Nem
Trens, Nem Aviões,
de Jos Stelling
No Trains No Planes,
Holanda, 1999
Uma borboleta pousa em uma planta. Em seguida,
vemos um homem, arrumando suas coisas. Está de partida. Para onde?
A resposta aos poucos começa a ser intuída.
Stelling ainda é um diretor cultuado
em São Paulo. Com O Ilusionista (84) e O Homem da Linha(86)
ganhou o prêmio de público de antigas edições
da mostra paulistana. Seu Holandês Voador decepcionou feio
na Mostra de 97. Mesmo assim, a expectativa era grande para este filme,
exibido na Mostra de 99, e atualmente em cartaz. Não faltou gente
que o considerasse o melhor do evento do ano retrasado, o que prova que
ele ainda é capaz de agradar a um público de festivais,
em tese mais exigente que o de cinemas de shopping.
Mas o diretor holandês perdeu a habilidade
narrativa. Seu filme alterna momentos sombrios com momentos alegres de
maneira insatisfatória. Isso se deve, em parte, à construção
dos personagens, todos capengas. Não sentimos suas dores, não
entendemos seus problemas. A prostituta, o grandão bobo, o garanhão
alemão, a filha do dono do bar, o casal infeliz, todos interagem
com o homem que se despede, numa trama pífia que poderia ser narrada
em muito menos tempo. O personagem do cantor é patético,
assim como o do alemão, ambos exageradamente caricatos. Claro,
deve ser intencional, mas não caiu bem. Sente-se uma mudança
de registros ineficaz porque enfraquece os dramas. É compreensível.
São poucos os diretores que sabem efetuar essas mudanças.
Dino Risi em Il Sorpasso desenvolveu com maestria essa alternância
fazendo um clássico da comédia melancólica. Stelling
se deu mal. Seria melhor se assumisse o ridículo da comédia
humana, ou o insustentável pesar dos anos que acomete o protagonista.
Ficou num meio termo que não funciona.
O começo até sugere uma forte
carga dramática que é drasticamente quebrada pela entrada
de "Heartache", a baba de Bonnie Tyler. Todos já devem
ter ouvido em algum elevador. Uma canção pop alegre demais,
já preparando o espectador: Olha, vamos falar de coisas sérias,
mas não fique triste. A trilha, por sinal é muito fraca.
The Cascades e Kevin Coyne se salvam num mar de mediocridade. Mesmo Nicola
Piovani contribui mal. O desfecho também decepciona, apesar do
belo plano fechado na prostituta. Enfim, um filme fraco cujos poucos bons
momentos não o tornam aceitável.
Sérgio Alpendre
|
|