Ida Lupino construiu uma carreira sólida como atriz, com
destaque em filmes noir, sendo o mais famoso deles Seu Último Refúgio,
de Raoul Walsh. Seu rosto doce escondia uma personalidade muito forte, cujo
olhar deixava transparecer essa força em cada cena, cada momento que aparecia
na tela. Uma atriz como poucas, com uma presença que a transformava na
intérprete ideal para um tipo de personagem: a mulher aparentemente frágil que
possuía força e determinação descomunais.
No fim da década de 40, Lupino fundou sua própria produtora,
iniciando um reinado indiscutível dentro de uma Hollywood que era machista por
circunstância, não por sensibilidade. Com o falecimento de Elmer Clifton no
início das filmagens de Not Wanted, assumiu pela primeira vez o papel de
diretora, além dos que já desempenhava, de produtora e co-roteirista.
Iniciava-se uma carreira brilhante, porém curta, por trás
das câmeras. Seu toque feminino e preciso podia ser notado em cada cena dos
sete luminosos longas que dirigiu. Seu olhar agora não brilhava mais para as
câmeras, mas fazia brilhar quem estava diante delas. Era um olhar para os
desvalidos, para os injustiçados, para a condição feminina, a mulher vitimizada
pela brutalidade dos homens (uma entre muitas semelhanças com Mizoguchi).
Muito se fala dos noirs que Lupino dirigiu nos anos
seguintes, mas não é só neles que reside a evidência de seu olhar único e de
sua habilidade na maneira de mostrar os personagens e seus conflitos. Nos
quatro filmes que dirigiu fora do gênero, permanece a marca de uma diretora que
parece ter nascido com o sentido perfeito para a colocação da câmera, para o
tempo do corte e a posição dos atores no quadro. Atributos essenciais para um
diretor de cinema, mas sempre esquecidos por não serem espalhafatosos como os
artifícios usados para marcar uma autoria.
Mas voltemos aos anos em que a diretora se afirmou como uma
das grandes. Voltemos a seu quarto filme, Laços de Sangue (Hard, Fast and
Beautiful), o primeiro após ter realizado o noir O Mundo é o Culpado
(Outrage), provavelmente sua obra-prima.
Em uma simples cena, a prova da genialidade: o presidente de
um clube de tênis negocia a carreira inicial da filha com os pais e sua
possível viagem para um torneio em outra cidade. Vemos o pai em primeiro plano,
acendendo um cachimbo, a mãe no sofá, e o presidente andando pela sala. A maior
interessada parece ausente do quadro. Até que seu nome é pronunciado, no exato
instante em que o pai vira e a revela no sofá, ao lado da mãe. Sem corte, sem
movimento de câmera, todas as tensões e possibilidades dramáticas são
resolvidas num único plano.
Desnecessário dizer que o comportamento da câmera no
decorrer da sequência é impecável, com as variações de tensões entre os
personagens sendo não só respeitadas, mas valorizadas, e cada um deles recebe a
devida atenção no tempo certo. Existem diversas tensões em cena. A do pai e
marido que se sente menosprezado pela esposa, a da esposa que sente que a
ausência da filha pode significar a ruína pessoal completa ou apressar o fim do
casamento, a da filha que deseja viajar com o grupo de tenistas e anseia pela
aprovação dos pais, a do presidente, que quer que sua nova protegida brilhe
fora dos domínios municipais, e, finalmente, a do público, que pressente pelos
olhares do pai que as intenções da mãe podem não ser as melhores possíveis para
o destino da filha.
Essa é a maestria dos grandes de Hollywood, os que fizeram
desta arte uma das manifestações mais fascinantes do século XX. Cenas como essa,
raras de se ver no cinema narrativo feito nos últimos 40 anos, existem aos
montes em seus filmes. O que dizer então dessa diretora, capaz de nos levar em
questões de segundos de uma suspensão emocional ao êxtase intelectual e
sensorial?
É uma arte que parece simples, invisível ao espectador comum
que há em todos nós, mas que revela um carinho especial com a dramaturgia, um envolvimento
completo com a necessidade de contar uma história, de fazer com que essa
história chegue da maneira mais pungente, ou antes, mais justa, ao olhar do
público. Lupino, no quarto filme que dirigia, já transmitia uma segurança que
os grandes - Ford, Mizoguchi, Walsh, Lang e poucos outros - só tiveram depois
de alguns anos no métier.
Para conseguir atingir o máximo dessa arte, Lupino se valeu,
pelo menos em seus primeiros filmes, de uma atriz rara, capaz de interpretar
mulheres problemáticas e apaixonantes, de viver garotinhas ingênuas e jovens
que tomaram o rumo errado, capaz de nos fazer esquecer que existe uma lente entre
nós e ela. Essa atriz é Sally Forrest, uma espécie de Ida Lupino enfraquecida
pela sociedade. Ao contrário da diretora, Forrest raramente se impõe nesses
primeiros filmes, é uma escrava do desejo da mãe no filme mencionado acima, Laços
de Sangue; uma dançarina que contrai pólio e se revolta em Never Fear;
uma jovem que surta por ter perdido o bebê (e antes disso já apresentava sinais
de desequilíbrio) em Not Wanted. Sua vulnerabilidade nos conquista,
graças também ao olhar terno e certeiro de Lupino.
Após suas incursões pelo noir, a personalidade de Sally
Forrest irá ecoar quinze anos depois no último filme dirigido por Lupino, Anjos
Rebeldes (The Trouble With Angels), com uma luminosa Rosalind
Russell vivendo a representação de Lupino em sua maturidade, com a necessidade
de entender suas protegidas, o doce olhar para a rebeldia e a dureza com a qual
ela combatia, ou melhor, domava essa rebeldia. Mais ou menos como a Sally
Forrest de Laços de Sangue, mas dotada de experiência e um comprometimento
maior ainda com os que estão próximos. Como a Madre Superiora que precisava
conter os impulsos das alunas mais problemáticas, Russell tem um desempenho à
altura dos melhores de Lupino enquanto atriz, o que engrandece ainda mais este
filme de sensibilidade rara. Belo testamento criativo da maior diretora de
cinema que o mundo já viu.
Sérgio Alpendre
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