BESOURO
João Daniel Tikhomiroff, Besouro, Brasil, 2009

Haverá maior sinal de amadorismo para uma produção cinematográfica incipiente como a brasileira do que uma pequena superprodução de pouco mais de dez milhões de reais (quantia grande para os padrões nacionais) dirigida por um profissional de outro ramo, um publicitário? Se a publicidade venceu, então Besouro é apenas o retrato literal desta situação. João Daniel Tikhomiroff é um publicitário, mas não como o são Heitor Dhalia ou Fernando Meirelles, supostos homens do cinema incapazes de esconder a estreiteza de sua visão de mundo, do cinema e seus signos. Tikhomiroff é um publicitário de profissão – a publicidade é seu métier. Daí o que torna seu filme pelo menos parcialmente remarcável: a ferocidade e a violência com que o diretor manipula as imagens num primeiro momento chega até a ser elogiável, frente ao marasmo da produção brasileira atual. O filme tem seus momentos, na verdade, e um deles é quando a câmera assume o ponto-de-vista de um sapo, que pula na água, vai e vem, até retornar à pedra e então vermos Besouro, o personagem, completamente molhado.

É uma cena que apenas um publicitário “de fato” bolaria, pela própria pragmática da coisa, mas que coloca bem, de forma inventiva, as conexões entre o personagem e o ambiente. O lado ruim é que essa mise en scène “de plástico” não funciona quando o filme trabalha com seres humanos, e disto há diversas cenas representativas. A seqüência de sexo talvez seja a mais flagrante, mas a mais curiosa sem dúvida vem no final: a forma como Tikhomiroff, na última cena do filme, insere na narrativa o personagem (até então inexistente) do filho do herói morto e encena um olhar-vingança ou resistência da criança para o algoz de seu pai é de uma violência que chega a nos fazer pôr as coisas em perspectiva – quem, no cinema brasileiro atual, faria aquilo, e daquela forma? Num como o que está aí no Brasil, marcado sobretudo por produções comerciais de quinta categoria e descrições sociais inférteis, João Daniel Tikhomiroff seria um iconoclasta, não falasse ele, no entanto, a mesma língua dos outros: a publicidade.

O grande mal de Besouro, no fundo, é que o filme está longe de representar a tão aguardada chegada do cinema brasileiro a um gênero popular como o de ação. São 90 minutos de filme, e pouco ou nada desse tempo é dedicado a um trabalho de maturação dramática. Há uma insuficiência mesmo no sentido de organizar a narrativa, encontrar seus tempos, modelar seus contornos – humanos, cênicos, dramáticos. João Daniel Tikhomiroff fez o que julga ser um pequeno objeto de luxo, pintado em cores saturadas grotescas. É errado, então, raciocinar que Besouro é amador por inépcia, por não conseguir, de fato, ser um filme de ação, um filme popular. Besouro não consegue ser um filme de ação porque é um filme dirigido por um publicitário, alguém cuja pragmática profissional passa ao largo da produção artesanal do cinema. Do falso cruzamento entre o cinema e a publicidade então, saiu o que no final mais parece um vídeo institucional da capoeira no Brasil. Pois eis que o filho, na cena citada acima, longe de ser uma figura dramatúrgica brutalizada, era apenas um símbolo banal: dali em diante a capoeira permaneceria passada pelas gerações como instrumento de luta, expressão e resistência da cultura negra no país, até se tornar, como informam os créditos, patrimônio cultural brasileiro.


Calac Nogueira