O Corpo Ardente

Uma perturbadora, ardente, pulsação irracional; desconcertante frigidez incidental (acentuada na música de Rogério Duprat). Inquietude interior e ansiedade de calidez; letárgica e amarga desagregação, possivelmente existenciais. São algumas características que, à primeira vista, encontramos nesa realização de Walter Hugo Khouri. O Corpo Ardente se ambienta no coração de uma burguesia desgastada, exausta. Até aqui nada de novo: WHK sempre se debruçou sobre este hemisfério. Os problemas são típicos: a fossa, o tédio, a eaxustão do sexo-amor. Daí decorrem sentimentos condicionados, abstratos: o marasmo, a contemplatividade, e um forte impulso: a necessidade de fuga. Em Estranho Encontro os conflitos ocorrem numa bela casa do interior; em A Ilha o tédio e a depressão se afogam no mar; em Noite Vazia a fuga é mais realista, árida: configura-se no seio da própria cidade, numa noite de bacanais. Sempre os subterfúgios. tristeza. Mas sempre também um tranqüilo inconformismo.

Neste O Corpo Ardente voltamos às mesmas teclas: uma festa requintada mas vazia; a saturação do sexo-amor; uma temporada em Itatiaia, eis a fuga. Ou libertação? Esse filme é fundamental na obra de WHK: complementando-a, possibilita melhor compreensão de outros filmes. Um fato curioso: não somente dos de WHK, mas, inclusive, da trilogia de Antonioni. Existem aqui novos germes, impregnando o filme de uma auspiciosa irracionalidade. Insistimos nisto: O Corpo Ardente aplica-se a outros filmes de WHK. É retroativo ao mesmo tempo que, talvez, poderá contemporizar o futuro de sua carreira. Isto se WHK prosseguir – e prosseguirá? – nesta linha que gostaríamos fosse sempre, isto é, pesquisando a condição humana através do insólito, do irracional.

Quando um autor transubstancia sua visão em ficção, aproxima-se da criação, perde a subserviência à mentalidade dos personagens ou do "background". Quer dizerm, transcende os condicionamentos sociais que, no caso de WHK, sempre contiveram fortes resquícios da deterioração das altas esferas. Mesmo em Noite Vazia, não havia o élan que existe em O Corpo Ardente, porque este possui um forte elemento libertador: a procura de compreensão da irracionalidade humana. Aquele era de uma imanência estática, deixando uma sensação de desalento. Já aqui tudo se revitaliza: o filme tem a força de alguns filmes "malditos" do cinema japonês. Uma aparente frigidez, mas compensada pela vibração interior. Não mais uma constatação anatematizante. Saímos deste filme refletindo, analisando. Isto porque O Corpo Ardente vem acrescido de uma metáfora, similitude ou implicação dialética, inerente à vida em geral: humana, animal, vegetal. Desde que se procure uma convergência no Homem e na Razão, tudo é válido. Neste ponto reside a nossa dúvida sobre O Corpo Ardente. Sua personagem central é obcecada por cavalos. Suas ansiedades parecem culminar na copulação doos équidas: desde já, um momento antológico, admirável, que nos leva ao embevecimento. De uma estranha irracionalidade, inquietude, calidez.

De resto, O Corpo Ardente é de uma total harmonia cinemática: de linguagem, fotografia-iluminação, música, interpretação e montagem. Gostaríamos de continuar a análise, mas a limitação desta coluna não permite, restando-nos recomendar este filme brasileiro como um dos grandes filmes do ano.

Jairo Ferreira
(16/12/66)

 

Arthur Autran