Daniel (Daniel Travis) e Susan
(Blanchard Ryan) conversam pelo celular, acertando os
últimos detalhes para as férias. Aparentemente longe
um do outro, a chegada da esposa no carro onde o marido
a espera mostra que não há distância física, e sim afetiva
entre os dois. Pois é disso que Mar
Aberto trata, a despeito dos tubarões: a dissolução
amorosa do casal protagonista.
O filme se inspira no desaparecimento de Tom e Eileen
Lonergan, esquecidos pelo barco quando faziam mergulho
submarino na costa australiana, em 1998. Nos créditos
de abertura, consta que o filme foi “baseado em história
real” - mote, também, da campanha publicitária que,
com sucesso, transformou-o em fenômeno de bilheteria
nos Estados Unidos: ao custo de pouco mais de 100 mil
dólares, Mar Aberto
já ultrapassou a marca de 35 milhões de arrecadação.
Chris Kentis, porém, não trabalha com a representação
naturalista dos acontecimentos. Há, em Mar Aberto, além do barateamento dos custos
de produção proporcionado pelo digital, proposta estética
no uso da nova tecnologia. De modo que o cineasta, pelo
contrário, privilegia o artificialismo da imagem: seja
nas seqüências “em terra firme”, filmadas com a estereotipia
característica das soap
operas, seja nas cenas em que o casal se encontra
à deriva no oceano, de cores berrantes e distorcidas
(aproveitando o reflexo do sol na água) que apontam
para a abstração, Kentis não se esconde atrás da narração
invisível - visto que explicita a todo instante os mecanismos
da imagética cinematográfica que utiliza na confecção
do filme.
Não existe, por certo, inovação no uso do digital em
Mar Aberto.
Kentis apenas copia os recursos (limitações e potencialidades)
oferecidos pelo meio conforme já visto e consagrado
em obras anteriores, como Dançando no Escuro, Elogio ao Amor ou Prazeres
Desconhecidos: a saber, a multiplicidade de pontos
de vista devido à mobilidade da câmera, a falta de profundidade
de campo, a luz estourada, as cores saturadas. Da mesma
maneira, quanto à construção dramática, Mar Aberto não foge ao meramente convencional,
pois responsabiliza, em relação de causa-e-efeito, o
trabalho de Susan pelo término do casamento, encenando
o rompimento através de infindáveis e cansativos bate-bocas,
em meio à ameaça dos tubarões. Como em Marie-Jo e Seus Amores, o mar funciona, para Chris Kentis, também
enquanto túmulo para o casal protagonista. No entanto,
se Guédiguian acredita na libertação dos códigos burgueses
através da morte, Kentis, bem mais modesto, somente
exibe a falta de coragem de Daniel e de Susan em encarar
a vida de frente.
Paulo Ricardo de Almeida
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