O DIABO VESTE PRADA
David Frankel, The Devil Wears Prada, EUA, 2006

O diabo veste Prada, mas não é ele quem controla o universo da moda, no fim das contas. Ele nem ninguém. Pode parecer meio clichê, pode até mesmo parecer raso, mas se há uma instância superior e controladora nesse universo da moda abordado pelo filme de David Frankel, esta não deve ser procurada na figura desgastada do grande manipulador de destinos, o mastermind, o vilão que maquina seus planos e exerce seu poder sobre um determinado grupo. O que controla o mundo da moda é sua imagem, a imagem que esse mundo produz e que tem vida própria: a moda, uma vez criada, seja ela um tipo de vestido ou um corte de cabelo, vive seu ciclo (cresce, se espalha, desaparece, retorna) independentemente de quem a criou. É claro que o filme joga com o estereótipo da poderosa chefona através da personagem de Meryl Streep, Miranda Priestly, editora chefe da revista Runaway, algo como uma bíblia da alta costura. Joga de forma inteligente, mostrando como também ela está em alguma medida subjugada por um sistema sem freios morais ou limites financeiros. Temida e respeitada por todos com quem trabalha, Miranda parece reinar absoluta no seu métier. Mas não precisamos esperar pela moral da história: desde o início assistimos ao filme confrontando essa figura anacrônica – de um sistema que possui centro estável, intocável, ao redor do qual todos flutuam ao sacrifício de suas individualidades e mesmo de seus anseios – com a dinâmica dos grandes sistemas multimilionários de hoje, onde tudo é provisório e nenhuma chefia está protegida dos vendavais da lógica de mercado, e onde o “bom emprego” é comumente confundido com uma espécie de escravatura de prestígio (“muitas garotas matariam para estar onde você está”, dizem à nova assistente de Miranda).

Se O Diabo Veste Prada fala de um universo regido por imagens, nada mais justo do que ter uma falsa vilã, Miranda, que precisa sustentar sua fama de predadora porque isso faz parte do jogo. A humanização da personagem, mais que previsível, clichê dos clichês, acaba acontecendo de maneira muito interessante, sem que ela abandone a imagem (o look fatal de Miranda já no finzinho do filme, antes de entrar no carro, é daqueles planos que, de tão codificados e saturados, só podem funcionar com determinadas atrizes, e Meryl Streep definitivamente é uma delas). Ela se descortina na nossa frente como “pessoa comum” na cena do hotel, quando fala de seu iminente divórcio, mas isso ocorre sem que ela deixe de ser a personagem que é no dia-a-dia, o diabo que aterroriza um prédio inteiro em Nova York. Uma coisa está emaranhada na outra, não há como separar e fazer Miranda mudar da água pro vinho, pois o filme trata de transformação, claro, mas não dela, e sim de Andy Sachs, a personagem de Anne Hathaway, a jovem jornalista que vai trabalhar como sua assistente.

Andy é a personagem principal do filme, que nos permite entrar naquele universo mesmo sem pertencer a ele. Ela, que nunca ligara para moda, se vestia mal, nada tinha a ver com aquilo, pouco a pouco entra na dança, aprende a se vestir, torna-se uma super-assistente. O olhar parcialmente distanciado, contudo, permanece no filme, e há sempre uma tensão de escape, de fuga daquele espaço límpido e reluzente. David Frankel, de currículo considerável em séries de TV (Sex and the City, por exemplo, com quem o filme guarda paralelos que não chegam a incomodar), não tomou o caminho fácil da glamourização excessiva das imagens. Ele sabe que o mundo que filma é uma imagem a priori, sabe que a Nova York e a Paris que filma estão pré-estilizadas pelo filtro fashion, então prefere não pesar uma segunda mão de verniz, e apenas transita por esse mundo, age como quem está de passagem, tentando acompanhar sua velocidade e volúpia. Com isso, com essa dinâmica que nada mais é que a adesão ao ponto de vista da apaixonante Andy, O Diabo Veste Prada consegue ao mesmo tempo estar dentro e fora do universo da moda. Andy muda ao longo do filme, passa por seu rito de iniciação profissional, cativa as pessoas que estão a seu redor. Mas ela precisa sair dali e seguir em frente, porque o sistema, ao contrário dela, não mudará. Cada um com seu cada um.


Luiz Carlos Oliveira Jr.