Apesar da importância da obra
de Jean-Pierre Melville, apenas
este seu último trabalho e a obra-prima O Samurai
(1967) estão disponíveis no mercado brasileiro de dvd.
Cineasta de características bem particulares, Melville,
em especial a partir de Técnica de um Delator (1962),
trabalha especificamente com brilhantes transposições
do universo do film
noir para o cenário europeu.
Do gênero clássico, o cinema de Melville
guarda os protagonistas silenciosos e taciturnos, de
moral dúbia, que podem tanto ser policiais
ou criminosos, mas que na maioria das vezes relativizam os limites que separam os universos da lei e do
crime. As intrincadas tramas criminais dos filmes de
Melville são entremeadas por
longos silêncios e uma série de elipses que acabam por
convergir para um interessante exercício de tempo narrativo,
que pode se dilatar ou se comprimir, respectivamente,
ao sabor das intenções do diretor, que sabe conduzi-las
com inequívoca maestria.
Neste sentido, Expresso Para Bordeaux
– que fora exibido nos cinemas com o título Dinheiro
Sujo – guarda em si essas características de Melville,
que as torna explícitas já nas primeiras seqüências.
Estas retratam de forma bastante detalhista um roubo
a um banco. Vemos um carro trafegar pelas ruas desertas
de uma cidade praiana durante um dia frio de inverno.
Um silêncio gélido banha toda a cena. Em seguida vemos,
de forma metódica, o assalto, durante o qual um dos
criminosos é ferido, e a fuga do bando comandado por
Simon (Richard Crenna). Por outro lado, a esse exemplo de dilatação temporal
– em especial naqueles que antecedem a ação criminosa
– seguem-se momentos da também já citada compressão
temporal nas cenas que retratam o dia-a-dia do detetive
Coleman (Alain Delon) em sua ronda diária pela região parisiense dos Champs Elisés.
Inserido, desse modo, desde os primeiros momentos no
universo temático e estético de seu autor, Expresso
Para Bordeaux, apesar
de suas incontestáveis qualidades, fica situado num
patamar inferior na obra de Melville,
em especial se comparado com O Samurai e o igualmente
brilhante O Círculo Vermelho (1970). Sim, aí
está a trama criminal com personagens imbuídos de uma
vontade e uma ética que parecem superiores a eles e
que os guiam igualmente (criminoso e policial) com espantosa
frieza no cumprimento de suas missões. Temos também
uma linha tênue que reflete sobre os limites das relações
de amizade – Coleman e Simon
são amigos – e de amor – ambos também partilham uma
mesma amante, Cathy (Catherine Deneuve). Esta
última também um belo exemplo das personagens femininas
de Melville, e não há como
negar o fato de sua obra ser carregada de franca misoginia. As mulheres em Melville
são sempre pouco confiáveis e retratadas como meros
“pontos de passagem” para o trajeto dos protagonistas
masculinos.
Mas, uma vez que Expresso Para Bordeaux
traz em si tantas das características do cinema de Melville,
por que não atinge o mesmo brilho de seus antecessores
citados? A resposta poderia vir primeiramente do fato
de que, em alguns momentos, as coisas no filme correm
um tanto apressadas demais,
em especial durante o tempo final, e nesse caso as elipses
por vezes parecem buracos narrativos. Outro fator primordial
seria que a frieza e o cerebralismo
tão comuns ao autor são aqui substituídos por momentos
rocambolescos como o da ação durante a viagem no trem
que dá o título do DVD. Nada que desabone em excesso
esse trabalho, tornando-o um filme medíocre ou esquecível.
Mas não há como negar que estamos diante de um momento
menor da carreira de um mestre.
Gilberto Silva Jr.
(DVD:
Classicline)
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