A primeira informação que recebemos
de O Último Rei da Escócia é uma tela preta com
letras brancas que nos avisa que o filme foi inspirado
em fatos reais. Avisos como esse parecem querer legitimar
o filme como peça histórica contendo relatos relevantes
ou justificar a existência de “cenas fortes” aparentemente
exageradas, como que já se preparando para responder
críticas de senhoras horrorizadas sobre a violência
excessiva com a resposta “é triste, mas é a realidade”,
estampada antes do próprio filme começar. Mas a ligação
imediata com a realidade que esse aviso evoca, em se
tratando de um filme cujo contexto histórico é o de
uma ditadura sangrenta em um país da África na década
de 1970, aumenta a idéia já contida no próprio enredo:
um filme-denúncia. No entanto, são necessários apenas
30 minutos de filme para se perceber que o principal
interesse do diretor Kevin Macdonald é criar tensão,
utilizando o período da ditadura de Idi Amin em Uganda
como pano de fundo “eletrizante” para a aventura de
seu protagonista, posicionando-se longe de qualquer
tipo de denúncia a ser levada a sério.
Logo que entramos nos “fatos reais” da cartela inicial,
somos rapidamente apresentados ao jovem escocês Nicholas
Garrigan - recém-formado em medicina e com um desejo
latente de fugir do cotidiano prosaico que sua família
preparou para ele - e em menos de 3 minutos é feito
um salto da Escócia para Uganda, onde “Nick” vai ajudar
pessoas miseráveis. Embora cheio de clichês a princípio,
o personagem de Nicholas é bem trabalhado pelo filme.
Sua gradativa mudança de consciência sobre a situação
de Uganda é óbvia dentro da trama, mas interessante.
No pouco tempo em que fica lá, ele deixa de ver sua
viagem como apenas uma aventura (uma de suas primeiras
atitudes quando chega no país é flertar e ir pra cama
com uma jovem, sem se interessar sobre o que ela diz
sobre o golpe que o general Idi Amin acabara de dar),
e passa a entender a necessidade de uma estrutura de
saúde no país e, posteriormente, a complexidade política
causada por anos de imperialismo. Sua melhor compreensão
da situação de Uganda deriva de um maior envolvimento
com ela e com o próprio ditador/presidente Idi Amin,
mas também será motivo de toda a tensão criada pelo
diretor.
Se o peso do personagem de Nick se dá pelo tempo em
que a narrativa o acompanha – quase a totalidade do
tempo do filme –, o de Amin se dá pela força da interpretação
de Forrest Whitaker. Sua presença em quadro faz os personagens
e os espectadores tremerem e rirem. Ele é um ditador
excêntrico, lunático e violento, cuja personalidade
fascina e abala as pessoas a sua volta, e tudo isso
está presente na maneira de se colocar em cena do ator.
Mesmo sendo tomado por um bobalhão por Nick no início
do relacionamento dos dois, para os espectadores está
claro que esse homem não é um ditador à toa. Amin é
o bandido, o vilão, enquanto o escocês é obrigado a
ser algum tipo de herói, devido à proximidade deles
(Nick é convidado a ser o médico particular de Amin)
e a facilidade que ele tem de interferir na vida do
general.
A questão é que Amin não é um vilão apenas para Nick,
ao contrário do que faz parecer o filme. Mesmo com toda
a insistência na questão de um certo retrato da realidade
(o que a fotografia granulada, as referências biográficas
a Amin e as imagens de arquivos “refilmadas” só tendem
a ampliar), a encenação exagerada coloca Amin como antagonista
unicamente do jovem escocês, pois é com a segurança
dele que o filme joga ou se preocupa. O Último Rei
da Escócia, em um certo ponto, abraça o gênero do
suspense e assume que a sobrevivência de seu protagonista
importa mais que a situação de todo um país. Mas como
esquecer que aquele homem foi responsável por mais de
300.00 mortes durante a sua ditadura, como uma outra
cartela, agora no final do filme, faz questão de nos
informar?
Por mais que se afirme que o país ganha a importância
devida quando o jornalista inglês aparece e começa a
abrir os olhos de Nick para as atrocidades cometidas
por Amin sobre o povo ugandense, finalmente exigindo
que o médico arrume uma forma de assassinar o General,
é interessante perguntar “que povo ugandense?”. Onde
está esse povo no filme? Como massa, o povo é tratado
como alienado e ingênuo, dividido entre a felicidade
com a tomada de poder por Amin e a inércia conformada
dos habitantes, tão exagerada na generalização do filme
que chega a reificar essas pessoas. Individualmente,
os poucos ugandenses presentes parecem só estar lá para
cumprir sua função na trama, como é uma das esposas
de Amin, com a qual Nick se envolve, e o antigo médico
particular dele, sem nos aproximar de um lado mais íntimo
dos problemas do país, que estaria para além dos estereótipos
e do resumidos livros didáticos de história. Em contrapartida,
os ingleses cujo escocês principal nutre uma antipatia
derivada de razões políticas e históricas, são colocados
como as pessoas cientes da situação, preocupadas e ativas
no movimento para derrubar o ditador, o que é bastante
estranho se pensarmos que foram os próprios europeus
que submeteram os países Africanos àquela situação,
após anos de exploração imperialista e de parceria com
governos corruptos.
Todos esses fatores parecem ser fruto de uma certa inabilidade
do diretor Kevin Macdonald, cuja câmera é a principal
cúmplice. Ao apresentar Uganda aos nossos olhos, ela
trata o ambiente e as pessoas de uma forma exótica e
pouco interessada já tão comum nos filmes passados na
África – com direito a uma espécie de tique de câmera,
um zoom rápido como a lente de um turista buscando um
close, que se repete incessantemente. O pretexto de
que esse olhar inicial representa o olhar de Nick ainda
na fase aventureira de sua viagem seria interessante
se o filme não mantivesse o mesmo comportamento da câmera
por todo ele. O zoom que antes procurava o belo sorriso
de um africano é utilizado com a mesma forma para procurar
suspense e tensão nos olhares dos personagens, quando
a vida de Nick entra em perigo. O acúmulo da tensão
durante o filme cria um efeito do tipo bomba-relógio
em que, como no final de um filme do 007, o mundo inteiro
parece depender de uma certa luta contra o tempo de
um personagem. Interessante notar que o ponto de alívio
do filme, em que o tempo volta ao normal e pára de se
comportar como comparsa do vilão, é exatamente quando
o protagonista consegue fugir do país. Mesmo que Uganda
ainda esteja nas mãos de um ditador insano, não há mais
motivo para suspense, pois o resto é História, são números
e estatísticas. O resto é a África.
Se não fosse o fato do filme se travestir de um filme-denúncia
que chama atenção para um tema atual (a África, mesmo
que aqui no passado), talvez ele se saísse como um filme
intrigante, com reviravoltas de roteiro e boas atuações.
Mas uma questão do tamanho da que o filme pretende abordar
não pode ser tratada como um simples filme de gênero,
de mocinho ingênuo e bandido mau. Os "fatos reais"
tão ressaltados na propaganda, na crítica, definitivamente
criaram o principal defeito dele, impossível de se relevar.
Bernardo Barcellos
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