FEMINICES
Domingos de Oliveira, Brasil, 2004

Meninices

Domingos de Oliveira é uma criança. De todos os veteranos cineastas brasileiros, ele foi aquele que melhor fez uso da câmera digital. Não porque suas imagens sejam melhores ou mais bonitas do que aquelas de outros cineastas – o que não são –, mas porque elas se encaixam perfeitamente na estética e na dramaturgia deste meninão quase septuagenário. Baixos orçamentos, locações reais em praças e interiores de apartamentos da zona sul carioca, e a narrativa da vida cotidiana da classe artística do Rio de Janeiro. É um cinema do íntimo e da vivacidade, filmado com a pressa e com a intensidade de um menino que ganhou um brinquedinho novo e está ávido para usar. São assim os três filmes que retomam uma carreira cinematográfica interrompida no final dos anos 70 e salva, nos 90, pelas facilidades de produção e filmagem da tecnologia digital: Amores (1998), Separações (2002) e este Feminices. É um cinema imperfeito, com todas as características desejáveis que esta palavra carrega consigo. Um cinema muito aproximado da vida, dos diálogos corriqueiros que falamos no corredor passando de um aposento para outro, dos gestos impensados que produzimos uma vez confrontados com situações que não esperávamos, mas também um cinema da neurose de um intelectual filho do século XX, de Freud e Bergman, que coloca na tela os impasses existenciais e as feridas emocionais produzidas pela passagem do tempo, pela vida em família e/ou grupo e, principalmente, pela necessidade de amar e ser amado. A imperfeição tão adorável de seus filmes deriva, mais do que da forma de filmar, desta falta de controle sobre um material humano largo demais para ser fechado num todo friamente bem ordenado – a vida.

Feminices, de seus filmes recentes, é talvez o mais imperfeito. E, também, aquele em que a imperfeição mais ajuda a produzir uma tomada da realidade que é visceral, que se instala em cada corte, cada cena, cada fala de personagem (que os atores estejam menos ensaiados do que de costume e falem linhas de diálogo por vezes mais do que as vivam, tanto mais apropriado). Os créditos iniciais, opcionalmente a "um filme de", também oferecem "uma brincadeira de" Domingos de Oliveira. Uma brincadeira, mais do que em seus outros filmes, pela improvisação das filmagens e pelo senso de aventura em produzir um filme a partir não de uma história a ser contada, mas pela crise que se instala quando uma história não é possível – aquela que as personagens anjoexterminadorescamente tentam produzir numa reunião eternamente interrompida mas à qual elas sempre voltam, inutilmente – trazer à tela. Mas essa brincadeira do possível, essa experiência a partir da impossibilidade de uma ficção que regula, ordena e prepara tudo aquilo que será visto na tela é um jogo também muito sério em que a parte definitivamente passa a importar mais que o todo, ou em que a soma das partes excede – em força – o todo.

O que nos agrada tanto nos filmes de Domingos de Oliveira não é tanto a história que está sendo contada, mas os momentos, os instantes, os nacos de sensibilidade e emoção que essa história proporciona. No caso de Feminices, com uma história-mais-que-pretexto para alinhavar a narrativa – quatro mulheres que sentam numa mesa para redigir uma peça de teatro sobre confissões de mulheres de quarenta anos –, estamos diante de situações nuas, momentos puros tomados de modo quase documentário numa apreensão viva de instantes de realdiade. Nada, no entanto, a ver com o verismo daquelas filmagens que tentam "dar a impressão de verdade" no registro ao tremer a câmera ou outros truques semelhantes. O que está em jogo aqui não é documentar as cenas, mas as emoções e os instantes. Mais que isso, os comportamentos. Vai daí que, entregue a um fio de história muito tênue que só serve para fazer caber esses nacos de sensibilidade que Domingos de Oliveira sabe filmar tão bem, Feminices seja, ao contrário do mais descompromissado, o mais ambicioso de seus filmes até a presente data.

O princípio ficcional não poderia se estabelecer de forma mais batida: os atores falam sobre o filme que vai ser feito, e o filme se faz ora confirmando ora contradizendo aquilo que os personagens verbalizam. Além disso, o filme insere depoimentos de homens falando sobre as mulheres. Nesse caldo do "já visto, já conhecido", surge o que realmente importa: histórias de paixão, envelhecimento, trabalho, ciúmes, relacionamentos emocionais e pequenas aventuras. Tal como no Banda de Ipanema - Folia de Albino de Paulo Cezar Saraceni, estamos diante de um material bruto, quase antropológico por sua impressão (falsa) de falta de manuseio, em que os instantes vêm à tona e à tela com uma carga emocional incomum. O "documental" do filme não é está no inventário dos problemas de meia-idade feminina que as quatro mulheres-roteiristas-personagens do filme listam em seus alfarrábios e declamam umas para as outras, mas no frescor e na agilidade em trazer para a tela os registros de gestos e de fala mais corriqueiros, fazer dessa odisséia do cotidiano o foco principal: o material pregnante e pessoal de um cineasta que ama sua vida – é raro um diretor de cinema fazer de seu egocentrismo um material tão interessante de se ver – e se empenha em trazê-la à tela em seus mais belos momentos.

Domingos de Oliveira interpreta a si mesmo, um diretor de teatro e cinema, marido de uma das atrizes-dramaturgas instaladas em reunião. Ele diz que o material é superficial, que elas não conseguem fazer o que estão tentando porque não chegam a verdadeiramente confessar seus desejos e seus medos. É aí que Feminices prega uma peça, tanto na idéia de confissão quanto no registro ficcional de uma história se fazendo na dimensão de sua impossibilidade. É porque Domingos de Oliveira, ao censurar como personagem a falta de confissão de suas dramaturgas, confessa como realizador sua profissão de fé ao delirar como nunca o material bruto em cima do qual trabalha. A falência de uma história, a brincadeira de uma filmagem rápida em que as atrizes não estão tão bem quanto poderiam, a idéia e a realização de um filme feito às pressas só jogam mais luz para aquilo que é a essência de uma visão de cinema e de arte. Eis como Domingos de Oliveira faz seu 8.

Ruy Gardnier