CONDUTA DE RISCO
Tony Gilroy, Michael Clayton, EUA, 2007

A última imagem de Conduta de Risco é, de longe, sua mais antecipável. É o rosto de George Clooney, num longo plano-seqüência frontal, à medida que seu táxi avança pelas ruas de Nova York. Nesse momento, o fim do filme, com os créditos passando ao lado, todo o circo de gato-e-rato do mundo corporativo já foi armado e demolido, transformações já foram operadas, justiça (tanto a legal quanto a com as próprias mãos) já foi feita. É o momento que justificaria o nome do personagem de Clooney como o próprio título original do filme: Michael Clayton nu, exposto diante de nossos olhos, uma vez que a própria estrutura de poder da qual ele era o mais empenhado porta-voz acaba também de se expor. Um turbilhão de informações passando por sua cabeça justo no momento seguinte à grande libertação das amarras profissionais (mas, acima de tudo, morais) que o prendiam até então. Deveria ser o momento em que finalmente nos conectamos à verdade deste personagem, não fosse esta uma total impossibilidade diante da consistente negativa de Tony Gilroy em enxergar a trajetória de seu protagonista como uma história de redenção.

É o que, de política, há de mais interessante em Conduta de Risco: o reconhecimento quase embaraçado de que não há thriller corporativo capaz de dar conta de um sistema que é a própria natureza constitutiva das relações econômicas e sociais no mundo "civilizado". E se este sistema é também aquele pelo qual funcionam as personalidades daqueles que fazem parte dele, de tal maneira modulador de caráteres que uma conversa de um pai com seu filho de dez anos de idade é conduzida no mesmo tom que o arranjo que este mesmo pai faz com um policial corrupto, então a humanização pura e simples (como se imagina que um longo plano estático do rosto de uma pessoa em toda sua fragilidade possa significar) não pode ser promovida sem que se equacione o tipo de humanidade alcançável aqui.

Com o lado "do mal", Conduta de Risco será bastante rigoroso (como convém ao tipo de cinema liberal dentro do conservadorismo que Clooney e Steven Soderbergh têm produzido nos últimos três anos, sempre muito dedicado à denúncia daquilo que um acordo tácito em Hollywood sempre evitava mencionar). A personagem de Tilda Swinton é a ponta mais fraca da cadeia. Chefe recém-promovida da grande empresa que está poluindo uma área agrícola familiar e causando grandes danos à saúde local
o mote ambientalista não poderia estar de fora, evidentemente seu retrato de pessoa-por-trás-da-coorporação tenta disfarçar interesse onde há, na verdade, puro julgamento. Só encontramos Swinton nos momentos em que está prestes a pronunciar um grande discurso, liderar uma reunião com acionistas ou responder perguntas de uma repórter. Momentos em que se exige grande controle e confiança nas palavras ditas, mas a montagem paralela de Gilroy intercalará as exibições públicas dessa firmeza com o martírio privado por qual esta mulher precisa passar diariamente, ensaiando seus discursos, testando fraseados diferentes, medindo cada termo (e se decepcionando quando não consegue o efeito ideal). Não raro, estas cenas se darão enquanto Swinton se veste para o trabalho e há uma clara oposição entre os terninhos bem alinhados de lá e os sutiãs e calcinhas que deixam os excessos da meia-idade escapar aqui.

Esta dinâmica de preparação e atuação não soa, em nenhum momento, como a atitude de quem se permite olhar o inimigo com algum desejo de compreensão. Quando virmos esta mesma mulher mais adiante, já completamente desarmada por um ato extremo de servilismo à sua empresa, trancada num banheiro público completamente apavorada, e exibindo para a câmera a enorme marca de suor na região das axilas, aí ficará mais que claro que a Conduta de Risco não interessa outra relação com o mal que não constrangê-lo ao limite do patético. O que não é, a princípio, nenhum equívoco por si, não fosse a presença inquietante de Sidney Pollack ali ao lado, como o presidente da firma de advocacia que defende a empresa criminosa, incorporação mais eficiente do mal dissimulado no cinema contemporâneo (como bem diz Filipe Furtado). Em cada abraço de Pollack em seu "amigo" Michael Clayton, em cada sorriso simpático, um abismo de falta de escrúpulos que não podemos nem calcular, e isso só confirma que o tratamento dado à personagem de Tilda Swinton não é mais que sadismo disfarçado de compaixão.

O desconhecimento, esse abismo de onde não se tiram muitas certezas a não ser uma sensação de que há "algo de podre" naquele reino, é parte da própria constituição do protagonista. Por um lado, temos a impressão de que Michael Clayton será o tipo clássico do herói redimido: é viciado em jogo e deve dinheiro à máfia, tem um trabalho difícil de definir, um "consertador" que faz todo tipo de trabalho sujo para os patrões, mas ao mesmo tempo é mostrado integrado em sua família, tendo uma relação saudável com o filho, dividindo uma amizade franca com um advogado da mesma companhia. Mas não se tira nenhum resultado certo a partir da equação destas diversas partes. O que passa pela câmera é sempre um corpo exaurido, uma fadiga existencial evidente em cada movimento facial, uma ressaca permanente, e ao humano que interessa a Conduta de Risco, este que ainda insiste em fazer a coisa certa, por alguma razão confusa entre a lealdade, o resgate do amor-próprio e a responsabilidade com o coletivo, a ressaca não parece ser um estágio, mas um estado.

É o humano à beira do colapso de consciência, e que possibilidades de encenação existem aí para um filme cujo maior mote é exatamente a retomada de consciência de alguém que cortejou o lado negro e agora precisa se regenerar. Os primeiros quinze minutos de Conduta de Risco são absolutamente siderantes. Uma narração longa de Tom Wilkinson (o advogado amigo de Michael Clayton) é a primeira coisa que o filme nos apresenta, sobreposta a imagens de escritórios e salas de reuniões completamente vazias. É uma narração que não tem qualquer nexo, abrindo portas para todo tipo de consideração bizarra e caótica sobre a vida. Só muito tempo depois descobriremos se tratar das revelações de um sujeito que acaba de surtar por ter suspendido a medicação que tomava. Mas ali naquele começo
e de tal modo que contamine o filme inteiro, mesmo quando já soubermos que tudo não passava de um distúrbio químico o clima febril já está instalado de maneira definitiva. Mais adiante, seremos apresentados ao protagonista em três pequenas seqüências. Numa, ele joga cartas num cassino ilegal, escondido em algum porão do lado perigoso da cidade. No seguinte, aparece na casa de um grã-fino tentando lidar com o atropelamento-e-fuga que o sujeito acabara de cometer. E por fim, sem avisos, sem explicações, veremos George Clooney dirigindo pelo campo, até que estacione o carro no meio de lugar nenhum e suba uma colina, onde vai se encontrar com três cavalos que pastam por ali. Este encontro é filmado por Gilroy como algo sobrenatural. E não duvidamos que fosse mesmo.

Quando a estrutura do filme se dobrar sobre estes eventos fora do ordinário, e voltar no tempo explicando aos poucos como cada um deles pôde acontecer, a impressão de delírio já estará impregnada demais para se desfazer. Este parece ser o preço a ser pago pelos anos de competitividade feroz e esfacelamento moral e físico dos jogos de poder. A humanização possível dos personagens presos no meio desta engrenagem não pode ser mais a da reabilitação total, retorno transformado à vida saudável e feliz de outrora. O mais humano a se fazer é respeitar, e até mesmo olhar com algum carinho, como fazem Gilroy e Conduta de Risco, a completa e irreversível insanidade destas pessoas.


Rodrigo de Oliveira

 

 






A última imagem de Conduta de Risco: o contato frontal
que não explica, o rosto conhecido que
segue sendo um enigma