A CORTINA DE AÇÚCAR
Camila Guzmán Urzúa, El telón de azúcar, Cuba/Espanha/França, 2006

O interesse por Cuba como o “lado de lá” da experiência política mundial já parece esgotado há tempos. Boa parte da atenção que tem se dado ao país no cinema dos últimos tempos acaba, eventualmente, se filiando ou a uma idéia de desmistificação da ilusão revolucionária, onde o pragmatismo da pobreza em que a população cubana vive atualmente é tomado como espécie de prova cabal de um equívoco histórico e desde sempre fadado ao fracasso, ou então à busca de certos valores próprios da vivência socialista que ainda permanecem arraigados no caráter cubano, tomando-se esta perenidade do ideal e do sonho também como a prova de algo, mas aqui do sucesso e da atualidade do projeto.

A Cortina de Açúcar, conscientemente, abriga estas duas grandes tendências. Mas, de todo modo, as imagens vistas ali, em seu estatuto de iconografia (ruínas de prédios antes esplendorosos, carros velhos, estrutura urbana deteriorada, as cabeças falantes dos entrevistados), já nos são bastante conhecidas. Esta Cuba é a mesma que alimenta os programas de canais a cabo e os documentários que, às dúzias, sempre nos chegam pelos festivais ou no circuito. O interesse no filme de Camila Guzmán Urzúa é ela própria: o que há de diferente aqui é o filtro da experiência pessoal da diretora, a perspectiva de quem viveu o sonho da geração de ouro da Revolução, que nasceu e cresceu no auge da pujança econômica da ilha, no momento em que Cuba era, de fato, um outro mundo possível – e, mais que isso, real. O olhar de A Cortina de Açúcar não escapa da iconografia, mas os sentidos de que estas imagens serão preenchidas acabam se sobrepondo àqueles de que elas já estão naturalmente investidas. É, no fundo, um filme sobre o filme que uma auto-exilada consegue realizar a partir de sua própria condição pendular entre o pertencimento e a distância daquele ambiente.

E aí, a seqüência que mostra uma das diversas manifestações políticas organizadas pelo governo, onde uma multidão se reúne diante de um palco para cantar hinos em louvor à pátria, sacudir mini-bandeiras de Cuba feitas de papel, para depois se seguirem planos que mostram as bandeirinhas jogadas no chão, pisoteadas e molhadas pela chuva, sendo recolhidas pelo caminhão de lixo, esta seqüência de metaforização óbvia do estado atual do ideal revolucionário não aparece como um dado coletado no contato com o cotidiano cubano. A narração, sempre presente e assumida pela própria diretora, enfatiza o tom demagógico daquela manifestação, relembra a destruição da estrutura real do Estado, uma destruição que este tipo de encontro de exaltação patriota só quer esconder. Quando vê as bandeirinhas jogadas no chão, A Cortina de Açúcar rapidamente se cala, e deixa a tal metáfora falar por si mesmo. O que houve entre o simples registro e sua reprodução no corpo de um filme foi a adição de um sentimento não tão nobre, mas nunca disfarçado aqui. A proximidade de Urzúa com aquilo de que trata lhe permite, como neste momento, o puro ressentimento.

É talvez esta possibilidade, esse salvo-conduto da experiência pessoal, que torne todo o discurso de A Cortina de Açúcar sempre tão rarefeito de idéias. Já havia na própria estratégia do filme a consideração de um painel sócio-histórico, mas a narração aparece a todo momento como que para nos assegurar a materialização daquilo que, as imagens por si, já nos ofereciam. A garantia da inserção de Urzúa na história que queria contar já estava dada desde o começo quando. Segurando a câmera numa mão e com a outra colocando e retirando da frente da lente uma foto antiga de sua escola, contrapondo-a com a imagem atual no fundo do quadro, Urzúa anunciara sua participação na construção daquele retrato, onde sua posição atrás das câmeras era pura necessidade técnica (não há equipe, é sempre o punho da diretora, é sempre sua mão a guiar a câmera).

Num plano belíssimo, veremos Urzúa entrevistando a própria mãe, ambas de frente para um espelho. Na posição tradicional do entrevistado num documentário, a mãe está sentada à frente, olhando para a câmera e contando a história da fuga da família do Chile logo após o golpe militar e do abrigo recebido em Cuba. Mas Urzúa aparece o tempo inteiro, no reflexo do espelho. Ela está sentada num móvel, com as pernas dobradas, típica postura relaxada, quase adolescente, que só podemos ter mesmo na casa dos nossos pais. Com a câmera na mão e os fones de ouvidos posicionados para acompanhar a captação do som, Urzúa nos permite ver aquilo a que talvez nunca tenhamos acesso pleno no cinema. Sua mãe se emociona, chora, silencia, e a filha, agora na posição da documentarista, reage às falas da mãe – e podemos ver suas reações, porque o reflexo no espelho a torna, junto da própria câmera, também personagem daquela imagem.

Boa parte de A Cortina de Açúcar se prende à retomada de contato de Urzúa com os velhos colegas de classe. Alguns poucos restaram em Havana, outros estão de visita à cidade no momento em que o filme se realiza, mas a maior parte deles fugiu do país durante o chamado “Período Especial”, a crise econômica vivida a partir da queda da União Soviética. Há uma articulação de pensamento e uma visão histórica natural em todas estas pessoas, sempre bastante conscientes do momento em que vivem, do que as fez partir ou ficar em Cuba, de como lidam com a frustração de seus sonhos. E, ao mesmo tempo, nunca se perde a dimensão da “conversa entre amigos”, a inclusão das experiências vividas pela própria diretora em alguns dos depoimentos, alguém a chamando de “Camilita” ou relembrando alguma travessura compartilhada. O retrato geracional está inevitavelmente contaminado pela participação afetiva, o documentário histórico contaminado pelo filme-feito-com-as-próprias-mãos: já existe uma primeira pessoa anunciada ali. Mas há a narração, que nos introduz uma dureza e uma amargura constantes, inabaláveis.

E, ainda assim, sob a chance terminar o filme com um momento arrebatador, onde Urzúa e um amigo listam, um a um, todos os amigos de infância que escaparam do regime castrista e para que país se mudaram, sob a foto antiga da classe toda reunida, Urzúa se estende um pouco mais. Retoma o barulho de pátio escolar e crianças correndo e gritando com que abrira os créditos iniciais, e mostra uma menina uniformizada, seguindo até o colégio. Como em todo o resto do filme, o ressentimento do discurso se complementa com um quê de esperança, a um pé da melancolia e a outro da fé na transformação daquele cenário. E é dessa dúvida, muito mais que de suas certezas, que A Cortina do Açúcar tira sua verdadeira força

Rodrigo de Oliveira

 

 





A diretora Camilia Urzúa no centro, cercada pelos amigos a quem reencontra vinte anos depois em A Cortina de Açúcar