Sentimentalista
em amadurecimento, narrador com dificuldades de levar
adiante uma estrutura reaproveitada, diretor de atores
desigual no espaço cedido aos personagens, Paul Weitz
dá prosseguimento a uma obra claramente pensada em termos
de desfazer os tons maiores dos gêneros com que flerta.
Em Boa Companhia retoma a narrativa de transmissão
de Um Grande Garoto, seu filme anterior. A diferença,
no entanto, é que antes era preciso fazer o personagem
de Hugh Grant sair de sua “ilha” (ele adorava inverter
para si a frase “Nenhum homem é uma ilha”), o que basicamente
significava fazê-lo desistir de dilatar a adolescência
e se tornar de vez adulto, enquanto Em Boa Companhia
trata justamente de fazer Carter, personagem de Topher
Grace, recuperar a etapa que pulou, interromper sua
ascensão profissional precoce e passar pela transição
de que todo homem precisa para descobrir o que realmente
quer fazer da vida. O que está em jogo, de um lado e
de outro, é o antigo rito de passagem do enredo de filme
adolescente. Só que num caso é um rito tardio catalisado
pela presença de uma criança, e no outro caso é o jovem
que justamente havia pulado a passagem e ido direto
para a vida adulta, e que descobre esse rito através
da convivência com um homem que tem o dobro de sua idade.
Exatamente o mesmo desenho de Um Grande Garoto:
dois personagens masculinos de gerações completamente
diferentes que se estranham num primeiro momento para
depois se descobrirem transformados um pelo outro, enquanto
uma série de personagens femininas gravita em torno
deles. No final tanto de um quanto de outro filme, os
dois personagens estreitam ainda mais o laço, se tornam
meio que parentes sem co-sangüinidade.
Empenhado em gerar simpatia por
personagens apanhados em meio a fracassos pessoais,
Paul Weitz gosta de encenar o antitriunfo: os momentos
que equivaleriam à famosa “volta por cima” dos personagens
são represados por um compromisso que – sem que o espectador
soubesse – o filme havia assumido já de partida, e inusitadamente
todos são lembrados da “realidade” que os envolve. É
assim na cena da apresentação musical no final de Um
Grande Garoto, quando Hugh Grant entra no palco
menos para salvar o menino do fracasso do que para dividir
as vaias com ele. E é assim quando Carter e Dan Foreman
(Dennis Quaid) conseguem fechar uma venda excepcional,
mas ao retornar à empresa descobrem que esta foi anexada
por uma outra maior. Um morde-assopra que Weitz parecia
fazer mais à vontade em Um Grande Garoto, em
que o buddy movie e os enxertos de comédia romântica
disfuncional desfrutavam uma relação bem mais orgânica.
Os meios-climas de Em Boa Companhia tornam o
filme um tanto cansativo – prova maior disso, o romance
de Carter com a filha de Dan, Alex (Scarlett Johansson
superaproveitada no seu jeito blasé e sub-aproveitada
na sua doçura), acaba sendo uma depressão do relevo
narrativo, cujas partes altas cada vez mais se mostram
diretamente ligadas à mútua admiração silenciosa que
cresce entre Carter e Dan. Mas não há decolagem a partir
da transformação que daí se presume.
Weitz elege o close como sua única
ferramenta de confrontação dramática efetiva (montagem
de curtos planos fechados utilizada nas cenas-clímax)
e filma as cenas que se desenvolvem em espaços pequenos
com uma calma imperturbável, como se nada estivesse
acontecendo fora dos seus limites, justamente sublinhando
a idéia de pessoas que se fecham no conforto de mundos
particulares e sentem enorme dificuldade quando precisam
transpô-los. Em Boa Companhia é esse percurso:
fazer Carter conseguir sair do aquário – e não à toa
o último plano vai se abrindo até que possamos ver que,
ao contrário de uma cena no meio do filme, ele está
fazendo jogging ao ar livre, sem a esteira e a paisagem
artificial da sua televisão. O que move a decisão final
do personagem, e isso se mostra bastante curioso como
retrato do jovem americano, é o mesmo desejo de descobrir
o mundo que vemos num filme como A Primeira Noite
de um Homem (1969). Mas se o filme de Mike Nichols
terminava por revelar esse encarar o mundo apenas como
o ingresso em um novo e maior aquário, Em Boa Companhia
parece mais otimista, apostando verdadeiramente na tomada
de consciência de seu protagonista.
Carter
é mais uma reciclagem de um dos grandes estereótipos
que a cultura americana produziu nos anos 80: um yuppie
de dicionário, e ainda por cima filho de mãe hippie
e de pai pseudo-artista drogado. Ele mesmo revela isso
a Alex, mostrando a necessidade do filme de inscrever
a origem desse personagem remetendo ao berço yuppie
de Silicon Valley. O grande comentário que corre pelas
frestas de Em Boa Companhia é a leviandade do
discurso pró-globalização mais corrente, o que não deixa
de ser a maneira encontrada para revalorizar as formações
sociais e econômicas que o filme enxerga ameaçadas:
o projeto familiar paternalista e monogâmico, a pequena
empresa em que todos se conhecem pelo nome e trabalham
juntos durante anos (em oposição à agressividade randômica
dos novos conglomerados), a crença no trabalho (ao invés
da frivolidade e da superexcitação workaholic)
e nas antigas e sólidas preocupações da nação (na contracorrente
total da “nova democracia” defendida pelos ideólogos
do hiper-consumismo globalizado). Esses comentários
– assim como a maior parte das pontuações dramáticas
do filme – se dão de forma não raro caricata. Fazer
um filme-caricatura, no fundo, parece ser mesmo uma
das metas desse projeto de Weitz, o que no mínimo as
atuações comprovam – e se Dennis Quaid encontra aí seu
nicho de predileção, Topher Grace briga o tempo todo
com a incapacidade de variar uma única expressão adquirida
desde That’s 70’s Show. Sóbrio demais para ser
romântico, fantasioso demais para ter os pés no chão,
Em Boa Companhia incorpora o meio-termo com facilidade.
Luiz Carlos Oliveira Jr.
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