HELLBOY
Guillermo del Toro, Hellboy, EUA, 2004

Antes de ser rotulado como uma adaptação dos quadrinhos, ou como mais um filme de super-heróis, Hellboy deve ser visto, mais do que tudo, como um filme de amor. O leitor já deve estar se perguntando: "Como é que é? Um filme daqueles, cheio de pancadaria e gosmas, cheio de alusões ao demônio e ao apocalipse, agora é filme de amor? Esse pessoal da Contracampo..." Além de nos livrarmos (nós, os espectadores) da leitura pura e simples, sem percepção dos planos e de todo um trabalho de mise-en-scène voltado para deixar a paixão dos personagens prevalecer em relação à ação, devemos atentar para o que move cada personagem, o que faz com que cada um lute e mate impiedosamente, o que transforma e transcende o simples uso da força física. E aí fica claro: como num filme de Renoir, todo movimento em Hellboy é realizado por amor.

É por amor à ciência que o professor, aos 28 anos, arrisca-se numa perigosa missão em território nazista para acompanhar a tentativa de abertura de um portal do inferno. Também por amor se dá a relação, já explicitada desde o início como de dominação, entre o vilão Rasputin e Ilsa, a ponto de esta ter um verdadeiro orgasmo (encenado brilhantemente, apenas com sua expressão facial) quando ele renasce. Sem contar que Rasputin, renascido, carrega consigo ainda mais do diabo (em suas próprias palavras), por isso ele ama Hellboy (filho do Diabo), e nutre o maior respeito pelo professor, pai de criação do nosso herói, provendo-lhe uma morte rápida. Não podemos esquecer a relação paternal entre o professor (John Hurt em um de seus melhores papéis) e seus filhos "freaks". Uma relação que ultrapassa o amor pela ciência.

Existe ainda uma rede de subtextos amorosos, colocados para tornar o filme ainda mais ambíguo. Sammael, por exemplo, a besta da ressurreição, quando é abatido, renasce duplamente, como um casal. Sem contar o depósito, por Sammael, de três ovos no braço de Hellboy, o que é tomado por este como uma relação de amor efêmera ("ele nem me pagou um drink"), o que para além de uma simples piadinha enaltece, sim, o curioso clima amoroso adotado por Del Toro. Somemos a isso a constatação de que mesmo o diabão final, um monstrengo parecido com Sammael, mas dez vezes maior, não consegue matar o filho. Seus tentáculos agarram-no, arremessam-no em paredes e rochas, mas não desferem sequer um golpe fatal. O amor entre semelhantes impede que isso aconteça. Os diabões também amam, diria Del Toro. Ele engole, mas não tritura, como os diversos Sammaels faziam. Mesmo renegado pelo filho, o diabo mantém com ele uma relação de respeito e esperança de que um dia ele volte a trilhar o caminho do mal. Uma opção corajosa, pois subverte todos os cânones da luta entre o bem e o mal, com maniqueísmos sobressaindo-se às ambigüidades.

Mas o mais notável é que o filme gira em torno do triângulo formado por Hellboy (Ron Perlman); Liz Sherman (a cativante Selma Blair), mulher que, quando contrariada, tem o poder de incendiar as coisas e John Mayers (Rupert Evans), o jovem agente do FBI. A ponto de deter-se longamente num passeio entre o agente e a "monstrinha", observados de longe por um Hellboy adolescente ("Ela tirou fotos dele...droga"). A relação anteriormente fraternal entre o herói e Liz torna-se confusa, pois carregada de sentimentos sexuais enrustidos por parte dos dois, só que mais dela, já que ele já admitia que a ausência dela era a única coisa que poderia matá-lo. A maior fala do filme surge após a ameaça do terceiro vértice do triângulo, quando Hellboy se lamenta por não ter uma aparência que não a deixasse constrangida em público (como a aparência de Mayers), mas encerra prometendo duas coisas: 1) Que continuaria sempre bonito e 2) que nunca a abandonaria, jamais. Alguém ainda duvida que se trata de um belo filme de amor?

Ainda no prólogo, temos uma narração do personagem do professor, já com mais idade mas numa época incerta, dizendo que o que estava para acontecer negaria o que estava contido em todos os livros de histórias e, ainda, "mudaria MINHA vida para sempre" (com ênfase dele no "minha"). Para além de ser uma brincadeira muito elucidativa com os "cientistas do bem" no cinema (que sempre pensam nos caminhos da humanidade, nunca em seus desejos) revela ainda que veríamos mesmo um mergulho nas paixões dos personagens. Da mesma forma, é com uma narração que o filme se encerra, desta vez do discípulo do professor, John Mayers, com uma fala sobre a importância das escolhas, mas novamente tendo como referência um dado pessoal ("Um amigo meu certa vez me perguntou o que nos fazia humanos. São as escolhas que fazemos").

Em paralelo a este mergulho no amor e nas paixões pessoais, há no filme uma agradável brincadeira do diretor com os diversos clichês de filmes de gênero, a começar pela já mencionada imortalidade do herói de ação, que aqui se explica justamente pelo amor que seus inimigos tinham por ele. Em várias passagens, a direção de Del Toro (no seu filme mais inspirado) nos fornece piscadelas, como se quisesse nos fazer adentrar num jogo de referências típicas de um cinema feito por amantes de cinema, e não por roteiristas da escola Syd Field, nem por meros paus mandados. Uma das mais deliciosas é a aparição do professor para o jovem agente John Mayers, por trás dele, em silêncio, como um espírito. Vemos Rasputin surgindo dessa mesma maneira em vários momentos, mas aqui as aparições fantasmagóricas não são exclusividade dos personagens maus. A comédia romântica obviamente não poderia ficar de fora, e é homenageada em todas as cenas sem ação em que o triângulo está reunido, mas é parodiada inusitadamente na fala de Liz para Myers ("vermelhos, brancos, vocês homens são todos iguais"). Finalmente, temos o personagem Hellboy, que cinematograficamente parece um amálgama de Clint Eastwood (o herói solitário e resmungão, carrancudo), Burt Lancaster ("You did it, buddy, you did it", com um cerrar dos dentes) e, o mais óbvio, Arnold Schwarzeneger (o que ele sussurra no ouvido de Liz - "ei, você do outro lado, deixe-a ir, pois por ela irei até aí, e você vai se arrepender" poderia ser ouvido em qualquer filme protagonizado pelo governador grandalhão).

Del Toro brinca também com os burocratas, como quando o figurão do FBI nos é apresentado, dando uma entrevista para um canal de TV. Ele diz que esse tal de Bureau of Paranormal Research and Defense não existe. O corte da sua cara de tacho para a fachada do Bureau em New Jersey deve ser encarada como um ato político muito mais esperto que os de Michael Moore, além de flertar com as piadas de montagem típicas das comédias satíricas dos anos 70 e 80, e que derivam do gênio de Ernst Lubitsch. Assim como a cena entre os créditos finais, com o mesmo figurão sendo esquecido num subterrâneo da Rússia, com a sombra de um Sammael passando por trás dele: o governo participa, mas é mero coadjuvante. A burocracia deve ser destruída. Ou podemos pensar que uma provável continuação poderia estar sendo sugerida: "À procura do chefe"- na verdade, as leituras desse esquecimento podem ser tão diversas, que dá pra imaginar o sorriso no canto da boca do bonachão Del Toro, quando perguntado sobre a cena.

Hellboy, segundo o filme, veio antes do quadrinho que o homenageia, criado por Mike Mignola. Del Toro sugere a trapaça para tomá-lo como sua criação. Basta ver que, em uma lápide no cemitério russo, está justamente o nome de Mignola, acrescido do tradicional "Aqui Jaz" (em russo): é a vez do cinema homenageá-lo. O personagem adquire, então, vida independente do gibi, e especialmente ligada à imagem em movimento, o que torna obrigatória uma enormidade de continuações. Uma das quais, aliás, já é mais do que promessa: está acertada para provável lançamento em 2006.

Sérgio Alpendre