Na primeira seqüência de Ouro Carmim, Hussein (Hossain Emadeddin)
assalta uma joalheria. Desesperado, suicida-se. O restante
do filme se desenvolve em um enorme flashback,
a fim de mostrar o que leva o protagonista a cometer
tal ato. Estrutura convencional, caso Jafar Panahi se
contentasse com os mecanismos psicológicos que originam
a angústia: ele, ao contrário, prefere desnudar as desigualdades
sócio-econômicas da sociedade iraniana que se abatem
(e que abatem) o indivíduo.
Ouro Carmim
é filtrado pelo olhar de Hussein. Todos os acontecimentos
do filme giram em torno do personagem principal, cujo
trabalho de entregador de pizza permite-lhe circular
pelas ruas de Teerã. A cidade, revelada pela câmera
de Panahi, é completamente outra daquela que o público
ocidental está acostumado a ver no cinema iraniano:
trata-se não de pequena vila poeirenta, com casebres
sobrepostos onde todos os habitantes se conhecem, mas
sim de metrópole urbana, industrial, violenta, marcada
pelo abismo crescente entre ricos e pobres.
São as mudanças econômicas que chegam ao Irã, embora
a teocracia que domine o país tente sufocá-las: a influência
das práticas capitalistas, que se fazem notar tanto
na joalheria que atende a elite ávida pelo consumo de
luxo, quanto na festa em que a polícia vigia - símbolo
do esbanjamento que em nada coaduna com os rigores do
islamismo xiita. No meio do furacão que toma de assalto
a sociedade está Hussein, herói passivo, homem comum
que observa, perplexo, o que ocorre a sua volta, tentando
sobreviver ao dia-a-dia cada vez mais enlouquecido que
se lhe apresenta.
Hussein afasta-se, assim, do herói tradicional, uma
vez que não reage, a princípio, sobre a realidade. Outra
característica do personagem delineado por Panahi e
Kiarostami (autor do roteiro), e que contribui para
o estranhamento que seu comportamento atípico provoca
no espectador, é a ausência de motivações a priori. Em outras palavras, o protagonista de Ouro Carmim existe apenas na duração compreendida
em cada plano, no espaço construído dentro dos limites
da tela – em suma, nas relações que Hussein estabelece
com o ambiente onde vive e com os demais personagens
que encontra ao longo do caminho.
Soldado de quinze anos de tocaia em festa suspeita,
executivo solitário abandonado pelas prostitutas que
contratou, joalheiro que recusa em atender clientes
de classes baixas: a Teerã de Ouro Carmim se constitui em verdadeiro
teatro do absurdo, representada por Panahi através do
nonsense, paradoxalmente a única forma capaz de estabelecer a mínima
tentativa de compreensão sobre este mundo caótico e
de, conseqüentemente, preservar a sanidade do indivíduo
quando posto em contato com tal normalidade anormal.
Proibido e jamais exibido comercialmente nos cinemas
iranianos, Ouro
Carmim incomoda as autoridades do país de origem,
em primeiro lugar, pelo choque de realidade brutal que
proporciona, exibindo uma sociedade muito mais ocidentalizada
do que gostariam os clérigos que controlam a política
nacional. No entanto, a subversão de Panahi está, sobretudo,
na reação de Hussein ao estado das coisas, que, segurado
ao longo de filme, finalmente se dá no assalto descontrolado
à joalheria: contra a humilhação, contra a injustiça,
a revolta, tanto mais expressiva porque inútil.
Paulo Ricardo de Almeida
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