Antes da Mostra de São
Paulo começar, pouca gente tinha ouvido
falar em José Luis
Guerín,
e isso mesmo no círculo
cinéfilo mais caxias. Seus filmes anteriores
não
haviam sido exibidos em nenhum grande festival brasileiro,
e seu
novo filme não aparecia por aqui com distinção
especial, mesmo tendo participado da competição
do Festival de Veneza. Por acaso, tanto Filipe quanto
eu já havíamos
esbarrado
com Guerín antes, em mostras obscuras e pouco
divulgadas, ou via internet. E, mesmo assim, com alguma
expectativa
em torno da primeira exibição de En
La Ciudad de Sylvia,
nada nos preparara para o que vimos ali. Os dias seguintes
ao contato com esta obra-prima foram
de forte campanha entre todos os amigos e conhecidos,
para que
descobrissem eles também aquela pequena jóia,
e no meio de tantas visões e revisões
do filme, a notícia
de que Guerín, o próprio, estaria em
São Paulo para
apresentá-lo. A entrevista, marcada às
pressas e prevista inicialmente para durar vinte minutos,
acabou se estendendo
por mais de uma hora (enquanto o guia que levaria Guerín
para um passeio pela cidade nos esperava pacientemente).
Estava ali na nossa frente aquela mesma boina que se
verá em qualquer imagem de Guerín
encontrada no Google. E por baixo dela, o mesmo sujeito
que se
poderia supor
a partir de En La Ciudad de Sylvia: um cineasta
extremamente consciente de seu próprio trabalho,
que fala com bastante propriedade dos menores detalhes
de concepção e execução
de uma idéia, sem nunca perder
de vista um amor incontornável pelo cinema que
faz e pelo que o precedeu. Além, é claro,
do amor pelas mulheres, a quem filma como poucos, e
do amor pela
própria idéia de filmar, do exercício
do olhar sobre pessoas, lugares, situações,
que realiza, hoje, como ninguém mais. (RO)
***
Filipe Furtado:
Algo que eu sempre sinto no seu cinema é uma disposição
em dialogar com o cinema mudo – quando escrevi a crítica
do filme, mencionei até mesmo a obra do Phillipe
Garrel, na idéia de não pensar muito numa "evolução" do cinema, mas
sim
retorná-lo aos Lumiére, a Griffith, esse começo do cinema. De onde vem essa
disposição?
Sempre senti
que a minha dúvida mais profunda com o cinema parte da experiência do cinema
mudo. O cineasta que mais aprecio, desde sempre, é Chaplin. E também o que me
deu Murnau, Stroheim, a grandeza do cinema mudo. Sempre me pergunto o que teria
acontecido ao cinema se o sonoro tivesse demorado uma década a mais para chegar.
Acho que estavam alcançando níveis de expressão que verdadeiramente... Onde
poderia chegar esse cinema? E nesse momento, no qual o cinema é essencialmente
consumo,
consumo e televisão, para mim é muito importante a trama da memória, colocar-me
em relação com os cineastas que admiro e que me precederam. Talvez seja esta
a maior diferença entre o cinema e a televisão: o cinema, para mim,
tem memória. E eu preciso estar dialogando sempre com os mestres do passado,
porque eles preservam a minha identidade. Minha identidade está aí. Não sou catalão,
nem tampouco espanhol: eu sou cineasta, esse é o meu continente específico. Provavelmente
me sinto mais próximo de um cineasta dinamarquês, ou de onde quer que seja, do
que de um cineasta catalão que possa viver na mesma rua que eu. O
cinema é assim. Diferente da escola, onde os mestres nos são impostos, no cinema
você mesmo pode escolhê-los.
Rodrigo de Oliveira: Seus filmes
trabalham sempre com uma dinâmica de construção e desconstrução, onde você segue
lidando com o passado, mas, de uma maneira, trazendo-os para o presente – Tren
de Sombras com a "descoberta" dos filmezinhos caseiros, En
Construcción,
um bairro que está em transformação, e não só pelo que se constrói ali, mas
também o que se perdeu na História e que o filme traz para a atualidade. Mas En La Ciudad de Sylvia a relação com essa
memória é uma relação de frustração, uma tentativa de recuperá-la que não é tão
bem sucedida. Você vê uma mudança de perspectiva entre os outros filmes e esse,
a sua relação com o tempo e a maneira de lidar com a memória mudou?
A sua visão sobre os meus
filmes é bastante lúcida, mas sinto que para mim, enquanto realizador, soa quase
impudico pensar se mudei ou não em relação a dois filmes atrás. É verdade que
os meus filmes se organizam quase sempre em dois tempos: um tempo passado, às
vezes mítico, e o presente. Talvez a diferença em En La Ciudad de Sylvia (como em Tren de Sombras) é que o passado é mais subjetivo, e em Innisfree ou En Construcción a memória toma parte de uma memória histórica, enquanto
nos outros é a memória dos sentimentos. É uma memória que diz respeito
mais à identidade dos sentimentos. Acho que também é um fantasma muito masculino:
o da mulher fugaz. E ao mesmo tempo é muito cinematográfico, porque o cinema
vem responder essa angústia do fugaz, vem para capturá-lo. Vocês talvez sejam
muito jovens, mas falei com gente mais velha, inclusive com
famílias burguesas, estáveis, e quase todos têm a imagem – muito clara – de
ter visto em algum momento de sua vida, cruzar uma mulher especial, e se haver
recriminado
por não ir atrás dela. E nessa idéia, "aquele dia cruzou por mim
aquela mulher"... Podia ser uma ilusão, mas talvez não, talvez fosse o destino
que me tenha feito cruzar com aquela mulher. Aí há um pequeno drama que está muito
intimamente inscrito na memória de todos os homens. E finalmente, penso que mais
que uma mulher, o que está latente aí é uma metáfora do destino, das vidas virtuais,
das vidas potenciais que nós não seguimos. É uma idéia latente em muitas obras
da literatura, a fugitiva de Baudelaire, Marcel Proust, no Swann, onde há um bonito testemunho sobre
essa mulher que desaparece. Eu chamo de um "drama do destino", e aí gosto
de
lembrar de novo do Chaplin, porque é o que melhor filmou esses dramas do destino.
Em Casamento ou Luxo o
subtítulo é "um drama do destino" [no original, A Woman of Paris:
A
Drama of Fate].
RO: Li uma declaração sua dizendo
que nos documentários seu trabalho é organizar e decidir o que mostrar ou não
mostrar de alguém que você eventualmente tenha registrado. Mas agora, na
ficção, mais especificamente em En La Ciudad
de Sylvia, é você não somente o que registra, mas o que cria, o que efetivamente
torna possível o destino, decide o destino de alguém – no caso, do personagem
de Xavier Lafitte. Como você se vê não mais como um organizador de destinos que
a vida já deu, mas como um criador deles, e como você se relaciona com esse poder,
como questão ética mesmo: devolver Sylvia a Xavier ou não, fazê-los se reencontrar
ou não?
Gosto de ceder grande parte
desse poder. Para mim a experiência do cinema moderno passa por essa idéia de
ceder poder. O cineasta clássico tem um poder hegemônico, um controle absoluto
sobre tudo. Já eu gosto muito de pactuar com o acaso. Prevejo algumas coisas,
mas, para sentir com intensidade o cinema, necessito ser o primeiro espectador
do meu próprio filme, e descobri-lo a medida que o realizo. A decisão de que
não se encontrariam me veio no trabalho com Pilar [López de Ayala], a protagonista.
Eu escrevi um reencontro – e, inclusive, cheguei a filmá-lo. Mas o modo como
Pilar encarnava a conversa com o rapaz no bonde me pareceu que já dava tudo,
que era muito importante que não se encontrassem finalmente. Há uma
transformação em Pilar, e foi preciso um sorriso para que eu pensasse bem se
eles se reencontravam ou não. Então eu gosto muito que o roteiro seja só um conjunto
de previsões, para que se possam descobrir coisas. Portanto, o sentido da minha
direção, mais que mise-en-scène, seria
uma mise-en-situation, um
colocar-em-situação. Como quando filmo as mulheres na varanda do restaurante:
eu não as digo o que devem fazer. Gosto de criar uma pequena situação com elas,
e esperar com a minha câmera, como se fosse um documentarista, esperar para ver
se é produzida a expressão reveladora, o momento de mistério, uma mudança de
olhar que seja expressiva. Gosto do cinema nesse sentido, cedendo poder e pactuando
com o acaso.
FF: Antes de filmar, você fez uma
espécie de rascunho, chamado Unas fotos En la Ciudad de Sylvia, como se deu esse processo?
Eu comecei fazendo
fotografias, e quase sempre os filmes começam assim para mim, como fotografias.
E a fotografia é um grande enigma, porque é um instante congelado – que me faz
perguntar como era o instante anterior e como era o instante posterior: assim
surge a seqüencialidade. Antes de filmar En
La Ciudad de Sylvia, fiz uma série de fotos, que foram tomando a forma de
um photo-roman, uma foto-novela, de
uma cinematografia
muda, com a forma de diário íntimo: textos escritos e fotos. E
aí é um trabalho que pensei em não mostrar a ninguém, com total liberdade, tomando
imagens de fugitivas que passavam pelas ruas, misturando referentes culturais
da poesia, o tema da fugitiva, Petrarca, escritores renascentistas... E falando
em primeira pessoa [N.E.: no artigo Algo Realmente Novo: Recomeçando, presente nesta edição, o crítico espanhol Miguel Marías descreve longamente este filme-rascunho de Guerín].
Todas
essas
estratégias,
como
cineasta,
me
parecem
impudicas.
No filme quis apagar qualquer conotação do protagonista:
quem é, de onde vem. Faz parte do mistério, baseado em absoluto no personagem,
porque o personagem se definirá por aquilo que observa, e provavelmente a
informação que o espectador cria ao longo do filme vai mudando: "é um turista,
um poeta, um pintor, um cineasta que está procurando uma atriz num
restaurante?". Até que se passem uns 40 minutos, não se sabe que ele tem
uma
história anterior. O que procurei no filme é uma grande abstração, retirar as
informações
concretas, nenhuma referência cultural, e que fosse uma experiência do olhar,
puramente. Eu o pensava como uma aventura do olhar, dramatizar o olhar. Uma mulher
que é um obstáculo para a visão de outra mulher que está atrás, isto deve ser
tratado quase ao modo de Hitchcock, como se fosse um épico conseguir
vê-la. E que o filme se centrasse no princípio de sonhar os rostos. Para mim é o
princípio do cinema: observar e sonhar, e fabular sobre isto que observas. É um
tema que alguns podem julgar banal, quando En Construcción haviam muito mais conotações sociais... Mas, para
mim, é um tema muito importante e muito querido, o princípio do cineasta, observar
e sonhar. E também, que diabos, há algo de muito lúdico em fazer um filme com
mulheres bonitas! Não creio que tenha
que me sentir culpado por elas... (risos) Inclusive, a minha primeira
relação com o cinema, sempre menciono Murnau, Stroheim, Chaplin, mas com a mesma
propriedade poderia mencionar Claudia Cardinale, Lilian Lacy, e mulheres estupendas.
Comecei a ir fervorosamente à cinemateca provavelmente para ver atrizes. E soube
antes quem era Claudia Cardinale do que quem era Luchino Visconti: Visconti era
o cara que filmava Cardinale... E depois vi mais filmes
e pensei: "olha, aí está um filme do cara que filma a Cardinale, mas ela
não
está lá", e então me lembrava. Valerio Zurlini também filmava Cardinale
em A Moça com a Valise, maravilhosa. Inclusive
as meninas que o Griffith filma, são um encanto. E como filma Chaplin a Paulette
Godard. Minha adolescência intensíssima de cinema: me aproximar da tela para
ver essas mulheres mágicas. Nem sempre algo que seja lúdico tem que ser algo
menor, como esta fascinação do cinema, nesse caso muito ligado à fascinação pela
mulher.
Aliás, quando comecei a fazer filmes em Super-8, o fiz para filmar amigas minhas
de que gostava muito. E com a fotografia eu não podia, a fotografia congela o
momento, e nesse momento congelado a beleza escapava. E eu
não sabia capturar, não sou bom fotógrafo, para mim a beleza tem a ver com um
fluir temporal, com um ritmo interior, com uma certa respiração. Falo muito,
hein... (risos)
RO: Sobre o olhar... En La Ciudad de Sylvia é, objetivamente,
um filme sobre um sujeito que olha. Mas não é apenas "sobre" isso: o filme o
pratica. E na seqüência da varanda do restaurante me parece muito bonita a
relação que você estabelece entre o ponto-de-vista do protagonista e a maneira
como ele observa as mulheres que ali estão, e, em alguns planos, não temos mais
o ponto-de-vista dele, mas o seu, do diretor. E são coisas que ele não está olhando
mas que você, com essa estratégia, como que o ajuda...
Eu tenho uma necessidade de
criar essa dialética entre "olhar com" e "olhar a". Olhar com o personagem e
olhar para o personagem. E o olhar do personagem não é necessariamente o meu.
Tenho a necessidade de criar uma distância e vê-lo rodeado pela cotidianidade,
como um a mais, perdido em sua alienação, e isso vai avançando a medida que se
desenvolve o filme. Vemos ele esperando o bonde, rodeado de gente que também
espera o bonde, alheio à sua realidade. Digamos que o apaixonado sempre tem um décalage, uma diferença com o
entorno.
A
paisagem só é lida pelo apaixonado como os signos que podem ser enviados por
sua amada. Aí está a vida cotidiana... Rossellini, não? Pensava muito no plano
final de Viagem à Itália, onde o fluxo
de gente acaba varrendo os protagonistas. Para mim essa idéia era muito forte:
a confrontação entre o entorno e a figura. Há uma série de planos na última parte
do filme que re-enquadram os espaços da perseguição, mas sem a figura da mulher,
portanto com a vida cotidiana da cidade, da cidade de Sylvia.
Esse não é o olhar do sonhador, mas o meu olhar evocando os espaços do filme.
O
filme está dividido em três dias: o primeiro dia é um presságio do que vai acontecer
no dia seguinte, e o terceiro dia é uma evocação do dia anterior,
onde há uma série de sons e motivos visuais que evocam as coisas. Gosto de pensar
que o meu olhar não é o mesmo que o do sonhador. Sem dúvida, tenho um lado muito
de sonhador, mas estamos dizendo coisas distintas com a imagem, com a
duração da imagem. Se o rapaz se precipita para seguir uma menina, e ao sair,
cai uma cerveja, você pode cortar aí o plano e seguir o rapaz, ou você pode esperar
um pouco para que chegue a garçonete e limpe a mesa. É um gesto muito simples,
muito cotidiano, mas tem um sentido, um sentido que, eu diria, é em certo modo
social, pois mostra uma relação de causa e efeito, a paixão
sonhadora de um indivíduo gera este gesto de trabalho em outra pessoa. Quis fazer
este filme, entre outras coisas, porque En Construcción, um filme que se deu muito bem na Espanha, me levou
a ser rotulado de "cineasta social" de uma maneira que considerava restritiva.
Para mim o cinema social não é só filmar mendigos. Pode-se também filmar a
burguesia, é uma perspectiva, é um olhar social. Há na Espanha uma grande
auto-complacência com o chamado “cinema social”, um filme é considerado correto
quando mostra imigrantes boníssimos e burgueses malíssimos, e não é possível
que o assassino seja nem negro, nem mulher, nem homossexual... Há um esquematismo
infantil. É como um paradigma social, buscar uma correção
completamente estéril e inútil.
FF: E como foi feito o trabalho
de som do filme? A forma como você escuta a cidade é quase tão importante quanto
a forma como você a vê...
Sim, sim... Todos os meus filmes, ao acabar a filmagem, com som direto e
tal, continuo rodando por uma
semana ou duas só com o técnico de som – que no caso, é uma mulher, que formei
no En Construcción. Ficamos na
locação descrevendo muitos planos sonoros, a textura sonora da cidade. Nesse
caso, era muito importante ter muitos sons dos bondes, os sons em off, timbres dos bondes, o barulho dos
freios, o som da partida dos trens, tinham uma qualidade metafórica muito importante.
Em verdade, o filme está descrito mais a partir do som que da
imagem. O som às vezes é quem atua como contraponto à fabulação do personagem.
Na perseguição, ele está obstinado atrás de uma mulher, e o som nos traz vozes
de gente diversa que está falando ao redor, da cotidianidade. Esse contraponto é essencial.
Em outras seqüências, o som atua como empatia do personagem. Na varanda do restaurante
estão as violinistas, e eu pensava no cinema mudo, no melodrama mudo, quando
Griffith e Stroheim exigiam que os violinistas estivessem presentes nas filmagens,
para criar sentimentos em seus atores. Aí se perde de
vista a realidade, a música faz desaparecer esse entorno sonoro. Então o som
está sempre violentando a imagem, como contraponto, como prolongamento, como
relação. Há um diálogo constante entre os sons e as imagens que funciona também
como evocação: o som de uma garrafa vazia rodando pela rua evoca uma outra seqüência.
Gosto de criar simetrias e vínculos entre partes distintas do filme através do
som. Acho que o som é tudo, não? É o que dizia Robert Bresson, que o cinema sonoro
inventara o silêncio. O valor dramático e rítmico de uma pausa é um dos raros
privilégios que não tinha o cinema mudo.
RO: Nós estávamos falando antes
que seu filme retoma uma série de impressões de um cinema essencial que se perdeu,
e a seqüência da perseguição parece ser uma espécie de matriz perdida
das seqüências de perseguição no cinema, que foram, ao longo do tempo, sendo
mudadas e transtornadas de seus motivos originais...
É um filme que pensei em
fazer com meios, com dinheiro. En
Construcción eu tive dinheiro, e pensei: "bom, pela primeira vez terei
um
pressuposto normal". E não é assim, o cinema é uma revalidação constante...
Então tive que fazer [En La Ciudad de
Sylvia] com pouco dinheiro, em 16mm. Não tenho o sonho de rodar como Stroheim,
com ruas totalmente decoradas, e um megafone com o qual eu pudesse dirigir os
bondes, a figuração... Esse é um cineasta! E eu não posso fazer isso... Pensei
nos filmes dos Lumière nas cidades, quando vai um operador dos Lumière
filmar
uma cidade qualquer, são muito bonitos. Filmes de um rolo só, sem parar,
planos-seqüência de um minuto, você começa a vê-los, e no início do rolo um bonde
no primeiro plano atravessa o quadro, da esquerda para a direita. Depois passa
uma carruagem em outro sentido, com profundidade de campo, passam umas
crianças, um vendedor, e antes de acabar, passa outro bonde em profundidade de
campo no sentido contrário ao primeiro. Isso é uma riqueza de entradas e saídas
de quadro, em escalas distintas, que tem um valor coreográfico, são
lindíssimos. E, no entanto, não foram dirigidos! Como é possível essa beleza? É só produto
do acaso? Não, não é produto do acaso, é produto da observação. Os operadores
dos Lumiére, quando chegavam a uma cidade, a estudavam: quais eram
os ângulos onde mais se via movimento, onde a fotogenia do movimento era relevante,
a hora do dia adequada, pela luz, para a emulsão da película, pela riqueza de
escalas e movimentos, e como conseqüência dessa observação realizavam o plano.
Então, diante da impossibilidade de fazer Stroheim, fui
fazer Lumière. Fui eleger bem os lugares. E para filmar cada plano, havia apenas
três figurantes meus, para complementar o ritmo e a harmonia do entorno.
Essa é a idéia de cinema que me encanta: talvez mais que falar em documentário
e ficção, seria necessário falar em cálculo e acaso. O cinema sempre é uma
tensão entre cálculo e azar – e para mim isso ficava sempre muito bem exemplificado
quando íamos filmar dentro dos bondes. Nos bondes haviam uns
diálogos escritos, ensaiados, e no entanto há um grande acaso, que é o que vai
passar por trás do bonde. Os movimentos da cidade: se o bonde vai demorar numa
parada quando Xavier diga esta frase, e Pilar diga essa outra, se o rosto dela
vai se iluminar ou escurecer ao dizer essa palavra... Essas são conotações completamente
novas. E essa era uma idéia que nos excitava muitíssimo, levar ao extremo essa
idéia da ponte entre o cálculo e o acaso. Eu devo ser sempre o primeiro espectador
a ser surpreendido. E acho que é respeitoso com a natureza,
porque ela não te decepciona. É um pacto muito íntimo que a natureza tem com
o
cinema. O cinema tem essa vocação documental, de capturar algo que está em
frente à câmera, e para mim o cinema é um ordenador, e ele precisa desse pacto
com o real. Por mais que seja ficção.
RO: E como você chegou aos
atores, Xavier Lafitte e Pilar López de Ayala?
A Pilar conheci no Festival
de San Sebastián, quando a ela davam um prêmio de interpretação por um filme
chamado Juana la Loca, e a mim davam
um prêmio por ter feito En Construcción.
Então ela me encantou muito no cara-a-cara. Não a havia visto na tela, gostava
de sua natureza mais real, como mulher, sua reserva em relação ao exterior, sua
fragilidade, tudo ao contrário da máscara que põe quando é atriz. Gostei muito
de seus olhos, e logo que a conheci, pensei: "Quero filmar os olhos de Pilar". Às
vezes tenho problemas em filmar atores, porque eu só filmo pessoas que me importam.
Me parece estranha a situação de contratar um ator, e aí um dia você o reencontra
na saída de uma estréia de teatro... Para mim, filmar uma pessoa tem um valor
afetivo. Talvez seja assim porque comecei com o Super-8 filmando as meninas de
que gostava. Acho que me custaria muito filmar o inimigo, sabe? O inimigo, o
monstro, o monstruoso, estaria no fora-de-campo, presente, mas
não fisicamente, não encarnado. Então eu conheci a Pilar como pessoa antes da
Pilar como atriz – e acho que dificilmente a escolheria por tê-la visto em algum
filme. E quis recuperar a emoção que me produziu no tête-à-tête. E o Xavier eu
encontrei muito pouco antes de começar a filmagem. Eu precisava de um rosto que
soubesse olhar. E melhor, que não estivesse ligado a um ator conhecido. A equipe
era formada quase que inteiramente por mulheres, e elas me disseram que o filme
tinha que ser protagonizado por um cara bonito... Não era certo filmar tantas
mulheres lindas sendo observadas por um cara feio. (risos) E aceitei a
sugestão... Muito também por conta de todo esse registro mítico,
o
jovem cavaleiro que busca sua dama nesta cidade. Foi uma presença que chegou
tarde: três semanas antes fiz alguns testes de elenco, e fiquei com o
Xavier.
RO: E aos atores, você deu alguma
indicação do passado dos personagens?
Sim, ensaiamos muito, e criamos uma biografia. Quem eram, porque estavam
ali, como falavam, o que
haviam estudado. Fizemos um trabalho muito clássico. Eu iria apagar isso, no
filme, os signos da experiência prévia, mas para o ator isso é muito importante,
poder se situar, conhecer quem é – com a independência necessária para que o
cineasta decida não mostrar quase nada. Dizemos, no cinema, que um
filme é como um pequeno iceberg: só se vê a ponta, mas para que essa pequena
coisa tenha sentido e coerência, deve haver um trabalho submerso, debaixo da água.
RO: Na parte final, quando Xavier
está sentado no ponto de parada do bonde, observando os veículos, as mulheres,
aparece uma cujo rosto está marcado por uma enorme cicatriz. Como foi isso?
Eu achava que era muito
importante, nessa seqüência final, na qual os bondes vão ilustrando diferentes
formas
de destinos: umas mulheres se vão, outras vem, e com muitas opções
possíveis. Elas podem ser o futuro dessa Sylvia, que nunca aparece em imagem.
Uma mulher com filhos, muitas mulheres... E há também uma com o rosto desfigurado.
A possibilidade do destino trágico era muito importante que estivesse ali, e
isso eu não podia deixar para o acaso, porque dificilmente... Além de me parecer
quase indecente filmar alguém com o rosto verdadeiramente desfigurado, com um
propósito tão específico. Por isso fizemos com maquiagem. E filmamos muitas tomadas
com os bondes passando por essa pessoa que pus ali, voltando a assinalar essa
idéia dos destinos potenciais, dos destinos virtuais.
E o contraponto, essa idéia de que o rosto amado poderia ser o rosto ferido.
FF: Até chegar na Estrasburgo de En La Ciudad de Sylvia, seus filmes passaram
pela Irlanda (Innisfree) e
pela França (Tren de Sombras). Por
que outros países, outras cidades?
É mais bonito rodar um filme fora da sua cidade, porque a cotidianidade
provoca uma cegueira. O melhor de
uma viagem é que você se surpreende em cada esquina, em cada rua, o olhar é mais
sensível. E muitas vezes uma viagem serve para reinterpretar sua própria rua.
Por outro lado, gosto que o trabalho no cinema não seja como ir ao
escritório e voltar para casa. Gosto de levar um grupo de pessoas para outro
lugar, para viver uma experiência diferente, e viver ali, na locação. Acho que
isso dá uma intensidade adicional. Seguramente o cinema, para mim, é uma forma
de conhecimento, de me colocar em relação com o mundo e com outros lugares. Fiz En
Construcción, o único filme que se passa na minha cidade, e filmei ali porque
essa era a proposta, fazer um filme
em minha própria cidade – e escolhi o bairro em que mais havia estrangeiros.
No
cinema você sempre tem que transcender o local para buscar o universal, por menor
que seja o filme. Trata-se de um pequeno bairro da sua cidade, mas é preciso
buscar os ecos do mundo.
FF: Uma coisa que sempre quis
saber foi como nasceu a disposição de ir à Irlanda filmar o Innisfree, no lugar onde John Ford havia
rodado o Depois do Vendaval.
Não era uma idéia predeterminada. Ao passar pelo povoado de Innisfree, me
impressionou muito ter
encontrado um camponês, um camponês bêbado com uma vaca, e que ia falando sozinho
pela estrada. E falava de John Ford! Uma imagem impressionante... John
Ford é muito importante para mim, muito, muito importante. Ia bêbado,
tropeçando, falando de Ford. Pensei que era o último western crepuscular... (risos) Falei com eles, e pareciam
que tinham
o humor e o espírito de John Ford. E a minha ilusão, desde pequeno, era fazer
um western, o que é impossível. Ao
conhecer essas pessoas, nesse povoado, surgiu o desejo violento de fazer o filme.
Porque não me interessava fazer um filme cinéfilo ao ir a esse povoado. O que
me seduziu foi essa geração de storytellers,
onde podia reconhecer os personagens de um western.
E eram já muito velhos, então ou fazia o filme naquele momento ou não poderia
fazer nunca, eram pessoas de mais de 80 anos e estariam todos mortos. O culto
ao cavalo selvagem, ao uísque, ao pub (parecido com o saloon de um western), tudo remetia à colonização dos
meus sonhos, que são os faroestes.
FF: Tendo em conta a sua
experiência como professor universitário [do Departamento de Estudos de Comunicação
Audiovisual da Universidade Pompeu Fabra], tem algo aí que se relaciona com
a
sua
experiência de cineasta?
Agora apenas a exerço, mas antes, quando se passava muito tempo entre um
filme e outro, a docência era meu meio de vida. E eu sempre tratei meus alunos
como se fossem cineastas, como se fosse uma conversa entre cineastas. Porque
não sou professor, verdadeiramente,
sou cineasta. Os estudantes também estão fazendo coisas, curtas-metragens,
experiências com cinema, e tento plantar coisas da teoria na prática deles. Quero
que eles vejam os filmes que os precederam. Se alguém quer fazer um filme sobre
a terceira idade, bem, cuido para que tenha visto Umberto D., de Vittorio de Sica, ou Morangos Silvestres, de Bergman, ou Luzes da Ribalta, de Chaplin. É muito arrogante fazer um filme e
não ter curiosidade de não ver os filmes feitos antes do seu, com as mesmas ferramentas.
Quando preparávamos En
Construcción, com meus alunos, víamos filmes. Havia duas partes: falávamos
com pedreiros, engenheiros, arquitetos, gente ligada à construção, e também
víamos filmes muito diferentes. Saber como Howard Hawks retrata o mundo do trabalho,
ou como o aborda King Vidor, e outros cineastas. E o documentário, como qualquer
outra forma de cinema, tem um duplo compromisso: tem um compromisso com a realidade
que se põe a sua frente, mas tem também um compromisso
com o próprio meio – e isso é o que diferencia, em primeira instância, o
documentário cinematográfico da reportagem televisiva. Nos melhores casos, é a
ferramenta audiovisual de um jornalista ou de um sociólogo, mas não é a mesma
ferramenta de um cineasta.
RO: Uma última pergunta... Você falou antes do cinema espanhol...
Do cinema espanhol? Mas eu
não o faço! (risos)
RO: Exato... (risos) Mas você falava de como há nesse cinema espanhol
uma tendência à esquematismos
que não
te interessam. Mas a pergunta é: como você se percebe no meio desse cinema, não
necessariamente espanhol, mas o cinema contemporâneo, de qualquer parte do mundo?
Se você tem um sentimento de geração, de pertencimento a uma geração de cineastas.
Li uma entrevista sua em que você fala que o trabalho do cineasta é muito solitário,
que a experiência da direção é muito individual. Mas você vê ecos dessa sua individualidade
em outros diretores, da Espanha ou de qualquer
parte do mundo? Você sente que faz parte de alguma geração de pessoas que fazem
cinema, hoje, de uma maneira específica?
Acho que não, e não acredito
que ninguém agora tenha esse tipo de sentimento. Por isso tento rejeitar essa
idéia. Como quando me chamam para algum festival de cinema espanhol, de cinema
catalão, e penso eu, como espectador, porque iria assistir a um filme pela única
razão de ser espanhol – ou brasileiro, tanto faz? Eu não vou assistir filmes
de países, eu vou assistir filmes de indivíduos. Existem duas décadas, penso
nos anos 20 e nos anos 60, que tem muitas semelhanças entre si, em que os cineastas
sim se reúnem, escrevem manifestos, aparecem movimentos, o underground americano,
o free cinema da Inglaterra, o Cinema
Novo brasileiro, o cinema novo tcheco, polonês, o cinema-verdade, a Nouvelle
Vague, o manifesto de Oberhausen... Ou seja, ou
cineastas se reúnem e escrevem manifestos... Existem coletivos de cinema militante,
o grupo Dziga Vertov. Aí sim há um sentimento de pertencimento, às vezes filiado
a uma revista: podem ser cineastas muito individualistas, mas
dividem a redação de uma revista, certos ideários, certos pressupostos. Ou, às
vezes, quando há num país condições políticas muito específicas que marcam um
sentido geracional. Mas me parece que hoje em dia não somos assim, e que os cineastas
são mais solitários do que nunca. E que, quando os cineastas se
reúnem, é num sentido muito gremialista, muito banal, muito industrial, para
dar prêmios entre si – seria mais fácil ter um sindicato, e ponto. O cinema que
me interessa é o de casos isolados. Não é nem o alemão, nem o grego, nem o
português. Minha experiência como espectador é muito importante, e está ligada
a esses casos isolados. E se não estréiam na Espanha, viajo para vê-los.
RO: E quem te faz viajar, hoje?
Alguns da velha guarda, que seguem me dando coisas estimulantes. Rohmer
não é o caso de viajar, porque lá na
Espanha ele estréia, mas Godard é um caso de viajar, Rivette também. E Phillipe
Garrel. Dependendo dos filmes, Chantal Akerman. Ermano Olmi – às vezes me decepciona
com seus últimos filmes, mas é um cineasta importante para mim. Oliveira, Pedro
Costa. Também tenho uma grande curiosidade para ver como irá evoluir o Lisandro
Alonso. Chris Marker é muito importante. E a mim me enche de alegria saber que
estão todos vivos, depois de um verão tão terrível... O cineasta espanhol com
quem mais me relaciono é o Victor Erice, que é mais velho
que eu, e também com cineastas jovens, que foram alunos e vão fazendo filmes
que me parecem interessantes, e que sigo com muita esperança. Há um cineasta
holandês chamado Peter Delpeut, que é da minha geração, Pedro Costa também, são
um pouco mais velhos que eu, mas os reconheço como muito próximos geracionalmente.
Mas a verdade é que me sinto muito mais próximo dos estudantes
que estão virando cineastas agora do que dos profissionais da minha idade. Para
mim, o cinema não é uma profissão, é uma escritura, e isso me distancia muito.
RO: E você já pode dar notícias sobre seu próximo
trabalho?
Próximo? Está um pouco pronto, estou... Gostaria de fazer um filme que parte
de uma imagem, todavia muito vaga, mas muito intensa, de um cineasta muito amigo
meu que se chama
Marcel Hanoun, que em 1958 fez um filme chamado Une Simple Histoire. Um filme muito emblemático: para mim é o elo
perdido entre o Neo-Realismo italiano e a Nouvelle Vague francesa. Um filme cult,
muito pouco visto... Noel Burch, por exemplo, em seu livro Práxis do Cinema, esse é o filme que mais
vezes cita. Marcel Hanoun hoje é um cineasta completamente esquecido, de
saúde muito frágil, já muito velho, cujos últimos filmes – bem, ele não pára
de
trabalhar – me são muito distantes, e Une
Simple Histoire é um filme muito importante. E quero recuperar uma idéia
desse filme: a idéia de uma jovem mãe cruzando uma cidade de mãos dadas com sua
filha pequena. É uma idéia muito vaga, todavia, mas gostaria de retomar essa
imagem do Une Simple Histoire, e tentar
implicar o Marcel nesta também, que virá muito bem. Quero rodar em preto-e-branco,
e numa cidade grande. São Paulo podia ser um marco muito
adequado... São Paulo remete muito ao cinema italiano do pós-guerra, estou evocando
muito, ao passar por essas ruas, o cinema italiano daquela época.
Entrevista realizada por Rodrigo de Oliveira e Filipe
Furtado no dia 30 de outubro de 2007,
em São
Paulo, Hotel Crowne Plaza. (Tradução
do espanhol por Rodrigo de Oliveira)
|