FILMOGRAFIA COMENTADA

INTRODUÇÃO À FILMOGRAFIA:

Publicar uma filmografia crítica de Manoel de Oliveira tem uma razão bastante natural. Por mais que já houvesse muitos textos escritos na revista (como se pôde conferir na lista de textos linkados na cobertura da Mostra) e praticamente todos os redatores que acompanharam a retrospectiva já tivessem visto pelo menos uma dezena de filmes do diretor homenageado, uma das coisas que a ocasião recente trouxe de novidade (além, é claro, dos filmes que eram inéditos para nós) foi a visão em conjunto – aqui significando um conjunto da redação, que assistia aos filmes quase todos em bando, e da obra de Oliveira propriamente dita. A filmografia crítica que propomos é quase o nosso tributo ao "conjunto da obra" de Manoel de Oliveira. Houve a necessidade de responder individualmente a cada um dos filmes que nunca tínhamos visto (incluindo os curtas-metragens a que tivemos acesso) e também a iniciativa – não propriamente ambiciosa, mas simplesmente educada (pois se trata, em grande medida, de agradecer enfaticamente a essa oportunidade) – de fazer um inventário completo da nossa recepção aos filmes apresentados na retrospectiva. Essa resposta filme-a-filme apareceu como uma espécie de obrigação para a pauta: registrar todos os passos de uma peregrinação ao longo dessa obra tão extensa e maravilhosa. E ainda ficarão faltando algumas pistas que nos foram "negadas": uma meia-dúzia de curtas, os dois médias-metragens de 1983 (Lisboa Cultural e Nice, À Propos de Jean Vigo) e, principalmente, o longa-metragem O Meu Caso (1986) são os filmes de Oliveira que não vieram para a Mostra, e por esse motivo estão de fora da filmografia aqui comentada. Mas podem ter certeza: o dia em que chegar a feliz ocasião de preencher a lacuna acima, essa filmografia ainda ficará completa.

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DOURO, FAINA FLUVIAL, 1931, Portugal
Douro, Faina Fluvial é o filme que testemunha o début de Manoel de Oliveira no cinema. Como primeiro impulso, ele vira sua câmera para a cidade que o viu nascer (o mundo que ele conhecia bem), criando uma sinfonia à semelhança das sinfonias de cidades que proliferaram nos anos 20. Sua orquestração encadeia imagens com enorme rapidez, a partir de movimento internos e grafismos, numa montagem que remete às teorizações dos soviéticos. Impregnado do modernismo vanguardista da época, o filme faz uma cartografia dinâmico-afetiva do Porto, acompanhando as relações de trabalho estabelecidas a partir da presença primordial do rio Douro. Grandes close-ups, máquinas a todo vapor, braços empenhados num incansável labor, a atividade da pesca, a venda de produtos e a circulação de mercadorias se alternam neste mapeamento da fisiologia econômico-social da cidade, alimentada principalmente por um bairro operário. Os pequenos feitos diários dos trabalhadores encontram-se documentados com simplicidade e o ecossistema que estes formam com o rio e a terra que os alimenta vai tomando forma através da cuidadosa relação tecida entre os planos. Esta montagem, tomada como específico fílmico, foi realizada pelo próprio Manoel de Oliveira na mesa de bilhar da casa do seu pai – cena que vemos belamente reconstituída em Porto da Minha Infância. O filme ganhou posteriormente uma trilha original e sua montagem foi refeita, para se ajustar em alguns pontos ao som. Oliveira ainda voltaria a ele algumas vezes, tanto em termos de manipulação do material (a última foi em 1994, quando o filme foi restaurado e ele buscou restituir-lhe sua montagem primeira), quanto de retomada "temática" (Aniki-Bobó, O Pintor e a Cidade, Porto da Minha Infância). Douro, Faina Fluvial, ainda que bastante diverso do estilo que viria a caracterizar posteriormente a obra de Oliveira, posa como uma declaração de princípios, definindo como primordial na relação do realizador com o cinema (que nesse momento era para ele uma atividade de interesse entre outras) a presença de tudo o que o rodeia: sua terra, sua cultura, sua língua. (Tatiana Monassa)

HULHA BRANCA, Portugal, 1932
Ao filmar a empresa hidroelétrica que seu pai construiu, Oliveira confirmou a inquieta experimentação que apresentara em Douro, Faina Fluvial – exploração de todos os ângulos de câmera que lhe parecem possíveis, musicalização da montagem, fragmentação gráfica do espaço – e evidenciou sua vocação estética para a apreensão de uma beleza imantada do tempo, da natureza e sua transformação pelo homem. As águas represadas pela pesada engenharia acham sempre uma brecha, escapam por entre as pedras e pelas fissuras das paredes de cimento. A montagem não deixa o curso se estagnar; o livre escoamento de imagens se assume uma obrigação estética diante daquele fluir. Já ali não resta dúvida: Manoel de Oliveira é um poeta do fluxo, um pensador mobilista, um cineasta "sem grande esforço". Hulha Branca, com sua rusticidade encantadora, faz parte do conjunto de filmes-experimento que Oliveira rodou a título de cinegrafista autodidata e montou sobre sua mesa de sinuca. (Luiz Carlos Oliveira Jr.)

PORTUGAL JÁ FAZ AUTOMÓVEIS, Portugal, 1938
Como tudo em Oliveira, este filme é sobre uma paixão. Quem o conhece só de ver seus filmes recentes não desconfia, mas Oliveira é amante da velocidade, tendo até disputado, na juventude, corridas automobilísticas pilotando o que hoje se chamam as "baratinhas". Ele chegou a vencer um famoso circuito realizado no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, um evento marcado pelos diversos acidentes nas curvas perigosas. Portugal Já Faz Automóveis, mesmo que desprovido de um encanto cinematográfico mais evidente, revela-se uma pérola justamente por entregar essa faceta juvenil-desportista do diretor, e também por ser um estudo menos sobre a velocidade e a dinâmica envolvidas no automobilismo e mais sobre a plástica do carro e sua fabricação (interesse pelo processo produtivo que retornaria, sobretudo, em O Pão). É um filme sobre design; o interesse na forma dos automóveis – a forma que eles adquirem e a forma com que são concebidos – é seu grande "motor". Partindo de um tal ponto de vista sobre a produção, a etapa chave do filme se dá na montagem, que valoriza o fragmento – ou a peça – justamente na sua maneira de se articular com o todo. Pequeno filme científico – verdadeiro documento sobre a passagem do modelo fordista para a produção personalizada (os carros eram feitos sob medida para os pilotos) – e espécime ancestral de campanha publicitária, Portugal Já Faz Automóveis está longe de ser irrelevante na filmografia de Oliveira. (L.C.O.Jr.)

FAMALICÃO, Portugal, 1940
Classificado pelo próprio Oliveira como "um filme menor", Famalicão faz parte de uma série de curtas documentários que ele realiza entre as duas primeiras décadas de sua carreira, sendo a maioria sob convite de amigos ou empresas, e que ele aceita para se manter em atividade. Destes, porém, talvez seja o filme que, em retrospecto, mais antecipa aspectos de várias obsessões do diretor no futuro, notadamente a figura de Camilo Castelo Branco, escritor do século XIX fundamental na sua obra do final dos anos setenta. Aqui, Camilo tem sua casa visitada por Oliveira neste filme-propaganda da região do título, antecipando especialmente O dia do desespero (1992), espécie de filme biográfico que se passa todo no espaço desta casa-museu. Chama a atenção, em especial, a presença nos dois filmes, com seus cinquenta anos de intervalo, de um mesmo plano: o da cadeira de balanço na qual Camilo suicidou-se, balançando vazia. Mas, além da referência à figura do escritor, há outros aspectos que chamam a atenção, como o retrato que o diretor faz das três principais indústrias da região (muito parecidos com o que já tínhamos visto em Hulha Branca e Portugal Já Faz Automóveis, veríamos ainda depois em O Pão, e que parece muito revelador de um aspecto de processo-fluxo do qual trato com mais cuidado no texto do glossário). E, ainda, Famalicão é talvez o mais abertamente engraçado dos filmes de Oliveira, com a locução de Vasco Santana criando um jogo de fina ironia com as imagens que mostra, ironia esta que revela a muito subestimada irreverência do realizador. A notar ainda uma das primeiras seqüências, que envolve uma carroça e um posto de gasolina, que une vários destes aspectos com a preocupação constante de Oliveira com a relação entre modernidade e tradição. (Eduardo Valente)

ANIKI-BÓBÓ, Portugal, 1942
Praticamente ignorado à sua época, o primeiro longa-metragem de Oliveira já meio que desfruta hoje de uma aura mítica: antecessor da estética e de parte da temática neo-realista, conto moral universalmente eficaz, inocência dos primeiros clássicos associada a uma modernidade precoce... O fato é que Aniki-Bóbó é um dos filmes mais doces da história do cinema. E já revela aquilo que Oliveira seria pelo resto da carreira: uma criança com sede de vida, com sede de mistério. Os personagens são mirins, mas o peso do enredo é adulto, com todos os planos se colocando numa altura que corresponde ao alcance (moral e visual) dos personagens, sempre atirados a situações que impõem escolhas. Um filme montado por raccords de olhar ("Um plano deve ser sempre um ponto de vista", diria Oliveira décadas depois). Quem viu o filme jamais esquecerá da cena em que, no meio da noite, um menino sobe ao telhado da menina de que gosta para lhe entregar a boneca apanhada – digamos, indevidamente – na "montra das tentações". A cidade do Porto já se mostra o espaço poético que seria reverenciado em filmes como O Pintor e a Cidade e Porto da Minha Infância. As crianças se afobam na busca de seus desejos, e um intervalo de duas décadas se intrometeria até o longa-metragem seguinte (Acto da Primavera), mas o tempo em Aniki-Bóbó se move sem pressa, a atmosfera é tranqüila, não há nuvens tapando a claridade: o cinema de Oliveira vive uma bela manhã de sol. (L.C.O.Jr.)

O PINTOR E A CIDADE, Portugal, 1956
A imagem sintética de uma "proto-imagem" do cinema, um trem em movimento, é um tema visual recorrente em O Pintor e a Cidade. Primeiro trabalho a cores de Manoel de Oliveira, este é, segundo o próprio, o filme que proporcionou sua mudança de reflexão sobre o cinema – cujo ponto fundamental teria sido "a descoberta do tempo". E o tempo, que torna possível o movimento (quase matéria-prima do cinema) é justamente o que afasta as imagens de trem filmadas por Oliveira das pintadas por António Cruz, o pintor que ele acompanha pela cidade do Porto. Este parece ser o início da misteriosa pictorialidade que percorre as imagens de diretor, assim como sua profunda noção de temporalidade da imagem. Se o trem, como registrado por António Cruz e por Oliveira, parece ser de fato o mesmo trem (em cores, em composição, em impressão imagética, no som que não escolhe as imagens para sonorizar), a película e seu movimento irão acusar a natureza diferente da sua relação com o real. O Porto das maravilhosas aquarelas de Cruz, no seu realismo impressionista, alterna-se com o Porto de Manoel, que cuida de também retratar o pintor no seu ofício. Escolher um lugar, estabelecer a tela e então tornar materialidade em cores o que se testemunha do mundo. Se, em termos de princípios, a câmera dos irmãos Lumière não diferia muito dos pincéis impressionistas contemporâneos seus, a câmera de Oliveira dança valsa com os quadros de António Cruz. Filmar uma imagem estática, a de um quadro, pintar uma imagem em movimento, a de um trem, filmar o movimento, a técnica do pintor e sua relação com a cidade, relacionar-se com a cidade familiar e com as imagens possíveis de decalcar dela. Criar, nos interstícios disto tudo, um fascínio inexplicável pela imaterialidade da imagem cinematográfica. O encanto pela sua fugacidade. E o discernimento de que a permanência pode alterar sua percepção. Porque, se a montagem é o específico fílmico, então o tempo é seu princípio organizador. Tempo das imagens, tempos da cidade, que Manoel de Oliveira maneja com perfeição. (T.M.)

ACTO DA PRIMAVERA, Portugal, 1963
O tom declamatório e choroso dos camponeses que encenam o auto da paixão começa a hipnotizar num dado momento do filme, mas em Acto da Primavera estamos diante de um cinema bastante materialista. Não porque incorpora a dialética ou interroga o homem segundo um condicionamento social; não é um materialismo histórico, e sim cinematográfico, ou seja, de uma relação do dispositivo com os corpos e o espaço que estes ocupam (relação que Straub importaria para o seio de seu cinema). O conceito é levado ao extremo: a frontalidade dos planos e a laconicidade da decupagem chegam a ser impositivas em alguns momentos. Há uma maneira simples e direta de filmar as coisas que lembra muito Pasolini (e não seria exagero dizer que Acto da Primavera e O Evangelho Segundo São Mateus são os dois mais belos filmes sobre a paixão de Cristo). Se um grupo de pessoas corre para a direita, uma breve panorâmica o acompanha, e depois há o corte para que um plano igualmente descritivo – quase demasiadamente descritivo – complete o registro do deslocamento. São corpos, antes de personagens, o que interessa a Oliveira neste filme. A encenação se flagra: no mesmo ano de O Desprezo, Oliveira roda um plano com uma câmera de cinema apontada para nós (e todos lembram como termina o plano de abertura da obra-prima de Godard). No final, imagens de bombardeio nuclear e flagelo humano remetem ao início de Hiroshima Mon Amour. Com isso citamos mais uma referência típica do cinema moderno, e não à toa: Acto da Primavera é mais facilmente analisado no contexto do que se produzia no supra-sumo do cinema de autor dos anos 60 do que na obra – anterior e posterior ao filme – do próprio Oliveira. (L.C.O.Jr.)

A CAÇA, Portugal, 1963
Em 1963, dois filmes e dois lados totalmente diferentes de Manoel de Oliveira. Há o Oliveira de Acto da Primavera, com sua preocupação pelas camadas de tempo que se sobrepõem umas às outras na idade de cada coisa que compõe o filme (pessoas, jornais, a peça, o costume, a terra), e há o Oliveira de A Caça, com seus 21 minutos de êxtase que se prestam a contar um conto cruel sobre a humanidade. Na verdade, o começo do filme até sugere um leve filme sobre jovens travessos, como Les Mistons e Os Incompreendidos. Dois moleques provocam os habitantes do vilarejo, e em seguida vão à mata brincar de caçar. Num momento de desatenção, um deles começa a afundar na areia movediça, enquanto o outro, sem saber o que fazer, sai para pedir ajuda às mesmas pessoas de quem tinha caçoado momentos antes. É logo arregimentada, então, uma corrente humana para retirar o menino da lama. No entanto, o homem que organiza tudo só tem uma das mãos... e não pode ajudar na corrente. Esse momento de impossibilidade de ajudar não deixa de lembrar o final de Um Filme Falado, em que o capitão cioso não percebe que ainda há gente em sua embarcação. Mas aqui é outro tema que parece povoar a estrutura simbólica do filme. Três signos de cooperação humana, do "ajudar ao próximo", e os três signos trabalham com um sinal negativo em algum dos elos da cadeia. Primeiro, é o menino que, ao invés de ajudar – por medo de não saber fazer, mas talvez principalmente pelo medo de ele mesmo morrer –, foge. Em seguida, o fato de ele procurar para ajudá-lo aqueles a quem ele (sempre, imagina-se) atrapalhou com suas travessuras de criança. Por fim, a impossibilidade física do gesto de benevolência para o maneta que organiza a corrente. Covardia/incapacidade, falta de reciprocidade, falta de meios para praticar o bem. Como em Viridiana, de Buñuel, parece que mesmo os gestos mais nobres não têm sua concretização a não ser em resultados nefastos, e a separação entre homem e homem, a falta de cooperação entre as pessoas está inscrita no código genético de cada um de nós. Não é simplesmente que o homem quer ser o lobo do homem, é que não há outra opção. O humor negro do fim do filme obrigou até a um segundo final, mais afável, menos pessimista, como aliás Os Esquecidos de Buñuel, que não acaba de forma muito mais agradável. Buñuel é mencionado aqui duas vezes, e isso não é por acaso: se há algum cineasta com quem essa obra mais se relacione, é ele, que sempre soube rir da seriedade que os homens acham que têm. (Ruy Gardnier)

O PÃO, Portugal, 1964
Em 1959, Manoel de Oliveira filma O Pão, um quase longa-metragem de 58 minutos, registrando o processo da produção do pão, da plantação e da colheita do trigo até o transporte e o comércio. Cinco anos depois, Oliveira retoma O Pão e o filme é cortado pela metade de sua duração, sua trilha sonora é retirada e a narração também. "Do ponto de vista artístico, prefiro a versão curta", diz o cineasta. E, mesmo que tenhamos apenas visto a versão curta, não podemos deixar de concordar com Oliveira. Pois o processo de lapidação em ação entre uma versão e outra tem o único objetivo de tirar do filme tudo que não seja absolutamente necessário para fazer do filme um fluxo de produção. Podemos pensar em poucos filmes que chegaram a um nível tal de depuração, L’Argent de Robert Bresson, As Flores de Xangai de Hou Hsiao-hsien – todos vieram depois! Como nos outros filmes, Manoel de Oliveira consegue algo muito poucas vezes conseguido: a idéia de que as imagens, tomadas por si só e nos sons originais dos planos, acabam criando uma espécie de música toda própria, uma abstração e um hipnotismo próprios da imagem que, longe de nos desprender do conteúdo social e orgânico das imagens que estamos vendo, serve para nos engajar ainda mais no discurso. Cada plano, isoladamente, responde por uma parte das atividades sociais que envolvem o pão. A montagem tratará de ligá-los não de um ponto de vista cronológico, nem tampouco a partir de um acompanhamento da logística da produção. A montagem acabará fazendo de O Pão não um documentário sobre uma prática humana – uma das mais decisivas! –, mas um tratado sobre a transmissão e a passagem, e talvez principalmente um filme-ensaio sobre a velocidade e a criação de linhas de fuga, os ciclos humanos transformando-se em ciclos naturais e a percepção se instaurando do ponto de vista da eternidade. Uma jóia inestimável, esse pão! (R.G.)

AS PINTURAS DO MEU IRMÃO JÚLIO, Portugal, 1959-65
O irmão Júlio do título é Júlio dos Reis Pereira, irmão do escritor José Régio. Num registro que oscila do documental ao sentimental, sugerindo em alguns momentos imagens oníricas, vemos suas pinturas ocuparem toda a extensão do quadro cinematográfico. A câmera passeia por elas, sugerindo recorrências de temas e conexões entre figuras, ao som das palavras de José Régio no exílio. Sua arte confunde-se com a do seu irmão, pois ambas confluem num espaço de memória familiar: a casa onde nasceram. E enquanto as palavras de José ganharam o mundo (ou pelo menos parte do mundo que fala o português), as pinturas de seu irmão ficaram confinadas a um restrito circuito, muitas delas guardadas ali. O afeto que une estas duas artes movimenta a câmera e o interesse de Manoel de Oliveira pelas manifestações culturais que (in)formam um povo. As Pinturas do Meu Irmão Júlio fazia originalmente parte de um vasto projeto de Oliveira intitulado O Palco de Um Povo, que seria um grande apanhado de autos, trechos de literatura portuguesa, documentários sobre artistas e outras manifestações culturais... Mas este filme, tal como pensado, não foi a cabo. Faziam também parte deste projeto Acto da Primavera e O Pão. (T.M.)

O PASSADO E O PRESENTE, Portugal, 1971
Um estranho encontro de muitas possibilidades de cinema, este longa de Manoel de Oliveira não impressiona como outros tantos realizados por ele neste período, não só por não soar como um percussor de um movimento cinematográfico (tal qual Aniki-bóbó ou Acto da Primavera), mas também por carecer de uma força maior no que é encenado, como se faltasse aqui um pouco da paixão ou de uma crença maior naquilo que nos é imposto por imagem-atores-cena, fatores tão importantes à obra do diretor português. O Passado e o Presente flerta mais com os chamados cinemas novos em erupção na década de 60, chegando a ter tons quase buñuelescos na forma de empunhar seu olhar aos atores. Trabalhando uma mise-en-scène pouco comum à sua obra, com uma porção de planos-seqüência em que a câmera procura pelos personagens dentro de cena a todo custo, planos que impressionam visualmente pelo domínio – assim como impressiona seu trabalho com a câmera na mão em Acto da Primavera – com que executa tudo, sempre com um rigor bastante forte, chegando em momentos a lembrar Fassbinder. Há diversos planos longos que impressionam, assim como toda a seqüência inicial dos créditos, e o uso da marcha nupcial como elemento que norteia o filme, já firmando nesta época o talento de Manoel em arquitetar as entradas e saídas da música em sua obra. Talvez o que cause o tom de filme menor aqui seja que ao empenhar-se tanto sobre uma câmera em constante movimento, Oliveira terminou por trair parte daquilo que é mais forte em seu cinema, que são os atores, sua forma de impor postura e diálogos a eles, que terminam quase esvaziados, salvo um ou outro momento. Ainda assim, o resultado passa longe do indigno. (Guilherme Martins)

BENILDE OU A VIRGEM MÃE, Portugal, 1974
Entre as poucas influências cinematográficas que Manoel de Oliveira enumera em suas entrevistas, aparece freqüentemente o nome de Carl Theodor Dreyer. Vendo Benilde, imagina-se logo o porquê: a mulher tomada como ao mesmo tempo mártir e bruxa (Dias de Ira, Dois Seres, A Paixão de Joana d’Arc), claro, mas acima de tudo a mise-en-scène de um homem que pensou profundamente nas relações de passagem do teatro para o cinema (os dois primeiros filmes citados, Ordet, Gertrud), não tentando buscar um "específico cinematográfico" (um termo que Oliveira sempre utilizou com deboche), mas tentando trabalhar no meio dos dois. Benilde é adaptado de uma peça de José Régio, não tão longe da Srta. Julie de Strindberg. Ao som de uma assombrosa (no sentido literal e no metafórico) música de Olivier Messiaen, a câmera começa atrás do set de filmagem, registrando os tapumes, as telas de proteção, os pedestais de luz, até chegar ao interior da casa, de onde só sairá quando, ao final, a câmera fizer o movimento inverso. Benilde é bem uma relação do dentro com o fora: num belo dia, a bela e plácida Benilde revela que não pode mais se casar pois foi consagrada com a divina concepção, arruinando assim a trajetória preconcebida (e desejada por todas as partes) do casamento com o primo. Tudo dentro da casa, tudo dentro da família. Resta, no entanto, apenas uma informação de fora, mas uma informação decisiva: medonhos uivos dados pelo louco da região, que habita num celeiro ao lado. Seria o louco a figura divina (simbologia persistente desde os tempos da Grécia) que teria escolhido Benilde para a santa concepção? Manoel de Oliveira prefere apenas dar pistas, mas jamais fechar um raciocínio. Resta que Benilde é o primeiro filme em que Oliveira tem a clara consciência de que o cinema tem a excelente qualidade passiva de fixação, e de que portanto sua concretização máxima é fixar as outras artes – particularmente o teatro. Nasce com esse filme uma obsessão que dominará a obra do diretor português até meados dos anos 80: uma preocupação em transpor/transcriar textos de outras artes (Francisca e Amor de Perdição no romance, Benilde e O Sapato de Cetim no teatro), fazendo do texto o elemento estético mais forte a fixar, e ao qual todos os outros (movimentos de câmera, posicionamento e interpretação dos atores) deveriam se acrescer, mas jamais contrastar. (R.G.)

AMOR DE PERDIÇÃO, Portugal, 1978
Um mergulho dentro da obra de Camilo Castelo Branco, um dos autores a quem Oliveira dedicou parte de sua obra. Amor de Perdição, inclusive, forma uma espécie de dístico com Francisca (este baseado em Agustina Bessa-Luís), em que dedica um personagem ao escritor romântico. O olhar de Manoel sobre o romance de Castelo Branco é bastante particular, a começar por sua opção pela longuíssima duração, fazendo um filme de quatro horas para um livro de cerca de cento e cinqüenta páginas, no qual a essência do romance e todo o peso de sua impossibilidade de se consumar têm seu tempo arrastado, como se Manoel enxergasse que a única forma de se aproximar do impacto e do peso da obra de Castelo Branco fosse esticando o próprio filme, aumentando de certa forma a proximidade com o que é vivido pelos personagens. Manoel exerce um de seus trabalhos mais expressivos de encenação, tomando caminhos arriscados, realizando planos-seqüência fixos e até um aparente uso de zoom, filmando a arquitetura dos espaços com uma vitalidade única. Há um punhado de planos dignos de constar numa antologia dos melhores já feitos, com reenquadramentos sensacionais, um exímio trabalho de extras, momentos em que Manoel simplesmente acompanha de uma longa distância o movimentar de um personagem e a partir de um movimento contrário vai revelando todo um cenário arquitetado. A força e impacto da fatalidade do que se encena aqui é algo raro, mesmo entre os grandes do cinema. (G.M.)

FRANCISCA, Portugal, 1981
À época de Francisca, Manoel de Oliveira falava sobretudo numa arte da renúncia ao construir seus filmes baseados em textos literários ou teatrais. Naturalmente, a renúncia a que ele se referia era recusar a tendência natural do processo de transposição cinematográfica de adicionar à obra original uma série de dados que dariam uma maior naturalidade à fruição do filme. Mas em Francisca, mais do que em todos os outros filmes de O Passado e o Presente até O Sapato de Cetim – filmes em que se adaptava a obra quase que por completo –, há um nível de escolha dos episódios a narrar e dos episódios a deixar de fora, ou então a mencionar exclusivamente pelos intertítulos. Isso acaba criando um regime de elipses muito rico, e nos obriga a pensar em toda uma série de momentos que ficaram de fora. Por exemplo, de que forma teria trabalhado José Augusto para Fanny cair desesperadamente apaixonada por ele a ponto de se deixar raptar? Quando teriam começado as cartas de Fanny para Camilo que destruiriam finalmente toda a esperança que José Augusto tinha na virtude de sua amada? Quais artimanhas teria Camilo orquestrado para desestruturar a relação entre o amigo/rival e sua amada/confidente? É curioso que toda a orquestração dos planos nos seja negada: temos apenas o anúncio do programa ("Gerar um anjo na plenitude do martírio", diz José Augusto a Camilo quando decide fazer Fanny se apaixonar por ele) e o resultado dos ardis. "A deusa do amor costuma gostar da malícia. O remédio contra a malícia é deixar. É sofrer", diz Fanny jogada ao chão, admoestada pelo tapa do marido. Instruções para um programa louco, auto-destrutivo, que combina com os humores de uma geração cética propensa a "paixões funestas", como dizem os intertítulos de abertura do filme. Se há um corpo que consegue encarnar na tela toda a loucura e, ao mesmo tempo, a fragilidade de tal aposta, é o de Teresa Meneses, inteiramente construída para padecer num mundo em que sua existência é impossível. Mas, de alguma forma, ao fim do filme tanto José Augusto quanto Camilo são decifrados. Fanny, Francisca, ela não. Ela permanece um mistério que não só dá nome ao filme como o mantém vivo, como diria o próprio Oliveira (numa outra ocasião, sobre um outro assunto) "em sua ausência de explicação". (R.G.)

O SAPATO DE CETIM, Le Soulier de Satin, Portugal/França, 1985
Com seus opulentos 415 minutos, O Sapato de Cetim é o monumento que encerra na filmografia de Manoel de Oliveira uma fase começada dez anos antes com Benilde ou a Virgem Mãe. Trata-se de uma fase em que a adaptação de uma obra (teatral ou literária) rende uma profunda reflexão sobre que lugar o cinema deve ocupar nessa operação de transposição textual – geralmente é um lugar intersticial, que afirma a semelhança das formas de expressão ao mesmo tempo em que sublinha suas diferenças fundamentais. De um modo geral, o que muda nos filmes a partir dos anos 90, quanto a essa questão da adaptação, é que Oliveira raramente tem se empenhado somente na adaptação de uma obra, mesmo que em todas suas nuances e possibilidades, passando a preferir a imbricação – quando não a mise en âbyme – de diversos textos, memórias ou obras de qualquer natureza em um só filme (A Divina Comédia, por exemplo, mescla Dante a Dostoievski, Nietzsche e José Régio, enquanto Vou para Casa transita de Shakespeare a Joyce e Godard em questão de minutos, sempre se aliando a dados da trajetória pessoal do diretor). Mas antes de se tornar um adaptador infiel (o que não o impede de fazer filmes como O Quinto Império ou Palavra e Utopia), Oliveira garantiu o lugar grandioso da empreitada de O Sapato de Cetim: não havia mesmo outro modo de encerrar aquela etapa de sua carreira, marcada por uma grande obstinação formalista, senão por intermédio de uma experiência radical como essa. O texto de Paul Claudel é levado à tela na íntegra, nenhuma linha fica de fora (rigor que demonstra o respeito do diretor pela palavra), a ponto de Oliveira dizer que a decupagem do filme é o próprio livro do escritor francês (ver Manoel de Oliveira, livro da Cosac Naify, p. 67). Essa decupagem consiste basicamente em deslumbrantes planos-seqüência – na maioria das vezes com câmera fixa ou que se movimenta minimamente (e entre os elegantes carrinhos laterais e a sideração de um zoom que parece levar-nos ao além, fica registrado um domínio completo sobre a escritura em jogo), embora haja passagens incríveis em que o cenário se desmonta e se remonta diante da câmera, sem falar no primeiro e no último planos do filme, tours de force totalizantes que curto-circuitam cinema e teatro. A partir de um determinado momento, os trompe l’œils que compõem o cenário de fundo de todos os planos do filme começam a parecer mais reais que os personagens à frente deles, fantasmas tanto de uma História imutável como de uma fábula indecifrável. O principal substrato de Oliveira lá se encontra: o peso da História, os amantes "separados pela Via Láctea", a guerra perdida, o amor e o cinema como experiências essencialmente insólitas. Mas O Sapato de Cetim é uma viagem de descobrimento, é um novo continente no qual podemos passar o dia – com o detalhe de que este continente nada mais é do que a imagem projetada por alguma lanterna mágica gigantesca. Mesmo que o tempo diegético seja o passado histórico – mais precisamente o chamado Século de Ouro da Península Ibérica –, a sensação de se transportar a um universo imaterial se torna cada vez mais forte ao longo do filme. (L.C.O.Jr.)

OS CANIBAIS, Portugal/França/Alemanha/Itália/Suíça, 1988
A expressão "obra-prima" pode ser aplicada a diversos títulos da filmografia de Manoel de Oliveira. Uma delas, sem qualquer sombra de dúvida, seria Os Canibais. A abordagem original do diretor fica clara desde as seqüências que abrem essa adaptação do romance de Álvaro Carvalhal, concebida como uma ópera inteiramente cantada, com música e libreto de João Paes. Quando as personagens chegam em automóveis contemporâneos a um cenário que localizaria posteriormente a ação durante o século XIX, Oliveira deixa patente que não se propõe somente a narrar uma história de tons líricos. À medida que vai se desenvolvendo o romance entre o Visconde de Aveleda (Luis Miguel Cintra) e Margarida (Leonor Silveira), uma franca sensação de estranhamento domina o ar, seja na forma ritualizada pela qual as personagens transitam perante a câmera, seja no tom sutilmente irônico presente nos diálogos e na forma através da qual estes vão sendo cantados. A partir da meia-hora final, entretanto, toda a ironia e a sutileza cedem lugar a um tom de deboche e non-sense crescentes, despidos de qualquer medo de atingir os píncaros do ridículo durante as últimas seqüências. Estas, sem dúvida, concebidas com uma cara-de-pau de fazer inveja e pôr no chinelo mesmo os momentos mais escrachados dos irmãos Farrelly. É acima de tudo essa conclusão genial que faz de Os Canibais um momento ímpar e inigualável da história do cinema e que deixa claro que, além de seus outros inúmeros méritos, Manoel de Oliveira é também um grandessíssimo sacana. (Gilberto Silva Jr.)

NON OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR, Portugal/França/Espanha, 1990
Non ou a vã glória de mandar é o filme que marca o início dos anos 90 na obra de Manoel de Oliveira e de sua prolífica produção de um filme por ano. O filme começa num longo plano de uma árvore em contra-plongée, ao som de uma música sincopada, um quê épica, um quê trágica. A câmera circunda a árvore, que permanece sempre no centro do quadro, e não vemos o chão, de forma que esta paisagem africana aparece soberana e absoluta contra o céu anil. Como a Árvore da Vida bíblica, ela está ali em sua posição central a zelar pelos homens e oferecer seus frutos e folhas para os povos; num Jardim do Éden já tomado pela guerra, ela assiste à expulsão dos homens do paraíso, por sua sede de poder e conhecimento. Esta imagem-síntese abre espaço para todas as reflexões que o filme empreende. Em 1974, em plena Revolução dos Cravos, um jipe de soldados portugueses dirige-se ao acampamento que os aguarda para uma campanha de combate a rebeliões numa "colônia ultramarina" de África. Começam a conversar descontraidamente sobre sua missão e logo enveredam por discussões profundas em torno do patriotismo e do ser português. O Alferes Cabrita narra então aos soldados campanhas militares portuguesas que não apenas figuram de antecedentes históricos para a batalha que enfrentarão, como definem a própria construção de Portugal como nação, assim como sua anima pátria. As palavras do Alferes ganham representações histórico-ritualísticas (que remetem num certo sentido a Acto da Primavera), nas quais os personagens são encarnados pelos próprios soldados. Assim sendo, somos envolvidos por um sutil questionamento da primazia dos países europeus sobre o resto do mundo (o eurocentrismo e sua lógica interna) e pelo enraizamento dos descobrimentos e das expansões territoriais portugueses na cultura do país. A escolha do Alferes pela narração de uma "grandeza" pátria advinda de derrotas que marcam posição central na História e na mitologia da nação portuguesa faz surgir a imagem de um país que repousa sua dignidade num sentimento trágico único (que o próprio conceito intraduzível de saudade encarna). Aprendemos então o projeto do Quinto Império do rei D. Sebastião, no seu ímpeto expansionista e imperialista (sobre o qual O Quinto Império – Ontem como Hoje se detém), o Mito do Encoberto (retomado em Um Filme Falado), que o envolve, e outras passagens, como narradas por Camões, além da reflexão do Pe. Antônio Vieira sobre o "non", esta palavra terrível que residiria na origem de todo ímpeto de guerra. Mas Manoel de Oliveira reserva a tudo isto um olhar muito menos glorioso e triunfalista do que qualquer patriotismo gostaria. A encenação simples e "pobre" de batalhas e eventos, que estamos acostumados a ver de forma grandiosa nos filmes hollywoodianos, intui uma fisicalidade quase trivial. A guerra é feita de pessoas, que, fracas ou fortes, têm que portar armas, vestimentas e aparatos, e que sentem medo e saudade – e seu sucesso depende sempre de condições circunstanciais. O que vemos, por fim, é a morte: o grito desesperado de dor de um africano, os leitos repletos de homens invalidados, a vermelhidão do sangue do Alferes. Considere-se toda a aura da História, os mitos e lendas, a guerra por fim é isto. E, por que não dizer, vã. (T.M.)

A DIVINA COMÉDIA, Portugal/França/Suíça, 1991
Bastaria a lembrança dos embates verbais entre o Profeta (Luís Miguel Cintra) e o Filósofo (Mário Viegas) para fazer de A Divina Comédia um dos momentos inesquecíveis da carreira de seu diretor. Não obstante, assim como Dante no poema que dá título a este filme, Manoel de Oliveira, à sua maneira bem pessoal, faz aqui um breve inventário sobre a existência humana. Tendo como cenário um asilo de loucos onde cada interno encarna em sua pretensa insanidade um personagem em particular, repetindo um universo bíblico ou literário, Oliveira parte de um longo referencial de obras literárias (Dostoievski), filosóficas (Nietzsche) ou religiosas (Bíblia) para criar um universo fascinante que expõe, reflete e debocha sobre as mais diversas facetas da condição humana. O que em mãos menos talentosas, ou mais pretensiosas, poderia se concretizar em uma tediosa e infinita catarata de referências eruditas, aqui transforma-se, graças ao humor e à inteligência de Manoel de Oliveira, numa de suas obras mais espirituosas e, por que não, divertidas. O diretor apropria-se de textos alheios com uma intimidade tamanha que acaba por torná-los uma criação própria. Faz também aqui um de seus mais preciosos trabalhos de encenação, criando planos econômicos na movimentação da câmera, porem riquíssimos na apresentação de detalhes. A Divina Comédia pode até não se pretender como tal, mas não seria exagero afirmar que ela possa ser vista como uma criação que, parcialmente, sintetiza aspectos cruciais do espírito de toda a obra anterior e posterior de Manoel de Oliveira. (G.S.Jr.)

O DIA DO DESESPERO, Portugal/França,1992
Falar da morte como um gesto do corpo. Um suicídio como um pulso. Filmar atores para falar dos mortos e silêncios para intuir a vida. Mortos-vivos, objetos encharcados de alma. Oliveira filma na própria casa de Camilo Castelo Branco a narrativa de seu suicídio – sabe que um filme antes de tudo precisa saber habitar a verdade-casa que o conduz. Manoel de Oliveira se debruça na paixão levada ao extremo do consumo da vida, do limite da vivacidade que se eleva a precipício e faz isso a partir dos objetos que testemunharam, condicionaram, narraram esse gesto. Desesperar-se aqui como esse ato de explosão do corpo e do espírito, um deixar de esperar, de se deixar no tempo – O Dia do Desespero tem sua secura e sua vivacidade justamente nessa costura entre o inanimado contido na vida e o animado pulsante na ausência. Um ensaio sobre uma paixão que consome a si mesma e se interrompe, abruptamente – de uma vida capaz de gerar um sentimento que a si mesma não abarca. A cadeira que se move, a cortina que se fecha e se abre dando partida aos eventos ou interrompendo a palavra, a roda da carroça (plano divino, que é o tempo a prosseguir e a se repetir – a diferença e a repetição que se enlevam no caminho que leva a casa onde se vive) são pistas dessa reconstituição poética. O Dia do Desespero é mais do que um filme sobre Camilo Castelo Branco ou de descrição de eventos pulsantes, é um filme que se esforça antes de tudo para encontrar um fantasma, uma sombra possível, um eco abismado como um respiro, que intua na imagem e nas palavras o movimento desse extravasar do corpo/gesto que é a morte voluntária, que é a morte desejada. O desespero, gesto maior como a alegria, é, assim, em Oliveira, a erupção do espírito/corpo para além do teatro da cena; algo que o cinema, por mais que se esforce, só pode tentar encontrar em pegadas. (Felipe Bragança)

VALE ABRAÃO, Portugal/França/Suíça, 1993
Se nada em Manoel de Oliveira é simples, claro que ao se debruçar sobre Madame Bovary, de Flaubert, não se poderia esperar que ele "simplesmente" adaptasse o livro (como se isso fosse empreitada simples, em si mesmo). Pois ele escolhe um dos trajetos mais peculiares de sua obra: propõe à escritora Agustina Bessa-Luís que escreva um romance inspirado pelo clássico francês, que se passasse em Portugal, nos dias correntes, e ele se dedicaria, então, a adaptar este romance ao cinema depois. Para além da prova de uma relação de confiança e confluência de visões artísticas raras, esta proposta permite ainda a Oliveira brincar de forma rara com a noção de adaptação, onde ele entra como o terceiro vértice de uma troca de interpretações do mundo, que se não bastasse a pessoas diferentes, cria ainda um jogo masculino-feminino vibrante entre Ema Bovary-Flaubert-Agustina-Manoel. O resultado é um dos filmes mais importantes dos anos 90, e que, curiosamente, embora tenha sido o filme de Oliveira que mais gerou atenção na crítica francesa desde suas primeiras exibições por lá, foi preterido na competição do Festival de Cannes, tendo estreado na paralela Quinzena dos Realizadores (de onde saiu consagrado). Apenas por curiosidade histórica, vale dizer que naquele ano O Piano e Adeus, Minha Concubina dividiram a Palma de Ouro, e a lista de filmes concorrentes incluía títulos da estirpe de Um dia de fúria, de Joel Schumacher e Quem não herda... fica na mesma, de Robert M. Young. Entre os cineastas que concorriam, podemos lembrar ainda nomes historicamente relevantes como Ricky Tognazzi, Roger Planchon, Bartabas e Elaine Proctor. O tempo é mesmo o senhor da História. (E.V.)

A CAIXA, Portugal/França, 1994
O fim da noite revela um policial bêbado que passa pelas ruelas de Mouraria, bairro de Lisboa. Seguindo-o, descobrimos o cenário sobre o qual A Caixa vai se fixar: uma ruazinha de ladeira pela qual passa uma infinidade de trabalhadores, logo cedo pela manhã, dirigindo-se a seus ofícios muito freneticamente. Essa primeira parte do filme, para além de descrever a geografia física e humana daquele espaço, situa também um tempo, ou melhor, contrasta um tempo da mobilidade (a modernidade dos atarefados homens de negócios que passam com seus ternos e pastas pelas ruas centenárias de um bairro lisboeta) com um tempo anacrônico, imóvel, estagnado dos costumes dos pobres da cidade. A cidade corre, e com ela correm os trabalhadores, mas as ruas e os moradores ficam. Quando a aceleração da ida para o trabalho pára, o cotidiano do lugar dá as caras: o bar abre e os clientes aparecem para tomar umazinha, uma vendedora de tremoços aparece à frente do bar (aliás Isabel Ruth), e um ceguinho se posta em frente a sua casa (aliás Luís Miguel Cintra), esperando para coletar doações. A caixa do título é justamente a que recolhe os dinheiros que os transeuntes oferecem ao pobre homem. Ocasião, então, para Manoel de Oliveira voltar os olhos para os costumes e o imaginário de um grupo social que rarissimamente apareceu em sua filmografia: a classe baixa, especificamente os lúmpen (desempregados, malandros e ociosos de toda espécie). Putas, cafetões, pequenos meliantes, vizinhas fofoqueiras. O tempo se inscreve firmemente no registro desse tempo que parece deslocado no mundo moderno. Tanto que a tal rua da Mouraria é transformada em quadro (pela pintora interpretada por Julia Buisel, colaboradora constante de Oliveira como continuísta) e visitada pelas turistas apalermadas. Quando o dá lugar a um barraco entre vizinhas, A Caixa parece se transformar numa homenagem a Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro, filmado quatro anos antes. Comédia doce e pitoresca, aproveitando o melhor de um humor sempre presente mas dificilmente comentado no cinema de Oliveira. Se o cinema de Manoel de Oliveira funciona ao longo dos anos 80 para fixar a arte (a literatura, o teatro), o cinema que ele faz a partir dos anos 90 serve para curto-circuitar os tempos da vivência e os tempos da História, para fixar uma vivência que já é anacrônica e que se esvai (criar uma iconografia do viver das gentes da Mouraria) e ao mesmo tempo refletir sobre o tempo que faz com que as coisas durem por um certo tempo e se acabem. Entre o roubo da caixa e uma discussão sobre quem tem o direito de ser pedinte ("Como tem uma caixa se não é ceguinho?"), A Caixa revela uma mordacidade sobre a natureza humana igualada apenas poucas vezes no cinema de Oliveira (A Caça vem à mente). (R.G.)

O CONVENTO, Portugal/França,1995
A duas semanas do início das filmagens, um ator francês é substituído por John Malkovich (artimanha do destino só para que Oliveira pudesse trabalhar com um ator americano que se lhe mostraria ideal?). Malkovich assina o contrato com uma condição: só falará em inglês. Pierre Hodgson, que depois acompanharia as filmagens e escreveria um diário publicado nos Cahiers du Cinéma nΊ 488 (fevereiro de 1995), precisou traduzir o roteiro às pressas para entregá-lo ao ator o quão antes. Dessa turbulência de antevéspera, começava a germinar uma obra que seria paradoxalmente marcada pela serenidade (mesmo frente à "tentação diabólica"). Lá pela metade do filme há uma cena em que o professor Michael Padovich (Malkovich) recebe de presente uma tradução do Fausto de Goethe: O Convento é uma adaptação infiel dessa obra. Porque Oliveira não é fiel senão ao seu interesse inabalável pelas mulheres, aqui representadas por Leonor Silveira, no auge da sua beleza, e Catherine Deneuve, que mais de uma década antes havia escapado por pouco do elenco de Amor de Perdição. Ao lado de um humor negro sendo exercitado minuto a minuto, o que se vê em O Convento é uma das encenações mais rígidas de Oliveira. O elenco multinacional criou uma curiosa necessidade de controle na direção: durante as filmagens, Oliveira procurava em seu Macintosh as traduções em francês e inglês para cada fala contida no roteiro. Fazer um filme em três línguas diferentes equivale a rodar planos em que três camadas possíveis de significação estão se acumulando uma sobre a outra – e é preciso administrá-las todas. Oliveira não pretende nunca deixar que, por ruído de comunicação, de uma hora para outra se esteja fazendo um filme que não é o seu. Mas falem o que quiserem os atores (e suas falas são todas extraordinárias), o principal personagem do filme é o convento, é a praia a seu pé, é o espaço, o labirinto monástico composto de grutas, pequenas capelas e estreitos corredores que terminam numa enorme falésia. Os corpos dos atores são inscritos em cenários que se encarregam de metade do sentido do filme. Os corpos se fundem ao cenário – que não à toa dá nome ao filme. As esculturas do convento, sedimentadas que estão pelos séculos, segredam alguma coisa em seu silêncio soturno. Os muros, as cavernas e as pedras também falam, mesmo que se reservem ao sono silencioso provocado pela crosta de tempo em que se deitam. Auxiliado e fascinado por Piedade (Leonor angelical ou fatal?), Padovich se entrega aos estudos que justificam sua ida àquele lugar, querendo provar que Shakespeare era um judeu fugido da Inquisição espanhola. Deneuve, por seu turno, se envolve com Baltar (Luís Miguel Cintra fazendo ninguém menos que o Diabo), num enredo que tem o catolicismo como medula. Casamento, adultério, sedução, consentimento: forças inextricáveis dentro do filme. O casamento, no fundo, acaba salvo por seu latente esfacelamento "pecaminoso", sobre o fundo histórico-exótico daquela locação (Viagem à Itália?). E no fim das contas, tudo pode ser estória de pescador, coisa bastante humana e sujeita a devaneios. O estilo de Oliveira, como em Vale Abraão, se depura. A grandiosidade do enredo, a magnificência da paisagem, o uso sempre inesperado da música, tudo continua lá. Mas o registro se acalma, se abranda. Uma mesma incandescência, contudo, persegue a inspiração de Oliveira ao filmar as mulheres. (L.C.O.Jr.)

PARTY, Portugal/França, 1996
Party é provavelmente o mais relaxado dos filmes de Manoel de Oliveira. Espécie de filme-descanso de uma leveza única na obra do cineasta, tudo nele parece procurar um efeito de suspensão. Este é o grande segredo: a despeito de sua aparência de filme menor, Party esconde um dos maiores exercícios/ensaios sobre o tempo de cena na obra de Oliveira (questão central por toda sua obra). Boa parte do filme é dedicado à perseguição de Michel Piccoli a Leonor Silveira, e o trabalho de Oliveira aqui valoriza a criação de intervalos que permitam ao veterano ator (em um momento notável, vale dizer) contemplar a musa maior do cinema do cineasta. Há uma rara sincronia entre o olhar de Piccoli e o olhar da câmera de Oliveira, ambos intoxicados da mesma maneira pela figura da atriz. A arte do diretor reside toda na teia de tempo erigida para permitir que este olhar se sustente. O filme é sempre mais forte quando Silveira e Piccoli estão sozinhos na tela (e mais fraco nos momentos em que precisam mover o mínimo de trama que existe para justificar a ação). É quando o intervalo é instituído e o tempo para a dança de olhares perpetuado por estes dois grandes atores se estabelece que percebemos a força de Party, decerto não um Oliveira maior, mas ainda assim um exemplo de grande cinema que com freqüência acaba sendo injustamente deixado de lado dentro da sua filmografia. (Filipe Furtado)

VIAGEM AO PRINCÍPIO DO MUNDO, Portugal/França, 1997
A quase abstração do plano inicial de Viagem ao Princípio do Mundo (a estrada e suas linhas demarcatórias vistas em velocidade, de um ponto de vista que olha pra trás) é ponto de partida para uma viagem pessoal movida pela memória. Manoel de Oliveira insere-se no filme como o chauffeur que conduz os personagens Portugal adentro, em busca da aldeia onde viveu o pai de Afonso (Jean-Yves Gautier). Afonso é ator do filme que Manoel (Marcello Mastroianni) está rodando em Portugal e conta com a ajuda dos amigos Duarte (Diogo Dória) e Judite (Leonor Silveira) para orientá-lo na viagem. A aldeia remota, esse princípio do mundo, no interior de um país que impulsionou uma expansão sem precedentes, é um reduto de memórias fantasmáticas, de um tempo e um espaço ainda desconhecido para os personagens. Duarte e Judite compartilham com Afonso o interesse por estas imagens abstratas, frutos da vivência de uma terceira pessoa. Manoel, alter-ego direto de Oliveira, guarda uma identificação secreta com elas, pois ele, que carrega já o peso da idade, também viveu seu passado nas terras daquele país e a viagem do amigo atrás das vivências do pai atravessa as próprias lembranças e marcos de sua vida pregressa, manchas quase esquecidas, que se tornaram parte integrante da paisagem que o carro percorre. E que ele, Manoel, trata de sublinhar, de suspender pra fora da poeira. Permeia o filme uma fascinação incrível com as imagens dos lugares pelos quais passam os personagens. Os planos que olham pra trás, de dentro do carro, denotam um movimento no interior de um labirinto, se aprofundando em direção a um útero da cultura-nação portuguesa. Por fim, a sensação que temos é de uma só memória, uma memória atávica de uma terra em um tempo que já se foi e que, de alguma forma, reflete ainda em todo o presente. As histórias de Manoel, revividas quando ele passa pelos sítios de sua juventude, quase se fundem às narrativas que Afonso ouviu do pai quando criança e agora repete aos companheiros, em sua busca por lugares concretos onde ele possa repousá-las. Viagem ao Princípio do Mundo, em sua fascinante construção ficcional, é uma auto-biografia indireta de Manoel de Oliveira, baseada numa história vivida por João Bénard da Costa (personificado no filme por Duarte), e ganha uma espécie de "complemento oficial" quatro anos depois, em Porto da Minha Infância, no qual ele tematiza diretamente suas memórias. É também o último filme de Mastroianni, que morre pouco após as filmagens. (T.M.)

INQUIETUDE, Portugal/França/Suíça/Espanha, 1998
O desejo da imortalidade é o ponto soante que faz de Inquietude algo muito além de um justapor de narrativas curtas. A encenação diretamente teatral, o drama romântico e a fábula são aproximados em três episódios ecoados entre si, numa habilidosa costura de registros onde o narrar se faz como exercício de busca e de farsa diante da vontade de uma vida infindável. A imortalidade construída do gênio acadêmico, a imortalidade trágica da heroína romântica, a imortalidade condicional da mãe mítica de Portugal são impulsos e condições entrecruzadas, possibilidades do espírito em se desdobrar para vencer a finitude. A Inquietude de que fala o título é a persistência do espírito diante do vazio mortuário, é a possibilidade do eterno descoberto como um pulso, um certo tempo em atuação. Dentro do sentido de organismo em que todo o filme acontece na tela, a brevidade das três narrativas só vem corroborar a beleza dessa força fugaz: é como se elas mesmas, as narrativas, passassem como sombras, como precárias tentativas de dar eternidade aos gestos. E é essa a graça do olhar no cinema de Oliveira, é essa a divindade: um divino desencantamento, alegre e admirado, diante do inevitável. Não um desencantamento cômodo como alguns poderiam pensar de maneira rasteira, mas um desencantamento que é um convite à agitação do espírito: A vida é vã. Resta-nos se inquietar. (F.B.)

A CARTA, La Lettre, Portugal/França/Espanha, 1999
O olhar hipnótico de Chiara Mastroianni guia-nos por um estranho interstício entre uma aristocracia contemporânea (cujas cortes, conversas, polidez, comedimento e cumprimentos perfeitamente alinhados nos fazem pensar num tempo que parou dentro dos espaços fechados em que esta circula) e um mundo moderno guiado por uma dinâmica acelerada e por uma liberdade cujos meandros parecem por vezes quase insondáveis. Esta atmosfera de entre, na qual se passa A Carta, é fruto principalmente da sagaz e cuidadosa transposição feita por Manoel de Oliveira do romance La Princesse de Clèves, de Mme. De Lafayette, do século XVII para o século XX. Mme. de Clèves (Chiara Mastroianni), educada por sua mãe "à moda antiga", cultiva um certo estoicismo, que a afasta, inclusive, de um romantismo antiquado. Ela renuncia ao amor apaixonado de François de Guise, rapaz da sua idade, para casar-se com M. de Clèves – e praticar o casamento como obrigação social e moral e arte do consentimento. Mas os sentimentos irrompem para ela onde menos eram esperados. Um sutil sorriso revela que a voz de Pedro Abrunhosa, cantor português de jazz-rock em apresentação especial num reduto freqüentado por pessoas de boa família e amantes da boa arte, despertou nela o amor. Mme. de Clèves cai então numa fenda entre o mundo que habitava e este mundo que permeia as ruas de Paris do ano de 1999. Seu profundo respeito pelos princípios do casamento e firme esforço de preservação de sua "honra feminina" levam-na à reclusão e a buscar conforto com sua amiga religiosa (personagem não-existente no romance). Abrunhosa aproxima-se cada vez mais, com sua fama de bon-vivant e seu jeito silencioso, um quê desajustado ao tempo-espaço em que vive Mme. de Clèves. Vivemos um estranhamento freqüente, que não permite nos situarmos. O aparente elogio de valores ultrapassados, frente a uma modernidade que suscita desconfianças, revela, na verdade, a compreensão da permanência profunda de um certo "conservadorismo" do comportamento social. A conversa sobre a honra, a fidelidade e o respeito, a despeito dos sentimentos (que o romantismo ensinou a serem soberanos), entre Mme. de Clèves e seu marido, é subitamente interrompida por um jovem português imigrante que pede dinheiro para voltar à sua terra, pois na França só experimentou a miséria. É como se bruscamente o presente de uma Europa globalizada invadisse o universo sectário em que vive a personagem, criando um curto-circuito entre diferentes realidades que convivem lado-a-lado e chegam mesmo a se confundir dentro de uma única pessoa. Atormentada por seus ensejos que não podem se consumar, Mme. de Clèves se exila na África, para tentar retomar um sentido em sua vida através de ajudas humanitárias. Todo o fardo de séculos passados encontra a grande mácula do nosso momento histórico; quem sabe, equacionados, eles produzam alguma saída conjunta... Tudo isto faz de A Carta, antes de mais nada, um filme sobre as implicações do adaptar. Porque adaptar, além de configurar uma transposição de formas expressivas, é criar uma afirmação num tempo-espaço presente. As cartelas empregadas no filme, que servem em grande parte para "avançar" a história, são em si intertítulos literários que remetem à forma original da narrativa, enquanto a composição visual do filme exacerba toda a estética oliveiriana de um distanciamento que contempla quase de fora do tempo os movimentos que se dão entre os homens. E neste tempo sem tempo em que vive este filme, nos perguntamos a todo instante sobre as heranças que circulam na sociedade e muitas vezes vêm nos habitar desde cedo. (T.M.)

PALAVRA E UTOPIA, Portugal/França/Espanha/Brasil, 2000
A palavra fricciona a imagem. A palavra cria o mundo. E o mundo é o cinema. Palavra e Utopia não é um filme histórico, nem biográfico. Trata-se de um elogio à potência da instauração de verdades, de reformulação de verdades a partir da retórica e da arquitetura discursiva não vista como farsa, mas como potência do falso, do desvio do já dado como real. Padre Antônio Vieira aparece menos como personagem do que como acontecimento da língua portuguesa nesse filme fundamental (quase didático) para o desvendamento da obra de Oliveira. Ao mesmo tempo seco e divino, o lugar-Padre Antônio Vieira é a imagem de um discurso reflexivo e irônico, ciente de sua finitude e vigoroso em sua força criativa. A Palavra falada contra o oceano é uma imagem recorrente do filme, a Palavra de encontro a vastidão inaudita. Manoel de Oliveira faz da palavra em seu cinema uma faísca que coloca em movimento, em desvio, a eternidade já vista da imagem pronta – é como se as palavras, vistas como imagens e sonoridade, pudessem secretar divergências, descaminhos diante da cristalização do olhar que apenas contempla. No cinema de Oliveira, a palavra enquanto elemento físico de luz (cartelas) e de som (palavra dita), aparece como catalisadora do impossível, da imaginação, do inesperado. Utopias que (ainda que se findem em si mesmas) fazem de seu sentido cênico a força para a perpetuação do movimento da vida. (F.B.)

VOU PARA CASA, Portugal/França, 2001
O mundo pondo-se em abismo. O mundo do rei, que sente faltarem-lhe as forças, físicas e morais, para conduzir seu reino, na peça Le Roi se meurt. Em seguida, o mundo do ator Gilbert Valence, interpretado magistralmente por Michel Piccoli, que recebe a notícia da morte da filha, da esposa e do genro num acidente de automóvel. Só, ele deve amparar o neto pequeno e enfrentar as pressões de um mundo que parece ameaçá-lo de todos os lados, em sua dinâmica vertiginosa. Paris, cidade de confluências culturais mil, das ruas animadas por lojas, cafés e passantes os mais variados, ilumina-se para celebrar a passagem de século (e de milênio). É o tempo que anda e a morte que está sempre à espreita. Gilbert tenta preservar sua carreira de ator de teatro, assim como o dia-a-dia tranqüilo que ele soube recuperar após a tragédia da perda da família. Mas em toda progressão, ainda que lenta, há um momento de irrompimento. De súbito, em meio à filmagem de uma adaptação de Ulisses, de James Joyce, Gilbert sente o cansaço se apoderar de seu corpo e de seu espírito e deseja apenas retornar a algum aconchego possível. A razão, a reger os comportamentos individuais e o funcionamento social, entra em colapso e quase sucumbe frente a outros imperativos humanos. Serge vê o avô dirigir-se ao quarto, em busca de um conforto acolhedor e percebe que seu apoio ruiu e que ele não pode mais repousar sobre aquela fortaleza de experiência e sabedoria. Talvez seja agora o avô que precise dele. Seu mundo então se abisma também e ele vem pra frente da imagem, observar singelamente as perspectivas em brusco desalinho diante de si. Neste belo retrato de um entrecruzamento de movimentos do mundo e movimentos pessoais, Manoel de Oliveira insere cuidadosamente reflexões suas sobre a globalização, as lógicas da mídia e o ser do ator. Ao contrário da desumanização dos filmes de ação, sexo e violência, movidos pelo lucro, o teatro, que se ergue todo em torno do ator, permite a este um contato direto com seu público (o tempo de uma experiência presente) e uma expressão ampla em cena. Gilbert talvez consiga levar bem a vida após o que se abateu sobre ela, porque no palco tem sua força renovada. Vive tragédias, inventando e reinventando minúcias de expressão. Tem autoridade sobre o seu personagem e liberdade de ação – ética que o próprio Manoel de Oliveira reivindica em relação a seus atores. Vou para Casa conta ainda com um excepcional trabalho de som, especialmente no que tange a uma dialética entre o espaço interno e o espaço externo. (T.M.)

PORTO DA MINHA INFÂNCIA, Portugal/França, 2001
Assim como O Dia do Desespero estava para Camilo Castelo Branco, Porto da Minha Infância está para a cidade do Porto, ambos sendo trabalhos muito pessoais – este até mesmo autobiográfico – aonde Manoel se aproxima destes assuntos (Camilo lá, Porto aqui) de forma bastante particular, quase documentários. Quase porque o documentário via Manoel só pode se dar através de uma mescla de encenações, imagens e de seus próprios depoimentos. Oliveira reconstrói seu percurso e a partir dele constrói seu olhar sobre o Porto, recheado de detalhes, mostrando a cidade em sua funcionalidade estrutural e cultural. Há no Porto ainda algo de fascinante que é como Oliveira trabalha a imagem enquanto história, visto que trata de maneira igual as mais variadas imagens de diversos momentos, sejam eles os momentos encenados ou não, sejam do começo ou do final do século. Além de uma verdadeira coletânea daquilo que de melhor há no cinema de Manoel de Oliveira, com espaço para a arte como um todo, participação de seus colaboradores mais próximos, sejam atores (Leonor Silveira, Ricardo Trepa, entre outros), escritores (Agustina Bessa-Luís, sua eterna parceira de tantos projetos), muitos daqueles que de alguma forma foram e são importantes para Manoel. Há ainda a seqüência em que ele retrata o momento em que a arte o tocou diretamente pela primeira vez em um teatro: o retrato da peça (Miss Diabo), além de sensacional enquanto uma encenação, inclui o próprio cineasta em cena, atuando e cantando. São muitos os momentos regidos por Manoel que impressionam aqui de forma muito forte – "regidos" sendo uma expressão importante, já que o próprio cineasta abre o filme com o corpo de um maestro regendo uma orquestra fora de cena, o que dentro de uma obra autobiográfica não diz pouco. (G.M.)

O PRINCÍPIO DA INCERTEZA, Portugal/França, 2002
Quantos outros filmes de Manoel de Oliveira poderiam igualmente se chamar O Princípio da Incerteza? Muitos e nenhum: "Quando penso nesse filme, esqueço todos os outros", disse Oliveira à época do lançamento. Após Porto da Minha Infância, ele realizou essa que é uma das suas obras-primas dos últimos anos. Um retorno aos "amores frustrados", e possivelmente o mais belo elogio às duas musas contemporâneas de seu cinema (Leonor Baldaque e Leonor Silveira). De uma maneira muito curiosa, o filme funciona como um balanço crítico da parceria entre Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luís: O Princípio da Incerteza condensa todas as formas femininas do cinema de Oliveira desde Francisca, e através de Baldaque, neta da escritora, e de Ricardo Trepa, neto do cineasta, ainda inscreve seus autores na obra. Camila, que em sua passividade esconde uma força terrível, revela alguma coisa que, segundo Oliveira, Bessa-Luís desgosta em si mesma, e Touro Azul, tipo esportivo, saudável, adepto do automobilismo, lembra o diretor quando tinha mais ou menos aquela idade. O filme é um encontro mágico de forças distintas e de cores singelas porém pregnantes – a fotografia de Renato Berta tem o encanto de destacar um vermelho em meio a todo o resto e fazer uma tomada geral da cidade iluminada funcionar como um espelho (mágico?) do céu estrelado. Cada plano filmado da janela de um trem parece conter o segredo de como se filma um tal deslocamento; é como se ninguém nunca tivesse colocado uma câmera na janela de um trem da forma devida. Na cena do casamento, igualmente, a câmera escolhe o ângulo ao mesmo tempo mais inusitado e ineditamente mais apropriado: coloca-se no lugar que receberá o bolo, à sua espera, mas sem abrir mão de uma certa complacência diabólica. Anjo e demônio estão lado a lado nesse filme. Dreyer, Buñuel e Bresson são atravessados por planos de discreta semelhança. Obra fascinantemente ambígua – como todos os sorrisos de Leonor Baldaque –, o filme recebeu uma continuação em Espelho Mágico (2005). (L.C.O.Jr.)

UM FILME FALADO, Portugal/França/Itália, 2003
Num mundo sob a sombra de um Império centralizador (ameaçado num certo 11 de Setembro), refazer a viagem às Índias, na companhia de relatos provenientes dos livros de História sobre grandes acontecimentos das civilizações fundadoras do Ocidente, é uma aventura incerta. O cruzeiro que leva Rosa Maria e sua filha Maria Joana pelos grandes pontos turísticos (que são também marcos históricos) do Mediterrâneo reaviva uma sensação de encantamento por uma vastidão espacial e cultural, assim como de descoberta e desbravamento do mundo. Um mundo cujo passado Rosa, professora de História, conhece bem, mas só agora tem a oportunidade de presenciar materialmente. E é esta presença material que Manoel de Oliveira tenta imprimir na imagem de seu filme. Os longos planos sobre pedaços de monumentos, como o chão de uma mesquita ou uma ruína grega, nos fixam o olhar sobre um corpo que guarda marcas da História. Uma matéria cuja alma (sua aura significante) em muito ultrapassa sua existência física. Preservar (e poder encontrar) todos estas célebres construções, das quais muitas vezes apenas ouvimos falar, é possibilitar que novas gerações tomem conhecimento de tudo que as precedeu e possam, munidas desta bagagem, refazer seus percursos e repensar seu mundo, para definirem com clareza as direções do futuro. Maria Joana escuta atentamente a mãe, enquanto as histórias que ela conta vão se presentificando diante dos seus olhos, revestindo cada local por onde ela passa. Apreensiva pela explicação da lógica da guerra ("uns querem tirar dos outros"), a menina preocupa-se imediatamente com a sua boneca árabe, que ela aprendeu a amar. Em sua promessa infantil, de não deixar que nada aconteça à boneca, Maria estabelece um elo Ocidente-Oriente de natureza ética que contraria não apenas um quase-atavismo histórico, como todo o fluxo atual de pânico antiterrorista. E, para resgatar a boneca, ela e sua mãe sucumbem na explosão de uma bomba colocada no navio, muito provavelmente quando atracaram num porto árabe. O cruzeiro não se completa, o mundo está em curto-circuito. O comandante, no barco salva-vidas, permanece estático, na sua expressão de choque e indignação por ter falhado no seu dever de olhar por seus passageiros. As palavras, antes abundantes, em diversas línguas, em conversas as mais variadas sobre o passado e o presente – nas explicações de Rosa Maria, em suas conversas com o pescador ou com o padre ortodoxo, nas falas-nação na mesa de jantar junto ao comandante do navio – agora faltam. A perplexidade da incerteza absoluta da chegada, ou do sucesso da empreitada se instala. Um Filme Falado é o grande filme-testemunho de nossa época. (T.M.)

O QUINTO IMPÉRIO – ONTEM COMO HOJE, Portugal/França, 2004
O maravilhoso texto de José Régio, El Rei Sebastião, narra os momentos anteriores à batalha de Alcácer-Quibir, onde o Rei desapareceu. Manoel de Oliveira, com sua mise-en-scène sem igual, dá força às palavras do texto graças também às inspiradas interpretações de Luís Miguel Cintra (como Simão, o sapateiro santo) e Ricardo Trepa (como o Rei). Novamente a penumbra, e a simetria dos enquadramentos a emoldurar o cenário que se descortina misteriosamente a nossos olhos, revelando a mente conturbada do rei. O mito do rei Sebastião é uma constante nos filmes de Oliveira, desde a introdução de O Sapato de Cetim, radical experiência de sete horas de duração, até Palavra e Utopia, nos sermões de Padre Antonio Vieira, mas também em Non, A Vã Glória de Mandar, sem contar as diversas citações em outros filmes. Em O Quinto Império, o mito é estudado com carinho, com um cuidado especial para detalhes, e com uma generosidade rara no que a câmera capta. Tomemos como exemplo a cena em que os dois bobos da corte conversam aos joelhos do rei. Quando eles saem de cena, a câmera permanece à altura deles, tomando apenas a parte inferior das pernas do rei, enquanto este fala. Oliveira ainda nos presenteia com exemplos da mais fina sensibilidade, seja na espada que cai em câmera lenta, seja na escada que leva a mãe para seus aposentos, tomada em contra-plongé, ou ainda na cara de cera dos conselheiros congelados. Após um diálogo belíssimo de 50 minutos entre o rei e o sapateiro, só resta uma constatação: o rei está louco, prendam o rei. (Sérgio Alpendre)

ESPELHO MÁGICO, Portugal, 2005
Se Espelho Mágico é uma continuação da narrativa de O Princípio da Incerteza no que diz respeito à continuação da trajetória do Touro Azul, o filme é ao mesmo tempo uma inversão dos papéis das duas Leonor no que diz respeito ao status social, à questão do dinheiro, da sacralidade e da perfídia. Leonor Baldaque, que outrora interpretava a santa diabólica, agora aceita dinheiro para atividades excusas, no caso uma contrafação sem maiores implicações. Leonor Silveira, prostituta de luxo em O Princípio..., agora é a rica que decide montar um teatrinho sobre a riqueza da família da Virgem Maria para saciar seu próprio ego e morrer em paz consigo mesma. A esse teatro aristocrático da crença, os plebeus respondem com um teatro pagão: Touro Azul e Filipe Quinta pagam a Vicenta, uma moça com ar virginal que precisa sustentar uma criança, para que "interprete" uma aparição da Virgem Maria para Alfreda. Mas nenhum dos teatros de fato chega a funcionar. Antes que qualquer dos dois pudesse de fato ser acionado, Alfreda cai doente, e logo mergulha num coma. Se algumas das elipses dessa parte final de Espelho Mágico terminam por acavalar determinadas situações de forma algo desajeitada, a compensação vem logo a seguir, em duas seqüências primorosas. Numa delas, a câmera assume um lugar impossível, a visão subjetiva de Alfreda em coma, e registra num ângulo totalmente enviesado a visita da comatosa pela Praça de São Marcos em Veneza, pela Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalem e por uma parte da Via Crucis, hoje transformada numa ladeira comercial. A segunda é o epílogo, em que Filipe Quinta e Vincenta estão sentados num banco, e o filho dela corre, brincando pelo jardim, até que olha para a câmera. Os créditos sobem com Bahia, marido de Alfreda, regendo, entre bonachão e sem jeito, uma pequena orquestra de jovens músicos. Enésima formulação de Oliveira sobre a importância da vida e a jovialidade mesmo em idade avançada, mas nem por isso menos comovente. Se a Graça não é alcançada, resta a graça do bem viver. (R.G.)

DO VISÍVEL AO INVISÍVEL, Brasil, 2005
Mais recente trabalho do realizador, e até onde conste, seu único realizado em suporte digital. Filmado no Brasil, o filme remete ao início da carreira de Oliveira por ser um curta feito por encomenda - no caso, de Leon Cakoff, organizador da Mostra de Cinema de SP, para um projeto de longa que unisse filmes de vários realizadores sob o título geral de Os Invisíveis. Oliveira faz, em oito minutos, um jogo de desencontro entre duas pessoas em plena Avenida Paulista: Leon Cakoff e Ricardo Trepa, interpretando eles mesmos, se esbarram na rua e tentam conversar, sendo constantemente interrompidos pelos seus celulares que tocam. O que num primeiro olhar seria apenas uma crítica (quase tola) à vida moderna, logo dá a volta no espectador apressado, porque será a partir da mesma ferramenta que os separa que eles conseguirão a comunicação. Ou seja: Oliveira continua professando a fé de que, não importando a partir de que meios ou em que tempo, a comunicação é possível. Um trabalho claramente de realização apressada, onde em especial os dois atores parecem bem pouco confortáveis com suas "improvisações", mas que possui ao menos um plano belíssimo: o que mostra o fluxo dos carros da Avenida Paulista de forma muito parecida com tantos planos dos rios portugueses na obra de Oliveira. (E.V.)