PARALELAS E TRANSVERSAIS
Gatão de Meia Idade, de Antonio Carlos da Fontoura
O Veneno da Madrugada, de Ruy Guerra


Brasil, 2006
Brasil, 2005


É o novo, é o novo, é o novo, é o novo, é o novo...

À primeira vista, nada haveria de semelhante entre O Veneno da Madrugada, novo filme de Ruy Guerra, e O Gatão de Meia Idade, de Antônio Carlos Fontoura. Enquanto o primeiro se insere, conscientemente, na categoria um tanto redutora de "filme de arte" isto é, projeto totalmente autoral, de difícil assimilação, disposto a ser visto por um público pequeno, mas fiel o segundo se insere, conscientemente, na categoria um tanto redutora de "filme comercial" projeto de estúdio, fácil assimilação, disposto a ser visto por um público grande, mas disperso. Mas, como as aparências enganam e esclarecem , um estudo mais aprofundado percebe nas duas obras uma mesma questão, um mesmo problema: como, dentro das respectivas categorias, seus diretores, remanescentes de um cinema pré-retomada (e, ainda, que começaram suas carreiras em um momento pré-Embrafilme) podem situar-se com sucesso dentro de um novo tempo? Se nem Guerra, e tampouco Fontoura, conseguem dar respostas satisfatórias a esta questão, os tropeços que inserem nelas podem ser bastante significativos. De um lado e de outro, esta pergunta afronta os realizadores e pode ser repassada a nós: no início do novo milênio, que tipo de cinema ainda é válido? O Veneno da Madrugada e O Gatão de Meia Idade parecem ter sido feitos com a interrogação rondando o set de filmagem, e infelizmente os filmes, em vez de combatê-la, foram dominados por ela.

Baseado em um romance de Gabriel Garcia Márquez, a própria premissa de O Veneno da Madrugada já sugere um filme cujo caminho escolhido, se considerá-lo "errado" for exagero, é no mínimo ultrapassado. Como em vários dos livros de Gabo, a ação de O Veneno da madrugada passa-se em um local desconhecido da América Latina, representante da totalidade do espaço físico nela incluso, com personagens que, antes de pessoas, são retratos sociais, personificando relações que estabelecemos dia a dia um com o outro. Mas partir de uma América Latina alegórica, construída a partir dos estereótipos que criamos dela, hoje em dia, é falar de América Latina alguma. Nos últimos 45 anos (período entre o início da carreira de Guerra e a época atual) percebeu-se que não existe uma América, mas milhares; que nossa essência não é o espaço rural, mas todos os espaços; que para um carioca muitas vezes a identificação com os Estados Unidos da América é maior do que, por exemplo, com a Venezuela. O Veneno da Madrugada não diz nada sobre o Rio de Janeiro, sobre Bogotá, sobre a pequena cidade chilena com cinqüenta habitantes que deve existir. Passa-se em um tempo estranho, em lugar nenhum, é um filme perdido nas telas de cinema do século XXI, apontando para algum caminho que já não existe. Se alguns dos filmes brasileiros de maior força que surgiram nos últimos anos Cidade Baixa, Cinemas, Aspirinas e Urubus... ou mesmo argentinos O Pântano, Do Outro Lado da Lei... trazem consigo a relação inevitável com o espaço físico existente e restrito, e destróem os mitos desse espaço para adentrar a realidade, O Veneno da Madrugada é a reafirmação do mito. Tolstói disse, em ditado hoje clássico, de que para falar do mundo deve-se falar de sua aldeia. Guerra não percebeu que os alcaides já não pertencem a aldeia alguma. Ou talvez até tenha percebido.

Como se a construção social que representara não bastasse (e realmente não basta), como se o retrato dominador/dominado que criara já não fosse nada em inícios do século XXI (e realmente não é), o diretor precisou incrementar sua narrativa, de forma a dar "valor" a ela, com elementos filosóficos. O problema é que, dentro de O Veneno da Madrugada, a relação que se estabelece entre filosofia e sociologia é simplesmente idiota. Fora a necessidade de tentar ser original, diferente, novo, singular, fora o desejo de se manter um autor "relevante" quando nada tem a dizer em uma época que já não lhe pertence, nada justifica a inclusão de um anão e uma cigana dissertando sobre "as flechas do tempo". O que deveria ser uma interrogação filosófica acaba parecendo uma idéia surgida de um remake piorado de Efeito Borboleta, pois cheio de afetação e "genialidade". E de certa forma, infelizmente, essa necessidade de encontrar uma forma de ser "novo" e, portando, válido, está presente em todos os momentos da construção do filme, seja na fotografia de Walter Carvalho, nas atuações não-naturalistas dos atores, na dublagem que Guerra impõe a eles, na mise-en-scène criada. Todos os aspectos de O Veneno da Madrugada têm simplesmente a função de chamar a atenção para o filme em si, de reconhecer como o diretor que está por trás daquilo é genial, sem significar propriamente algo, sem se transformar em qualquer espécie de unidade. O Veneno da Madrugada é o grito de socorro de um cineasta que se afoga nas águas do rio que criou. Grito este, porém, que nada diz, e destina-se a ninguém. Ter ficado apenas duas semanas em cartaz no Rio de Janeiro não parece ter sido um lance de azar.

Em O Gatão de Meia Idade, a idéia de realização é diametralmente oposta. Para inserir-se no cinema deste início de milênio, Antônio Carlos da Fontoura aposta em uma comédia de costumes destinada a um público específico, a classe-média alta moradora dos centros urbanos e que, "coincidentemente", é a fatia de público que tem dinheiro para transformar a ida ao cinema em um programa corrente. Com esse gênero consagrado por Normais, Comédias das Vidas Privadas e Pequenos Dicionários Amorosos recorrentes nos últimos anos, O Gatão de Meia Idade, e sua decupagem simplista de campo/contracampo, sua total falta de pensamento cinematográfico (poder-se-ia dizer que foi filmado em alguma espécie de piloto automático) e seu elenco televisivo, em nada se difere de um especial de fim-de-ano ou uma sitcom da Rede Globo, na qual o texto carrega e determina o que vemos na tela.

Ou melhor, em quase nada. Dentro de sua radiografia do macho de 40 anos da Zona Sul do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Fontoura incorre num problema bastante parecido com o de Ruy Guerra. Enquanto o diretor angolano optou por um espaço imaginário para tentar alcançar a realidade (com resultado, como já foi comentado, pífio), o cineasta brasileiro transforma o espaço real em um local imaginário. No fim das contas, o resultado é o mesmo: a reafirmação dos estereótipos e mitos existentes sobre o local. Mesmo com a Lagoa Rodrigo de Freitas ao fundo, o Rio de Janeiro de Fontoura não deixa de ser a cidade de O Veneno da Madrugada, um lugar-nenhum. Aqueles personagens não se parecem com a gente, seus diálogos soam falsos, as situações inacreditáveis, os dramas distantes. Falta a Fontoura uma visão mais sensível sobre este chão que pisamos, uma atenção aos detalhes, uma maior profundidade. Tudo bem, a uma comédia talvez baste ser engraçado. Mas para ser engraçado, o protagonista teria de parecer algum de nós, um conhecido ou pelo menos aquela pessoa que vemos passeando na rua e destaca nossa atenção. O Gatão de Meia-Idade, tal qual o Alcaide, simplesmente não é ninguém. As poucas pessoas que estavam na sala quando assisti no cinema em pleno Rio de Janeiro na primeira semana em cartaz podem reafirmar isso. Um filme de grande-público que não provoca um riso. Se os especiais da Rede Globo, por mais que normalmente não tenham grande valor cinematográfico, conseguem divertir, O Gatão de Meia Idade não consegue nada.

O Veneno da Madrugada e O Gatão de Meia Idade, portanto, são mais próximos entre si do que se poderia supor uma visita superficial. Duas obras que tentam dar uma visão sobre nossa realidade mas que, cada uma a seu modo, apenas repisam aquilo que já sabemos e, mais, aquilo que não somos. Uma América Latina idealizada e um Rio de Janeiro inexistente. O tempo, ao contrário do que Guerra tenta explicar, passa, e nenhum dos diretores soube dialogar bem com ele. Na busca de caminhos para tentar se atualizar em nosso cinema, apenas um se confirmou, e não há como chamá-lo, infelizmente, de positivo: Guerra e Fontoura nos ensinam como partir do nada para chegar ao lugar nenhum.


Leonardo Levis