A PROVA DE MORTE
Quentin Tarantino, Death Proof, EUA, 2007

A Prova de Morte é o filme de Tarantino que mais se afronta a uma questão que está no cerne de seu cinema: o retrabalho e a reavaliação de gêneros cinematográficos considerados menores, em especial os que trabalham com uma gratuidade de espetáculo e um forte poder icônico. Algo que era constitutivo do cinema em seus primeiros quinze anos (daí obras-primas como The Big Swallow) e foi sendo progressivamente jogado para segundo plano em matéria de seriedade, para abrir espaços mais "nobres" para os filmes com ênfase no narrativo, no simbólico, no dramático. Não que esse "cinema de atrações" tenha sido jamais abandonado: ele foi minimizado nas produções oficiais – mas sempre onde se vê uma bela má atriz ou uma explosão, há atração – e intensamente explorado nos gêneros B. É claro que o processo de priorizar o simbólico sobre o icônico foi uma operação natural para uma arte nova que desejava logo entrar no circuito de inscrição das artes nobres, ainda que boa parte dos modernismos do século XX tenham buscado destituir o simbólico dos dramas e do psicologismo pelo icônico do choque (o que no cinema se confere com O Cão Andaluz, Eisenstein, Vertov...). Mas como tudo que se recalca acaba uma hora ou outra voltando pela janela, eis que a partir da década de 80 o icônico volta às imagens em movimento carregado pelo clip, pela sensualidade gélida do plástico e do neon e pelo desejo, algo individualista, algo libertador, de fruir as imagens pelo simples impacto provocado pelo ícone apresentado (algo que, como operação estética, varia em níveis de nobreza de Caravaggio à pornografia).

Os anos 90 são esse momento em que o ícone volta definitivamente, e isso funciona tanto do ponto de vista do cinema visto como mais nobre, em sua busca pelo sensorial e pelo primitivismo do instante e do fluxo (Hou Hsiao-hsien pós-96, Apichatpong Weerasethakul, Claire Denis) quanto no consumo pop paralelo no tipo de operação e também na grandeza , em seu desejo de trabalhar com uma iconografia bem estabelecida e identificável (os gêneros, ainda que as referências diretas e obscuras não), uma gratuidade de fruição e revalorizar aspectos prosaicos de comportamento, dando a eles uma atenção tão grande e magnificando-os de tal forma (hiper-realismo, é?) que tudo isso faz com que as obras garantam-lhe um diferente estatuto. No cinema, o rei absoluto desse tipo de procedimento é Quentin Tarantino. E A Prova de Morte, como se disse, é o filme dele que se afronta mais diretamente com a questão do imaginário vagabundo de exploitation, é aquele que se faz questão frontalmente, e não mais como citação (Pulp Fiction), amálgama (Kill Bill) ou universo (Jackie Brown).

Em A Prova de Morte, trata-se diretamente de reproduzir, tanto naquilo que o público hoje vê como qualidade quanto aquilo que se considera ruído, um imaginário de filme de garotas & carros & tiradas espirituosas & música pop, algo entre o blaxploitation e o cinema de Russ Meyers. O acabamento meio porco (variação luminosa, cortes ríspidos), decupagem às vezes meio óbvias ou desequilibradas (campos-contracampo), as também características da própria exibição: cópias surradas, com riscos verticais, saltos de montagem nas cenas, mudança no registro de cor de um rolo pra outro, etc. Estamos num nível de tamanha emulação que A Prova de Morte pode tranqüilamente figurar no rol dos filmes de indústria recentes que, por trás de sua aparência pop, são verdadeiros exercícios conceituais e experimentos em referencialidade extrema (Longe do Paraíso de Todd Haynes, Psicose de Gus Van Sant).

Mas, ao mesmo tempo, temos o dado da realidade de circulação do projeto (que aliás se inscreve na essência estética do filme): Grindhouse não será exibido em salas grindhouse, e o saber de Tarantino não é o mesmo saber dos diretores que faziam esses filmes (quanto ao culto, nem se fala). Um desnível se faz, e se a brincadeira entre diferença (talvez fácil demais) e repetição (impossível) pode ser divertida, a tarefa de levar um tal projeto demanda não só comprometimento, mas um real amor e sinceridade em relação às imagens que se está referenciando (e reverenciando) para não se colocar acima demais e deixar claro um déficit de saber (o célebre efeito "olha aqui, estou fazendo isso"), e ao mesmo tempo saber que o colocar-se lado-a-lado demais representa uma solução um tanto hipócrita. Então, não é simplesmente bom mocismo dizer que há uma completa honestidade em relação ao que Tarantino exibe em A Prova de Morte, mas a declaração de que o dificílimo tom certo para dar conta de um imaginário, ao mesmo tempo tão na moda e ao qual se imprime um olhar mais de superioridade do que de filiação, foi encontrado.

Porque temos diante de nós um cineasta que realmente pouco se importa se os elementos com os quais ele vai trabalhar são de bom tom ou não, e tem a deliciosa cara de pau de fazer dos momentos mais importantes de seu filme uma porrada frontal de carros, uma lap dance que valoriza eroticamente a barriga de Vanessa Ferlito, o vestidinho de cheerleader de Mary Elizabeth WInstead, e, claro, o típico momento clímax e, se é grindhouse mesmo, tem que ter um valor como "em si" maior do que adequação à intriga (afinal, coesão é uma preocupação dos "simbólicos") da perseguição de carros com direito a uma mulher (a dublê Zoe Bell, aqui como atriz) solta na parte frontal do carro. Para Tarantino, o decisivo no processo artístico é o efeito e, principalmente, a minúcia na construção desse efeito. Uma velocidade e um afinco na construção das falas dos personagens que é muito mais do que o conteúdo do que está sendo dito (expresso de forma mais límpida na repetida fala do "kinda cute, kinda hot, kinda sexy, hysterically funny, but not funny-looking guy who you could fuck"), uma sabedoria que estima verdadeiramente o jogar conversa fora (a conversa sobre Dave, Dee, Dozy, Beaky, Mitch & Tich ou sobre filmes de carros como Vanishing Point) e, mais especialmente, a sensibilidade pop de juntar dois e dois e fazer com isso mais do que quatro. Isso é patente no uso que ele sempre faz da música em conjugação com a imagem, e que se configura em termos de intriga com o confronto final, entre um perseguidor maníaco e um grupo de garotas que não deixam barato. Zatoichi meets the one-armed swordsman? Godzilla vs. Mothra? Naturalmente é disso que se trata. Mas a graça particular de Tarantino é fazer com que um embate desses nasça quase como um capricho, como se o filme de uma hora para outra também pudesse virar um filme de Rohmer, uma animação, uma cena de kung fu ou Operação França.

Há algo em A Prova de Morte que acrescente ao que Tarantino já fez? Não exatamente. Dessa vez, é mais uma questão de afinação do que de originalidade, de empreender um desvio na rota com a finalidade de seguir melhor seu caminho adiante. Portanto, mais uma etapa no processo do que um fim a se chegar. Em todo caso, o trabalho na elaboração do efeito permanece intacto, e não é comum ver em outros cineastas aquilo que Tarantino sabe manejar com tanta naturalidade quanto respira ou caminha. Icônicos, saibamos apreciar a rara arte de fazer perder o fôlego, de fazer rir e de jogar com a imagem fazendo de seu fetiche uma verdadeira religião. Pois, mais uma vez, o sujeito mostrou a que veio.

Ruy Gardnier

 

 





As difíceis facilidades do icônico (A Prova de Morte de Tarantino)






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