performance de ator é algo que eles ainda não fizeram questão de dominar. Isso é um problema sempre muito grave pro Casseta & Planeta. O engraçado do filme é sua lógica estranha: no primeiro filme eles fizeram algo diferente e não deu certo, aí ao invés de considerar que fizeram algo diferente porém mal feito, resolveram fazer o que já fazem na tevê. Vem então a questão, não tem como fugir: por que o sujeito vai sair de casa para ver um negócio que na tevê é de graça?

EG: É de graça e melhor, porque apesar do grupo estar ruim já faz um tempo, os programas ainda são muito melhores que esse filme.

RG: Agora, esse é o tipo do filme que pode ter um resultado medíocre na bilheteria, mas que por conta das estrelas e da divulgação que teve na época de seu lançamento vai capitalizar bastante no mercado de DVD.

DC: No caso do Se Eu Fosse Você, o segredo do filme passa pela relação com os atores. A fotografia é super bem feita, a montagem é certinha, mas a grande força do filme está no desempenho dos dois protagonistas, tanto a Gloria Pires como o Tony Ramos se saem muito bem com o espaço que tiveram. E eles têm essa coisa do público já os conhecer, e por ninguém esperar deles um desempenho cômico e eles se saírem bem, gostarem de fazer, eu vejo um certo sentido do filme ter feito tanto sucesso, ainda que em certos momentos o filme chegue às raias do ridículo. Se a gente for olhar bem o universo dos personagens, é muito revelador do público que o cinema brasileiro tem.

RG: Não, esse não é o filme do público do cinema brasileiro. É o filme de um determinado cinema segmentado a partir da Globofilmes. Se você faz esse filme sem star system dá 30 mil.

DC: Concordo inteiramente com você. O que quero dizer é que essas figuras, pessoas ricas, que tem carrões e moram em mansões no Recreio dos Bandeirantes, essas figuras são muito atraentes para pessoas que freqüentam cinemas em shopping center.

EG: Essa classe é a mesma que aparece em novelas o tempo todo. Páginas da Vida, por exemplo, só mostra magnatas, é a mesma coisa.

RG: O que eu acho mais interessante em Se Eu Fosse Você – já falei isso na crítica mas não custa frisar – é a partilha do feminino e do masculino. É um filme que o tempo inteiro tira seus momentos de humor ao fazer a Gloria Pires coçar o saco ou fazer o Tony Ramos rebolar, o que num dado momento da sociedade brasileira me parece extremamente conservador, ainda pega os resquícios de homofobia da classe média. Mas acima de tudo, e aí assim se torna desagradável, a partilha (sem trocadilhos) entre homem e mulher ainda permanece aquela mesma coisa rançosa, de que o homem é um empreendedor, a mulher na pele do homem aprende a ser empreendedora, e o homem na pele da mulher aprende a ser organizador, ou seja, não pensa só no fazer mas no "como fazer", e um pouco de sensibilidade, um pouco de cuidado na interface, na relação com outras pessoas, e não só na idéia.

DC: Um filme que lida com estereótipos do início ao fim, isso é claro.

RG: Um filme extremamente ratificador de um status quo, e que possivelmente não é o status quo progressista de vinte anos atrás, muito pelo contrário: o filme faz a sociedade brasileira voltar às partilhas sexuais da época da ditadura.

LCOJr: Uma coisa a se pensar na produção da Globo – e aí não falo só da Globofilmes, falo também da TV Globo e sua relação com a Globofilmes – é que se você for ver bem, as novelas da Globo propõem uma abertura para a sociedade muito maior que os filmes que ela faz. Os filmes do Daniel Filho são todos passados dentro de um aquário.

DC: Mas isso é natural, porque a novela é feita com o passar do tempo. O autor da novela não tem controle, o ibope o obriga a mudar.

RG: Acho que não é nada disso. Quanto mais saudável economicamente uma forma de arte, mais relação ela tem com a sociedade. Nesse sentido dou razão completa ao Júnior. Se grande parte dos filmes da Globo não funcionam, é basicamente porque eles não respiram no mesmo patamar que o público que eles pretendem alcançar respira.

LCOJr: Eu duvido que se a Globofilmes fizer um filme sobre os episódios mais recentes do mensalão ela vai atingir o grau de frontalidade e até, eu diria, de relevância crítica, como comentário sobre a sociedade, que um episódio de Pé na Jaca teve esse ano. Há todo um frescor das questões que atingem a sociedade brasileira sendo buscado a todo momento tanto numa novela do Carlos Lombardi quanto numa novela do Manoel Carlos, cujos diálogos quase todos funcionam como um comentário sobre algum tema "relevante" neste momento, e a produção cinematográfica da Globo não tem a mínima vontade de fazer algo parecido, em nenhum momento faz um reflexo disso, ou entra nesse terreno.

DC: A Globofilmes se ligou a Antonia, a Carandiru, Cidade de Deus... então a gente tem de relativizar.

RM: A Globofilmes distribuiu alguns filmes que nos agradam mais cinematograficamente, por assim dizer, como O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias.

LCOJr: Mas eu falo dos filmes que o Daniel definiu aqui como "Globofilmes sangue puro".

RM: Mas até filmes que nos agradam mais são filmes que não vão questionar muito conteúdo.

TM: Mais eu acho que não é questionar mesmo não, são filmes que já se inserem num esquema de gênero.

RM: Mas é um filme cujo conteúdo funciona dentro de um padrão aceitável para um espectador médio, o próprio Anjos do Sol é um pouco assim.

LCOJr: Mas mal ou bem são filmes que fazem algum tipo de contracampo com a sociedade. Os filmes do Daniel Filho são desprovidos disso. Aquilo não é feito para se relacionar com um "fora", são todos universos auto-suficientes e inquestionáveis.

RM: O que quero dizer é que mesmo o Anjos do Sol, que tem um conteúdo impactante, é a parte da Globofilmes mais...

DC: O Daniel Filho quis remontar o filme, sugeriu ao diretor uma remontagem, o diretor não topou e aí a Globofilmes entrou sem mexer no filme, foi a primeira vez que isso aconteceu.

LCOJr: O que importa é que mal ou bem num filme como esse você vê um fragmento desse pedaço do mundo que a gente chama de Brasil, você vê isso acontecendo no filme.

RM: Por isso que corresponde a uma parcela da Globofilmes que tenta fugir do padrão...

LL: No Se Eu Fosse Você não é assim. E a novela do Manoel Carlos é profundamente conservadora, como o Se Eu Fosse Você.

TM: Acho que o Júnior estava falando de trazer aquele tipo de comentário pra dentro daqueles universos, porque isso que traz a relação com o público.

DC: As novelas são totalmente aquário também, elas puxam assuntos do cotidiano das pessoas para render ibope e a partir daí elas vão inserindo ou tirando aquilo que interessa. E a questão do filme não responder tanto a essas questões é que ele é feito previamente e o público não vai responder a isso. E as novelas são muito mais mal feitas que qualquer filme da Globofilmes, mais mal fotografas, mal sonorizadas, mal editadas.

LCOJr: Discordo disso. E acho que a questão que eu coloquei é muito mais profunda do que esse ponto de vista. A novela sabe que ela precisa responder a um público, e quando responde, é falando do espaço dele também, das questões que atingem ele também. O filme não precisa responder ao público. Que a novela é também um aquário ninguém discorda, mas que ela não se esquiva aos assuntos urgentes, isso há de se admitir. Se ela encaixa esses assuntos num mesmo velho discurso conservador e acomoda as abordagens aos interesses da corporação, aí já é outra discussão. O fato é: na novela você vê a sociedade brasileira em pauta, às vezes exatamente os mesmos temas que passam no Jornal Nacional. No filme da Globofilmes, isso não acontece. A novela não retrata fielmente a sociedade brasileira, claro que não. Mas insere os temas que lhe dizem respeito diretamente.

TM: De uma forma ou de outra, a novela insere os temas, é isso.

DC: O filme não tem como inserir porque não tem como o público ver e depois o cara inserir.

RG: Já que estamos falando da questão da sociedade e do cinema, e de como o cinema não trabalha a sociedade, e como curiosamente o ano todo se falou em corrupção e um dos filmes brasileiros do ano também trabalha nessa chave, que é o Brasília 18%, eu acho que para começar a falar dos filmes que nos interessam, gostando ou não, é interessante começar pelo filme do Nelson Pereira dos Santos.

RM: A primeira coisa a se falar é que estatisticamente, proporcionalmente, ele teve a pior carreira de 2006. Inclusive é dos filmes com menos semanas em cartaz: 9, o que é pouco se comparado com filmes do mesmo padrão de público e tendo em vista, claro, o número de cópias.

DC: Estatisticamente ele é o Signo do Caos desse ano, um fracasso absoluto. 46 cópias e 15 mil espectadores. Brasília 18% é exatamente o tipo do caso que eu estava falando no começo. O fracasso de Brasília 18% não é discutir o fracasso artístico do filme.

RG: Sem dúvida. Ninguém aqui faz essa relação.

DC: A gente falava de fracassos estruturais, não de fracassos artísticos diretamente. No caso do Brasília 18%, eu depois de ter revisto o filme, de ter escrito sobre ele, de ter conversado com as pessoas, eu confesso que fiquei extremamente assustado com o que vi. Eu acuso a burrice da crítica, a burrice do olhar, porque acho que, sendo muito sintético depois do que escrevi, e depois do que o Eduardo escreveu na Cinética, não consigo mais respeitar a crítica brasileira ou ironizar a crítica americana por não entender David Lynch. O Brasília 18% tem diversas características bastante difíceis de serem compreendidas, mas o filme foi tratado como se fosse o filme de um débil-mental, como se fosse o filme de um analfabeto cinematográfico, foi um filme visto de uma forma bastante preguiçosa. Isso chega a me constranger. O filme estava tratando de uma questão absolutamente presente pros brasileiros, a gente sabe como esse tipo de questão cansa as pessoas naturalmente, elas preferem nem sequer falar delas. Grande parte do fracasso do filme acho que vem disso. As pessoas recusaram o filme antes de vê-lo porque falava do mensalão, porque falava de crise política e ninguém mais agüentava isso. E as pessoas que iam ver não aceitavam o filme porque ele não tem uma lógica coerente interna que o guie inteiramente. Mas não é por isso que a gente vai tratar o filme como se ele fosse um negócio extremamente mal feito. Me impressiona que uma figura como o Nelson, que já faz filmes há 50 anos, ainda tenha de repente que provar que não está gagá, que não está esclerosado – porque eu li isso na internet, vi isso em comentários que diziam que ele está preguiçoso. Quem está preguiçoso é quem vai ao cinema e não percebe o que está vendo. Com dois minutos de filme a gente descobre que o protagonista não sabe o que é a realidade. Ao longo do filme inteiro a gente tem uma relação com a política de Brasília que é uma relação muito próxima à que nós temos fora daquele teatro. Na verdade, a grande figura que tenta ligar a política nacional com o seu cotidiano no cinema brasileiro recente é essa. A tentativa de um cara que está perdido e não sabe qual é seu universo, qual é seu lugar.

RG: Bom, eu acho que você está falando de O Maior Amor do Mundo, do Cacá Diegues. Tudo isso que você falou bate exatamente com o filme.

DC: De fato. Agora, com certeza, no filme do Cacá a gente vê um olhar envelhecido que não é o do Nelson. O olhar do Nelson pode ser o de não compreender, mas ele faz questão de deixar isso claro, o que é bastante interessante. E o filme do Cacá foi recebido com muito mais respeito que o do Nelson.

RG: Certamente. O dinheiro da produção exerceu uma pressão nesse sentido. O filme do Cacá é de um orçamento muito maior, e isso pode ter influenciado.

RM: O Cacá é um cara com uma força política dentro dos jornais muito maior que a do Nelson.

RG: Sempre quando a gente fala que tal filme é uma obra-prima e quem não entendeu é burro, a gente arrisca acabar com a discussão, porque basicamente transforma nosso ponto de vista em fundamentalista, e eu acho que você ao falar do filme do Nelson Pereira começou a fazer isso, Daniel. Obviamente eu não acho que o Nelson Pereira está velho demais ou esclerosado, acho-o uma pessoa lúcida, ainda que tenha feito um filme que ao meu ver só vai até um determinado ponto ou não chega em ponto nenhum, ou trabalha com uma certa gama de metáforas e de relações extremamente desgastada. Não sei se sou um débil-mental ou se você vai perder o respeito por mim. A relação não foi só com críticos débeis, mas também com figuras seríssimas, alguns dos maiores montadores, ou jovens curta-metragistas, co-diretores inclusive com você no Conceição, que ficaram tão decepcionados com o filme quanto eu. Não me parece que seja algo tão unânime a ponto de uma reação tão extrema sua.

DC: Foi unânime, o filme foi muito mal recebido.

LL: Há uma diferença entre achar que ele está gagá e ficar decepcionado com um filme de que você poderia muito bem gostar.

DC: Quando eu falo das acusações de gagá e de esclerosado, é porque pra mim isso foi um sinal da preguiça com que o filme foi enxergado, apenas isso. O assunto para as pessoas hoje é um vespeiro. Os filmes que lidavam com as grandes questões nacionais antigamente entusiasmavam muito mais as pessoas. 2006 foi um ano em que as coisas se dividiram. Falando com mais clareza: eu vi o filme do Nelson ser atacado por ser antipetista e por ser petista. Nessa burrice coletiva que tomou o nosso país e o dividiu durante o período das eleições entre pró ou contra, enfim, nesse momento de escolha entre "torcer pro Vasco ou pro Flamengo", o filme vinha de uma figura que tomou sua posição anos atrás e agora percebe isso como algo extremamente incerto. A gente apenas percebe que tem muita coisa podre, mas compreender isso aí é muito difícil.

RM: Só uma questão, que foi curioso, que o Ruy falou, comparando O Maior Amor do Mundo com o Brasília 18%, que tem muita coisa em comum mas acho que a grande diferença entre os dois é o posicionamento, a postura do diretor frente ao que ele apresenta, que ai talvez eu até concorde em parte com o que o Daniel fala de preguiça de receber o filme, acho que é muito mais um lance de aceitação mesmo porque o protagonista do Brasília vai tá perdido e o espectador também dificilmente, ao mesmo tempo que se identifica com ele de tá perdido no meio daquela condição e não saber onde se coloca também não se reconhece tanto, mantém um certo distanciamento e nesse sentido o filme do Nelson é muito mais provocativo, já o Cacá, no Maior Amor do Mundo é sempre aquela mesma coisa de que ele vai idealizar o indivíduo e você se reconhece nele, mas sempre há uma complacência com o personagem e automaticamente com o espectador. Nesse sentido, sim, o espectador é muito mais preguiçoso em relação ao Brasília 18% e o filme se faz muito mais provocativo...

DC: O filme é um enigma!

RM: ...porque o filme do Cacá Diegues, eu acho que ele acaba sendo bem recebido, traz, desperta questões, sei lá, mas no fundo é sempre a mesma e velha questão. Ele vai lá, desperta as questões, mas depois coloca os panos quentes, apazigua, porque aquele indivíduo é passível de erro, é humano e vem com aquele discurso humanista todo... Então nesse sentido há uma certa preguiça sim.

RG: Não, e o filme do Cacá Diegues ainda trabalha sempre aquela coisa: o povo é sempre a mesma coisa no filme do Cacá Diegues. Ele pode ser sofrido, ele pode ser pobre, ele, por ser pobre é um anjo caído, então ele tem que fazer as coisas erradas, mas no limite, ele ainda é aquele, como tem na cena da trepada, ele é aquele que dá a vida, que mostra como é a vida de verdade.

EG: Não só o pobre, como o Negro, né. Todo filme dele trabalha o negro como espetáculo e as raízes...

RG: Esse velho clichê de uma determinada esquerda caduca há mais de 40 anos. E nesse sentido eu concordo que a defesa do Raphael é perfeita e eu concordo com tudo isso. O que você falou é o que eu vi do filme Brasília 18% e de fato acho que os filmes estão em níveis diferentes de qualidade e de complexidade, a relação do espectador com o protagonista, acho que você trabalhou de uma forma perfeita. Eu acho curioso, extremamente curioso que David Lynch venha a ser citado, porque eu acho que as semelhanças dos filmes são puramente circunstanciais, porque na verdade o Nelson trabalha numa chave de relação com a realidade, numa chave de relação com a ficção, com a construção da imagem de uma forma totalmente diferente do David Lynch. E, ao contrário, me parece muito curioso que um nome como Marco Bellocchio não tenha vindo porque, Brasília 18%, apesar de ser um filme que se tiver que dizer que gosto ou não gosto, é um filme que não gosto, é um filme que tece uma série de relações e de comparações, não de superfície, mas profundidade, com A Hora da Religião.

DC: É verdade. Mas com relação ao Lynch é bom esclarecer, a questão é simples: o Lynch é hoje basicamente a figura que é mais reconhecida por criar narrativas que dependem de uma vontade do espectador para interpretá-las e a narrativa do Brasília 18% não fecha. Ele estabelece uma estética que ele não termina, estabelece questões que ele não fecha. Por isso que acho que essa comparação... Muito mais do que o Bellocchio, em que a trama pode ir prum outro lado, mas em nenhum momento você diz "pô, qual é a trama? Como é que ela aconteceu, O que aconteceu de fato?"

LCOJr: Eu me pergunto isso em A Hora da Religião.

RG: Não, no Bellocchio não. Ao contrario, sempre no Bellocchio você vê o personagem tomado por uma série de coisas e a narrativa, na verdade, ela segue a narrativa interna dos sentimentos dos personagens e manda embora a narrativa geral, o que eu acho que é mais um motivo pra corroborar essa aproximação do Bellocchio.

DC: Não existe a idéia do fato que você não compreendeu no filme do Bellocchio. Não tem essa questão. Qual o fato que eu não compreendi? Não tem. Agora nos filmes do Lynch tem. Alguma coisa que ele faz questão de não deixar claro, isso tem.

LCOJr: No Bellocchio tem isso...

RG: O tempo inteiro. Me parece que não só nesse filme como na obra inteira dele.

LCOJr: Tem situações absolutamente fantasmáticas que você... O duelo lá, que pode tanto ter acontecido como não ter acontecido.

RG: Bom, me parece acima de tudo, sobretudo na questão da menina como mcguffin, o filme Brasília 18% recorre a um imaginário extremamente desgastado sem dar muitos passos adiante.

LL: Mas deixa só eu complementar uma coisa disso que o Daniel falou... Parece que o Brasília 18% virou meio que um filme "intocável" do ano, num sentido em que ou você é fã ou você é preguiçoso... Parece que não pode haver uma discussão séria sobre o Brasília 18%. Você começou colocando a questão assim e o outro lado da questão você partiu exatamente pro outro lado da questão, que não dá pra se conversar sobre o Brasília 18% sem tomar um posicionamento...

DC: Não, de jeito nenhum, acho que inclusive esse tipo de discussão é válido. O problema é que esse tipo de discussão não aconteceu na época do filme. Quando ele estreou não havia nenhum argumento desse tipo. Eu acho inclusive, tem algumas coisas que eu concordo inteiramente com o Ruy, com o Raphael... Tem outras coisas que eu adicionaria, mas esse tipo de discussão não aconteceu. Quando o filme estreou ele não teve esse tipo de olhar. Ninguém tentou compreender o personagem do Ricelli, ninguém tentou compreender o que é a trajetória dele em Brasília, o que poderia representar aquele senador e aquela figura, os eventos misteriosos e as coisas que não se esclarecem.

RG: Mas se você parar pra pensar no cinema brasileiro, algum filme teve esse tipo de discussão?

RM: Talvez A Concepção.

DC: A Concepção teve, O Céu de Suely teve, Estamira teve, Tapete Vermelho teve, Anjos do Sol teve, O Maior Amor do Mundo teve.

RG: Tapete Vermelho nem foi visto!

RM: Não, eu discordo do Daniel, o único filme assim que responderia à pergunta do Ruy olhando rapidamente agora foi A Concepção que vai trabalhar algumas questões políticas e acabou despertando isso aí no que se falou sobre o filme, mas isso tá diretamente ligado a como o filme se apresenta formalmente, muito mais impactante, mais agressivo, mais ágil, com uma nova estrutura narrativa... E aí sim, acho que isso vai despertar muito mais questões no espectador padrão...

LL: ...que despertou onde?

DC: Que despertou nas críticas. A gente percebe: uma crítica falava uma coisa, outra falava outra. É isso que eu quero dizer. Do Globo, da Folha, do Estado, da internet, da Contracampo, da Cinética, da Cinequanon, Cinema em Cena... Enfim, esses lugares, as críticas, um observava um detalhe, outro observava outro, havia uma contraposição. Eu não to falando de haver uma grande polêmica, mas de fato você percebe olhares diferenciados. No Brasília 18% só o que eu via era isso, "o filme não acontece, nada faz sentido, o filme é preguiçoso, ele não fez o filme direito". Porra!

LL: Mas, do Brasília 18%, a crítica da Contracampo foi positiva, a crítica da Cinética foi positiva, do Globo foi negativa e a partir desse princípio também houve a mesma discussão.

DC: Sim, sim. Com relação a isso eu concordo.

RG: A Concepção... Engraçado, não sei por que o Bellocchio novamente volta um pouco a minha cabeça, não na chave...

EG: A Concepção?

RG: A Concepção, sim. Acima de tudo por uma certa agressividade de comportamento dos personagens.

EG: Eu vejo mais um Bertolucci de Os Sonhadores em A Concepção do que um Bellocchio.

RG: Ah, não, naturalmente a isso a gente chega com clareza, eu também vejo, mas eu não sei, porque ao mesmo tempo em que o Bellocchio trabalha um meio corrupto, um meio hipócrita em filmes como De Punhos Cerrados ou A China Está Próxima, filmes que foram exibidos na Mostra de São Paulo esse ano e eu pude ver pela primeira vez, eles trabalham o jovem com uma agressividade enorme, é uma agressividade contra o meio e é curioso, porque essa relação do sujeito com o meio tá no Brasília 18%, mas não tem essa agressividade, o Ricelli não trabalha com isso numa chave de agressividade, mas de uma não-compreensão. E essa agressividade, ao contrário, ela funciona de uma forma muito grande em A Concepção, mas ao mesmo tempo eu acho...

DC: Mas são Brasílias bem diferentes.

RG: São, são Brasílias bem diferentes e eu nem tava falando dessa idéia de duas cidades... E, da mesma forma que o Brasília 18%, A Concepcão é um filme que me é extremamente simpático como proposta. Nao é um filme que eu admire, mas é um filme que me interessa bastante como proposta, como uma série de buscas, mas ao mesmo tempo acho que ele é limitado da maneira como ele tenta conformar dois grandes sucessos de circuitinho dos últimos anos, um, claro, que é o filme do Bertolucci sobre cinema, Os Sonhadores, e ao mesmo tempo Os Idiotas, do Lars Von Trier, nessa idéia de um grupo se fechar sobre si e ir chegando até o limite do esgotamento...

DC: Confrontando a sociedade...

RG: Confrontando a sociedade, inclusive existe uma cena da mulher dando de comer pro parente que é tirada, cuspida e escarradamente de Os Idiotas.

RM: A cena que eles estão andando pelados também...

LL: Eu acho que o filme pega muito mais de Os Idiotas do que de Os Sonhadores. Acho que o filme pega de Os Sonhadores muito mais uma certa teleologia do que a forma, a proposta dele...

RM: Não, e o filme vai chupar de Os Idiotas não só a forma narrativa, a condução disso tudo, mas até a idéia do movimento Dogma, criar um certo número de regras e tal que de certa forma tem alguma relação com aquilo que os personagens de A Concepção propõem.

EG: Não...

DC: Me parece um filme muito mais vivo e vigoroso do que Os Sonhadores...

RG: Sem dúvida!

DC: Um filme muito mais acreditando na necessidade do erro.

LL: Durante boa parte do filme, pelo menos

RG: Mas ao mesmo tempo eu fico com uma sensação estranha, quando eu vejo Os Idiotas, independente de gostar do filme ou não, e é um filme que eu gosto, eu vejo que pelo menos existe uma verdade que tenta ser passada. Não que seja verdade daquele grupo, que o diretor tenha aderido aos princípios daquele grupo, mas que ele tenta passar uma verdade daquele grupo. Ao passo que com A Concepção eu não tenho essa clareza, eu vejo isso muito mais com uma certa pose...

EG: Eu também acho...

RG: Uma necessidade de modinha do que algo sólido.

TM: Eu tenho um diagnóstico muito parecido... Um simulacro, uma aceleração inconstante em cima do nada.

RG: Ele parece como se Os Idiotas fosse feito pelo Danny Boyle.

Daniel: Eu acho que isso é muito mais o reflexo da descrença de vocês no projeto deles do que numa descrença no filme.

TM:O que eu estou falando é da ordem da montagem, é da ordem do movimento de câmera, atuação, de toda a mise en scène.

DC: Como assim? Por exemplo...

TM: Por exemplo a parte que eles ficam lá pelados naquela pseudo exposição, e ele fica lá com a câmera...

RM: O próprio tratamento de câmera, ele vai granular no branco... Ele tem uns efeitos estilísticos...

DC: Não, isso aí não, isso eu não concordo. Esse ritmo é um ritmo de linguagem, de estrutura, que a gente pode... Mas o que eu acho que não dá para acusar o filme é de não acreditar, é de zombar do risco dos personagens.

RG: Ninguém tá falando isso.

DC: Não, veja bem, o que eu quero dizer é que quando você vira e diz que ele não está acreditando naquilo... É por isso que eu estou dizendo: eu acho que ele acredita sim. Você falou que de repente em Os Idiotas você percebe isso, que não há uma descrença... É, que há essa verdade, que acredita nos fatos. Eu acho que não acreditar no projeto deles, achar que eles são uns idiotas, umas bestas em acreditar naquele projeto tá muito mais num olhar de um certo espectador que está julgando. O filme, ele entra naquele negócio... Acho que ele tá interessado em tratar um certo ímpeto de juventude. Uma defesa do erro. Nisso que eu acho que o filme pode ser defendido.

LL: Formalmente, o A Concepção trata as pessoas com um certo clichê de modernidade. Pelo menos para mim. Um clichê de modernidade que causa esse distanciamento para retratar os jovens eu teria que retratar daquela forma, eu teria que filmar daquela forma e aí cria já uma certa pose daqueles jovens. Eles já não são mais naturais, mas são aquele exemplo de modo de como se deve tratar a juventude.

TM: Pra mim existe um peso na proposta...

DC: Acho inserido no mundo e defendendo o erro deles.

LCOJr: Eu vejo A Concepção acima de tudo como um filme que tem um conceito sobre Brasília, concorde você ou não, ache você ou não esse conceito mais frágil, mais interessante... É um filme que basicamente se estrutura sobre um conceito de Brasília que o diretor tem e que ele trabalha lá com afinco, sim. E o cara tem uma idéia de estilo, uma idéia de que existe um estilo que ele quer trabalhar ali. O filme em grande parte pra mim é um grande exercício de estilo do Belmonte, pelo menos é o que eu vejo lá se configurando nos curtas dele...

EG: Mas eu acho que o filme é fraco como exercício de estilo, inclusive... Acho ele inócuo como problema de estilo, porque do meio pro final ele meio que nega tudo que ele fez no começo. Acho que ele é totalmente incoerente, auto-explicativo demais, quando ele tenta ser mais palatável, ser mais digerível.

LCOJr: Acho que ele não quer ser digerível, ele tem um conceito, quer provar...

DC: Acho que ele quer ser o anti-Larry Clark, ele não quer julgar os erros. Ele vê como erro mas a vida segue em frente. Ao contrário do Larry Clark, que destrói a vida das pessoas, ele acha que a vida segue em frente. Essa é a grande característica que dá vitalidade ao filme.

TM: Não, acho que ele carrega um peso da proposta que vai nesse sentido do conceito em que ele deixa de ter substância no decorrer do filme. Ele não consegue apresentar uma substância porque ele tem um peso, que é o da proposta.

EG: Acho que ao longo da projeção ele vai se esvaziando. Vai gradativamente se esvaziando, a força com a qual ele começa vai gradativamente se esvaziando.

LCOJr: Apesar de eu ser simpático ao filme, esse é de fato um risco que o filme corre e ele sofre realmente com isso, é um filme que na sua duração vai realmente...

EG: Se fosse um curta era outra coisa, porque todo o vigor dele, inicial...

LL: Tem todo um vigor inicial de desorientação que vai seguindo até o momento em que aquela desorientação vai virando orientação, orientação... E acaba aquilo.

RM: Mas eu não acho que isso seja pra tornar o filme palatável, entende?

EG: Ele fica explicativo...

LL: Não sei se é pra tornar o filme palatável, mas um certo cansaço daquela proposta inicial que vai se dando ao longo...

LCOJr: É uma coisa de saturação, o filme é saturado, sob todos os aspectos. Saturado de tema, saturado de estética modernosa.

RM: É uma certa frustração naquele projeto deles, daqueles jovens e aquilo vai degringolando. É um projeto frustrado mesmo e aquilo lá é acompanhado pela estética que começa toda acelerada, moderna e cheia dos efeitos e vai ficando cada vez mais normal como se ele tivesse vendo aquilo lá como um processo frustrado.

LL: Eu vejo uma forçação de barra em embarcar naquilo que não me soa de forma natural.


Parte 1: Estrutura, documentários

Parte 3: O Veneno da Madrugada, Árido Movie e
estréias em longa-metragem
.

Parte 4: O teatro e o parasitismo,
novamente documentários
.


Parte 5: Os quatro filmes preferidos.

 

 





Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho


Brasília 18%, de Nelson Pereira do Santos


A Concepção, de José Eduardo Belmonte