O NOVO MUNDO
Terrence Malick, The New World,
EUA, 2005

Terrence Malick utiliza a mesma música – a Abertura da ópera O Ouro do Reno, de Richard Wagner – tanto para a chegada dos navios ingleses à costa da Virgínia em 1607, quanto para a delicadíssima e onírica seqüência em que Pocahontas (agora Rebecca) falece, nove anos depois, na Grã-Bretanha. Em O Novo Mundo, a morte é presença constante, assim como a vida: frente à impassibilidade da natureza e à omissão de Deus, restam aos personagens mergulhados na dúvida e no desamparo a procura pelo Outro que os complete, a fim de que possam lutar contra o caos e a incompreensão que reinam entre os homens. Filme sobre desterrados, obra fordiana, embora elíptica e sensória, O Novo Mundo semeia a crença de que é possível construir ambientes afetivos onde se consiga viver e ser feliz – de que a árvore, enfim, sempre cresce, por mais galhos que perca no caminho.

O primeiro plano de O Novo Mundo mostra o céu refletido na água, que se turva gradativamente. Corte para Pocahontas, braços estendidos para o alto, clamando para que o Espírito venha e a ajude a contar a história de sua terra. Desde o início, Malick deixa claro o desequilíbrio homem / natureza e a ameaça permanente da morte – o céu que desaparece na água turva –, e as perguntas incessantes de seus personagens (que obtêm como respostas, daqueles que os criaram, apenas o silêncio), da mesma forma que aproxima a narrativa da fábula e dos sonhos e a afasta do relato histórico ou da ficção dramática. John Smith vaga pela América, em transe, observando, tentando contatar e apreender o ambiente circundante, que sempre lhe escapa, enquanto Pocahontas dialoga em vão com a Mãe surda e ausente: a natureza irremediavelmente distante, fora do alcance e da compreensão dos homens. Nada mais errado, por conseguinte, do que ligar Malick à ecologia, pois, se para o diretor a natureza não se apresenta caótica e negativa como em Werner Herzog, ela certamente também está longe de ser pacífica e harmoniosa – o meio natural (e Deus) é absoluto e, portanto, insensível, impassível, intocável, inacessível. Puro Mistério, que não se dá ao conhecimento dos personagens que, brancos ou índios, subsistem no caos, em virtude de suas diferenças civilizatórias (culturais, lingüísticas, religiosas). O abismo entre o homem e a natureza surge com toda força durante o ataque dos powhantas ao forte quando, em meio à carnificina da batalha, Malick corta primeiro para o vento que balança a relva, e depois para o sol que se esconde por trás das nuvens, ambos somente se limitando a constatar a loucura e a estupidez de seus filhos. E por que nada fazem para impedi-las?

Se o Capitão Smith associa o cotidiano indígena ao Paraíso, trata-se da visão parcial e contingente do personagem que, cansado da vida falsa que leva, deseja abandonar o antigo nome e recomeçar. O interesse de Malick, ao contrário, não está na natureza – idílica e pura aos olhos do estrangeiro degredado (Smith não chega à América como herói, e sim enquanto prisioneiro) –, mas nos homens, como demonstra a seqüência em que Pocahontas (a filha mais querida do líder da tribo, representada pelo plano singelo da planta solitária que emerge do pântano) aprende a falar inglês: primeiro, referindo-se aos elementos naturais – o céu, o sol, a água, o vento –, para em seguida centrar-se no corpo do amado – os olhos, os lábios, a orelha. Contra o silêncio de Deus, o Amor. Contra a omissão da natureza, o relacionamento do Um com o Outro. Do mesmo modo que Tristão e Isolda, Pocahontas e Smith se completam, tornam-se um único ser, enquanto a suposta morte do capitão no naufrágio acaba, nas palavras da própria heroína, por “matar o deus” que dentro dela existia.

Para Malick, “novo mundo” possui significado que ultrapassa, e muito, a simples idéia do início da colonização dos EUA, embora o contexto sociológico esteja presente. Neste sentido, no triângulo amoroso no cerne do filme, Pocahontas representa a América (e Smith a chama de “minha América”), John Smith a primeira leva de imigrantes – os aventureiros –, e John Rolfe a segunda onda – os colonos. A cisão da protagonista entre o explorador / conquistador e o agricultor / fazendeiro é a mesma de um país dividido, desde as origens, entre o desejo expansionista (de marchar para o Oeste, de se tornar potência global) e o acolhimento do estrangeiro (a terra das oportunidades), o que faz de O Novo Mundo a obra política que críticos experientes como Jonathan Rosenbaum se recusaram a enxergar, por razões estapafúrdias. O cineasta, no entanto, rejeita simplificações e demagogia: por que Pocahontas, ou melhor, Rebecca, encontra a felicidade e a paz de espírito na Inglaterra, aculturada e casada com Rolfe, longe de seu povo e de sua pátria?

Em O Novo Mundo, há profusão de plano que usam o quadro dentro do quadro, ou seja, que recortam a tela através de elementos cênicos, como portas ou janelas, pelos quais os personagens observam o ambiente. São planos que citam e homenageiam John Ford – como esquecer o final de Rastros de Ódio? – e que Malick não decupou por mero capricho. O cinema fordiano privilegia os desterrados e os exilados, outsiders que se sacrificam pela comunidade e que dela são expulsos, necessitando fundar suas próprias coordenadas, inserir-se em outras relações sociais e afetivas que dêem sentido à vida. Pois não é o processo exato que verifica em O Novo Mundo? Pocahontas abandona o lar, a família, a cultura, a língua, o nome; transforma-se em Rebecca, muda-se para o forte, é batizada, casa-se com Rolfe, vai para a Inglaterra. Desterritorialização e reterritorialização: ela cria novos laços, nos relacionamentos, novos afetos. Claro que a afirmação do ato de viver (o “tema central” a que o diretor se refere, em suma) não se dá sem dor, sofrimento, decepções e perdas, seja para os EUA, que enfrentarão séculos de guerras e de massacres em nome da liberdade e da iniciativa; seja para os powhantas, que são expulsos de sua aldeia pelos brancos; seja para John Rolfe, que presencia a morte da esposa; seja para John Smith, que sonha tanto com as Índias que não percebe tê-las ultrapassado; seja para o índio que vaga fantasmagórico por Londres, em busca do Deus cristão; seja para Rebecca, que precisa abdicar do passado e do primeiro amor para lutar contra o caos, para finalmente ouvir e compreender a grande Mãe. Para Terrence Malick, porém, vida é resistência, tal qual a árvore que, encerrando o filme, suporta todos os golpes para crescer em direção à luz.

O próximo filme de Terrence Malick se intitula The Tree of Life, com previsão de lançamento para 2008. Não estaria a semente da árvore da vida já devidamente plantada em O Novo Mundo?

Paulo Ricardo de Almeida