O FIM E O PRINCÍPIO
Eduardo Coutinho, Brasil, 2005

Quando a voz de Eduardo Coutinho, no início de O Fim e o Princípio, anuncia a proposta do filme, estamos com as regras dadas. Diz o diretor que quer histórias: não importa quem as conte, desde que, seguindo o modelo de seus filmes, o narrador seja performático. Seguindo um método apenas parcialmente aleatório, escolhe uma cidade da Paraíba como endereço de sua viagem. Tanto faz se encontrará de cara auto-narradores, como quer, ou se passará o filme inteiro procurando por eles.

O Fim e O Princípio começa, assim, como uma aventura mas com resultado garantido. Cria um solo de acasos para depois tentar atravessá-lo; mas, se não atravessar, torna-se um filme prisioneiro desses acasos. Nunca um filme de Coutinho, desde Cabra Marcado para Morrer, tematizou tanto seu próprio processo. Começamos a nos relacionar com as imagens já sabendo que, para o bem ou para o mal, essas são sobre a procura de um diretor por seu material. Essa procura dá uma engasgada no começo, mas, depois de eleger uma moradora de um povoado no sertão como "relações públicas" nos contatos iniciais com os entrevistados, Coutinho encontra seu filme: um ou outro resiste a falar, mas, aos poucos, vão se revelando. Contam da infância com enxada na mão, sobre os namoros e casamentos, até demonstrarem medo, ou ao menos consciência, da morte não tão distante.

A maioria dos entrevistados é de pessoas idosas. Dois deles acreditam que, quando o filme estiver pronto e Coutinho retornar lá para exibi-lo, já não estarão vivos para assistir. O próprio diretor, incorporando a dúvida dos entrevistados, vacila em uma despedida: "Se pudermos voltar aqui.....". Se revela em mais de um momento que os sertanejos têm pensamentos sólidos sobre a vida, praticando uma filosofia na qual os conceitos são fundidos à experiência real, O Fim e O Princípio expõe, antes de mais nada, a postura de seu diretor em seu espaço de filmagem. Nunca ouvimos tanto a voz de Coutinho, nunca ele teve de intervir tanto para arrancar palavras dos interlocutores, nunca sua respiração foi tão audível, nunca o jogo foi tão invertido. Se no final de Peões, ele era questionado se queria ser peão, respondendo com uma negativa, agora a inversão é mais complexa. Quando um dos entrevistados passa a ser entrevistador, perguntando se o diretor acredita em Deus, Coutinho tenta escapar com meia resposta. Diz que a questão, claro, é muito complexa. Dentro de seu esquema de realização, essa fuga da resposta é necessária.

Escreve-se muito que, se Coutinho extrai ótimos depoimentos, como nenhum outro diretor de filmes-conversas ou filmes-entrevistas, é por conta de suas perguntas. Ele saberia interrogar na hora certa e a questão precisa. Talvez seu ponto forte, mais que perguntar, seja a habilidade para ouvir. Mais importante que suas intervenções, às vezes até banais, às vezes engasgadas, é sua disponibilidade para escutar. Talvez seja essa generosidade de dar voz sem inquerir demais que conquiste a confiança de seus entrevistados. E parte desse êxito é fruto da capacidade do diretor ser uma folha em branca na qual as pessoas escrevem com suas vozes. Por isso, Coutinho, quando perguntado se acredita em Deus, escapa. Responder seria criar uma significação para si, preencher a folha em branco e contaminar a relação com quem fala.

Mantendo-se ainda mais como um ouvido que como entrevistador propriamente dito, mesmo nesse filme tão próximo dele quanto de seus interlocutores, Coutinho vai colhendo os frutos da intimidade instantânea. Toda a força emotiva de O Fim e O Princípio surge, acima de tudo, pelo caráter aleatório daqueles encontros. Quando um afeto brota em suas relações temporárias e funcionais, já está na hora da equipe sair dali e romper os laços recém-criados. Essa ausência garantida de antemão, mais que a presença (de equipe, diretor, entrevistados), ressalta a impressão de finitude. Alguns intuem que jamais verão Coutinho. Esse "jamais", queira-se ou não, tem estatuto de morte. De um nunca mais. De um desaparecimento. Quando o diretor vai se despedir, portanto, há uma despedida maior ali. Não se trata de um "até logo", mas de um "adeus", ao menos até a vida prove em contrário. Mas um adeus que, quando chega às telas, "bergsonianamente", presentifica os encontros do passado, fazendo da memória uma eternização, portanto, parte de todos os presentes a serem vividos.


Cléber Eduardo