O EXPRESSO POLAR
Robert Zemeckis, The Polar Express, EUA, 2004

O Natal como uma questão de fé. A fé transcendida do seu tradicional significado religioso para toda a mitologia natalina que envolve o Pólo Norte e seu Papai Noel. O Expresso Polar é o trem místico que permite reforçar nas crianças uma crença cuja tendência é ser mais e mais negada conforme passam os anos. O menino protagonista encontra-se na idade em que começa-se a questionar os pais e também as lendas infantis que ocuparam a imaginação durante anos. Tudo indica que ele está sendo passado pra trás por seus pais, que se esforçam para manter uma certa "magia" da infância funcionando. Sua irmãzinha mais nova encontra-se longe ainda de tal questionamento. Segue cegamente em sua fé "pura". Esta idade do protagonista é também a idade do heroísmo infantil, uma idade limítrofe, na qual nos encontramos divididos entre a vontade de seguir criança e os questionamentos de todo o universo vivido até então. A idade perfeita para o cenário de um dilema e de uma decisão. De afirmar a continuidade de uma crença ou a partida para outros universos mentais. Aqui, a escolha é pela permanência. O menino é escolhido como herói por um Papai Noel à imagem e semelhança de Deus, por sua capacidade de continuar acreditando. A fé ganha contornos vagos. Não é só prosseguir tendo fé no bom velhinho, é "acreditar" de uma forma mais ampla, é também não questionar. O espírito natalino é uma entidade abstrata, representante de uma felicidade mágica, relacionada em grande parte com o "ganhar um presente". O menino pobre e solitário resgatado pelo trem no caminho não sabe o que é o Natal, não acredita e não dá a devida importância à época e seu tempo mágico, porque nunca ganhou um presente. Magro, ligeiramente vesgo, de pernas tortas e voz sofrida, ele sobe no trem por intervenção do menino herói, mas permanece num vagão separado das outras crianças e em nenhum momento tal fato é questionado por ninguém dentro do trem. Tudo o que ele conquista é por intermédio do herói e da menina heroína, tornada comparsa do protagonista. Cabisbaixo, com ar soturno, ele segue sempre um passo atrás do herói e sua recompensa no final da jornada, como observado por Papai Noel, é "ter feito amigos". Voltando pra casa, ele encontra um presente e agradece aos heróis a dádiva recebida, retornando ao seu lugar de excluído. O filme promove esta estranha naturalização de imagens sociais e estereótipos no menino herói de classe média alta, corajoso e justo, na menina heroína negra de classe média, simpática e bondosa, no nerd sabe-tudo, chato e indelicado, e no menino pobre, frágil e inocente , que afirma um determinado retrato de sociedade, mas sem colori-lo de leituras moralizantes. Curioso como todos estes personagens, embora com papéis distintos, são nivelados dentro do trem, talvez pela figura do cobrador, enfurecido e enlouquecido na sua tarefa de controle de passageiros e de manutenção da ordem. Seu trato indelicado com as crianças e sua rigidez e insensibilidade também não sofrem julgamentos morais. O fantasma habitante do trem, que ajuda o herói em momentos providenciais é ele mesmo uma espécie de marginal, grosseiro e de caráter duvidoso. Zemeckis traz toda uma atmosfera sombria para o filme, em que a magia do percurso é, na verdade, um clima de constante perigo e de confronto com o desconhecido. O mundo aparece duro e com uma certa crueza, para a qual o espírito natalino seria então a grande bênção.

Toda esta caracterização difere muito da operada em Papai Noel às Avessas, de Terry Zwigoff, em que os estereótipos estão lá para serem reinterpretados e toda a dureza do mundo, apresentada sem "meias palavras", é de certa forma aliviada em nome de uma relação horizontalizada entre "Papai Noel", totalmente humano e carnal, e o menino, um nerd excluído que vive com a avó. A relação totalmente inesperada que surge entre os dois, o papai noel ladrão e alcoólatra e o garoto aparentemente ingênuo, dispensa o fator "espírito natalino" e qualquer preservação de valores ou de aura de uma mitologia infantil. Sim, Papai Noel não existe, mas existe alguém fantasiado que pode dar atenção, que pode conversar, escutar seus anseios e, quem sabe, tornar-se seu amigo. Um "pai" palpável e não um Pai grandiosamente superior e inalcançável, cuja magnitude pode apenas ser reconhecida. Em lugar da veneração de valores sublimes como a fé e a inocência, a iconoclastia e o humor negro pautam a leitura de Zwigoff para o que seria um conto de fadas natalino.

Para Zemeckis, o conto de fadas é, sem dúvida, bem mais tradicional. O limiar entre a vigília e o sono é a deixa para a chegada do trem que conduzirá o menino em dúvida por uma jornada na qual será testado especialmente em relação à fé e que deixará marcas na sua realidade material, trazendo a eterna indefinição sobre o que ocorreu: sonho ou fato? Não importa, porque é sonhando crendo que se consegue frutos na vida. Na abstração idealizada da fé em Deus, em Papai Noel, tanto faz , conquistas concretas poderão ser alcançadas. Após sua jornada mí(s)tica, o herói aprende que o espírito natalino não tem preço e que a comunhão familiar é um grande bem que deve ser preservado a aproveitado com regozijo. Todo o aprendizado é etéreo, não-palpável, e permanece no campo espiritual. A pergunta que fica é: e quando o Natal passar?


Tatiana Monassa