Cronicamente Inviável,
de Sérgio Bianchi


Cronicamente Inviável, Brasil, 2000

Cloacamente Invariável

Sempre sabe-se mais ou menos o que esperar quando se vê um filme de Sérgio Bianchi: aquela sistemática crítica de toda a instituição vigente, todo o superego social e uma estética deliberadamente provocativa, que usa do nojo para movimentar o espectador de sua cadeira. Até aí, nada de novo em Cronicamente Inviável, a não ser a hiperbolização do processo.

Hipérbole com um objetivo claro. O leitor de Contracampo sabe que os dois filmes sobre os quais mais se falou aqui desde o começo da revista levavam o nome do país em seu título: Tudo É Brasil e Central do Brasil. Cronicamente Inviável, apesar das aparências, não é diferente. Pois "cronicamente" é um advérbio e "inviável" é um adjetivo. Logo, eles pedem um substantivo que lhes garanta o significado. E não há dúvida possível: o substantivo é "Brasil". A elisão do substantivo no título do filme revela de primeira a estratégia de Bianchi para se aproximar de seu tema: mostrar uma série de esquetes sem aparente sincronia um com o outro — aparente porque há uma: tudo é cronicamente inviável.

Se formos aproximar o trabalho de Bianchi com alguma coisa daquilo que aparece no filme, seremos forçados a associá-lo ao jovem revoltado com o estado da burguesia que tira todo o lixo da lata e recoloca de volta à rua. Sob esse aspecto Cronicamente Inviável é poderoso e instigante. Faz uma crítica e ri deslavadamente em cima de todas as "saídas" da nossa democracia (uma palavra que serve para designar tantos regimes diferentes só pode hoje ser desprovida de sentido) para solucionar os problemas que ela mesma cria: miserabilismo, culpa social, preconceito social e geográfico, desemprego, injustiça social... o leque é variado e para todos os gostos. E seria injusto dizer que o filme não se faz ao vermos Dira Paes como nordestina que renega seu passado de carvoeira como administradora de um restaurante aconchegante para burgueses felizes, ou Daniel Dantas agredindo verbalmente a empregada, ou ainda Cecil Thiré como o dono que tenta ser bonzinho e depois mostra-se um canalha contumaz. Sérgio Bianchi bem encontrou uma metáfora para mostrar seu métier: a lógica do anti-gari.

Não se diga que Bianchi não tem um vasto universo de nojeiras a perseguir. O país é cheio delas e não é questão de escondê-las, muito pelo contrário. Mas é de se questionar a maneira pela qual tudo é tratado em Cronicamente Inviável. Porque, ao contrário de Mato Eles?1, a figura do autor não aparece em momento nenhum no filme. Ele dá voz aos personagens e ao mesmo tempo de recusa a dizer qualquer outra coisa a não ser o taxativo "cronicamente inviável". Se o Brasil é elidido no título do filme, o autor não menos se elide de seu filme. Não se tente aproximar ele de figura do sociólogo que, no mais, faz algumas das mesmas reclamações acerca do subdesenvolvimento brasileiro. O próprio professor viaja o Brasil operando atividades ilegais, fazendo "entregas". Ele é tão patético, ou mais, quanto todos os outros personagens, porque reclama do próprio sistema que ajuda a alimentar.

Ao mesmo tempo, não se pode dizer que Bianchi foge da própria arapuca que armou. Sua estética do choque revela-se igualmente cheia de miserabilismo e culpa social, vendo placidamente o mijo da axé-music baiana caminhar até o rosto de um menino de rua dormido no chão, ou a meninada desabrigada se matando por um brinquedo. Se Cronicamente Inviável é um tônico de "realidade brasileira" no cinema nacional (e, ademais, parece ser), é de se perguntar em que sentido vai essa tônica: o que tratamos de fazer? Ficar rindo de nosso estado inviavelmente crônico como nação ou tentar, mesmo refratariamente, reivindicar um tipo de ação direta sobre a sociedade (como o fazem até filmes inferiores como Meu Nome É Joe de Ken Loach ou A Nuvem de Solanas)?

Sérgio Bianchi se coloca assim como uma espécie de Jean Baudrillard do cinema brasileiro: já que não há nada mais a fazer, já que tudo é, mais uma vez, cronicamente inviável, só resta aproveitar o tempo que falta a rir indiscriminadamente de tudo, à maneira de um flanêur às avessas, não porque não anda, mas porque observa tudo como separado de si mesmo e porque não consegue amar nada do que lhe aparece na frente. O país se elide do título, o autor se elide da obra, e nisso o amor se esvai de tudo: se Cronicamente Inviável é tão ascéptico de frio, é porque lhe falta o amor da adesão. Nele não se adere a nada (por isso o filme ter agradado àqueles que acham que "é tudo uma baderna mesmo" e que não se resta muito a fazer, presos atrás de uma forte blindagem mental que os retira do mundo dos pobres mortais).

Para fechar, façamos como o professor de Bianchi e roubemos uma idéia, a da amiga cineasta e professora Tetê Mattos ao sair do filme. Trata-se de um filme escroto, à maneira que se entende essa palavra no nordeste. Escroto é um misto de malandrinho e escroto mesmo, babaca total. É nessa ambivalência que é construído Cronicamente Inviável, um filme importante porque, de certa forma, abre caminho para pensar uma série de questões, mas que ao mesmo tempo se retira delas antes que se possa construir alguma coisa. Não é que a lógica da escrotidão de Sérgio Bianchi não seja eficiente: aquilo que ela propõe ela realiza à exaustão. O que se ressente é a falta de vida, é a falta de vitalidade para realizar verdadeiras questões. Cronicamente Inviável se coloca numa posição muito fácil a respeito de tudo e fica, tal qual cloaca, invariável juntando merda. Não é que Sérgio Bianchi tenha se excedido; ao contrário, ele não vai é longe demais.

Ruy Gardnier



1. Confesso aqui não ter visto o filme, mas agradeço aqui às conversas detalhadas com Leo Gavina e marcelo Ikeda a respeito da obra de Bianchi, e de Mato Eles? especialmente.