Sintonia intergalaxial

Grandes filmes exigem do crítico um verdadeiro
mergulho nas profundezas do abismo e nem sempre
é necessário que ele volte à tona em textos ou verbalmente.
(Jairo Ferreira, "O Cinema: Música da Luz")

Nascido na cidade de São Paulo em agosto de 1945, Jairo Ferreira iniciou-se no cinema através do cineclube do Centro Dom Vital, ligado à Igreja Católica. Isto ocorreu num momento em que o catolicismo era ainda influente na cultura cinematográfica através de grande número de cineclubes espalhados pelo Brasil, de críticos católicos, de livros de iniciação à linguagem cinematográfica escritos por padres ou militantes da igreja e até de periódicos como a mineira Revista de Cultura Cinematográfica. Jairo Ferreira chegou a coordenar o cineclube mencionado no período de 1964 a 1966.

Na imprensa colaborou como crítico especializado no jornal S. Paulo Shimbum entre 1965 e 1972. Apesar de a publicação ter como público alvo a comunidade japonesa, ou talvez até pela liberdade aí encontrada e que seria impossível nas páginas de cultura dos grandes jornais por conta dos interesses mais imediatos destas empresas, Jairo Ferreira acompanhou de perto a produção brasileira do período, mas muito especialmente o chamado Cinema Marginal, apoiando, divulgando e discutindo filmes e diretores do movimento, tais como Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach e Júlio Bressane, entre vários outros. A importância da sua coluna foi tal, que as pessoas ligadas ao meio cinematográfico, especialmente a vanguarda, compravam assiduamente o jornal da colônia japonesa para acompanhar as opiniões de Jairo.

Sua carreira na imprensa teve prosseguimento através de colaborações esparsas em Filme Cultura, Artes e Cine Imaginário, como editor de Metacinema, bem como crítico da Folha de S. Paulo entre 1976 e 1980, sempre apoiando o cinema experimental, especialmente o brasileiro. Trabalhou ainda na década de 1980 como assessor de imprensa na sucursal paulista da EMBRAFILME. Mais recentemente ministrou cursos sobre os mais variados aspectos do cinema em oficinas culturais, além de voltar a colaborar de forma esparsa na Folha de S. Paulo e ter atuado como colunista daqui de Contracampo.

Escreveu o texto panorâmico intitulado "O cinema no Brasil" para a obra de cunho introdutório Nós e o Cinema, versão brasileira editada pela Melhoramentos a partir do original italiano. No belo ensaio "Cinema: música da luz", que consta do volume O Cinema Segundo a Crítica Paulista, organizado pelo crítico e pesquisador Heitor Capuzzo, Jairo Ferreira expressou o seu amor pelo cinema e as suas principais idéias sobre o ofício que exerceu na imprensa cultural.

Indubitavelmente sua principal contribuição intelectual para o cinema é o hoje clássico Cinema de Invenção, editado pela primeira vez em 1986 através da Max Limonad e reeditado em 2000 através da Limiar com algumas alterações em relação à edição pioneira. Volume dividido em capítulos dedicados aos realizadores brasileiros que contribuíram para a experimentação na arte cinematográfica, introduzido por considerações de teor geral a respeito do experimentalismo, Cinema de Invenção propõe uma nova leitura do cinema brasileiro ao destacar lado a lado Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias, José Mojica Marins, Glauber Rocha e Mário Peixoto. O livro não é uma história do Cinema Marginal, mas o "paideuma", segundo seu próprio autor, do que de mais importante foi realizado em termos da vanguarda estética no cinema brasileiro. Além disso, por meio de uma linguagem verdadeiramente apaixonante e utilizando-se ainda de um complexo sistema de colagens de textos, a ponto de ser difícil de descrever para quem não o conhece, Cinema de Invenção é um marco para aqueles que ingressaram nos mistérios da arte cinematográfica através das suas páginas, siderando os leitores que, muitas vezes, não viram boa parte dos filmes ali comentados. Quando utilizamos acima a palavra clássico pensamos não em algo mumificado ou congelado no academicismo bempensante, pois nada mais longe do livro do que isso, mas sim numa intervenção intelectual que constituiu de forma estruturante a tradição, no sentido de Ezra Pound, da vanguarda cinematográfica no Brasil, colocando em relevo obras até ali não tão destacadas ou lançando luzes sobre outras completamente desconhecidas.

Trabalhou como fotógrafo de cena, assistente de direção e ator em várias produções, bem como roteirista e diretor. Roteirizou um episódio do longa-metragem Audácia, Fúria dos Desejos (1969), "A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do Sexo", dirigido por Carlos Reichenbach, bem como o brilhante O Pornógrafo (1970), de João Callegaro – no qual ainda faz ponta no papel de um hippie –, e Corrida em Busca do Amor (1971), também de Carlos Reichenbach. Como diretor fez apenas um curta-metragem em 35 mm, O Guru e os Guris, documentário de invenção sobre Maurice Lefeard, o mítico coordenador do Cineclube de Santos, filme que para além dos belos planos da cidade praiana tem situações memoráveis como a seqüência numa mesa de bar repleta de cervejas reunindo várias pessoas e o cineclubista afirmando com a voz bastante alterada que a bebida nunca atrapalhou o seu trabalho. Foi na bitola Super-8 que encontrou condições de fazer seus filmes, dirigindo vários títulos: Ecos Caóticos (1975), O Ataque das Araras (1975), O Vampiro da Cinemateca (1977), Antes Que Eu Me Esqueça (1977), Horror Palace Hotel (1978), Nem Verdade Nem Mentira (1979) e O Insigne Ficante (1981). Também realizou o vídeo Metamorfose Ambulante (1993).

Os filmes dirigidos por Jairo Ferreira já mereceram duas retrospectivas, uma organizada no Museu da Imagem e do Som (SP) em 1997 e outra pelo Centro Cultural São Paulo em 2001. Antes Que Eu Me Esqueça e O Vampiro da Cinemateca também integraram a Mostra Marginália 70, organizada por Rubens Machado para o Itaú Cultural (SP), que reuniu algumas das mais importantes realizações brasileiras em Super-8. Apesar desta maior divulgação nos últimos anos, a obra cinematográfica de Jairo Ferreira ainda está por ser devidamente descoberta e analisada. Certamente O Guru e os Guris, O Vampiro da Cinemateca e Horror Palace Hotel merecem destaque na filmografia nacional, pois são verdadeiros filmes de crítico no sentido que reúnem pessoas, filmes, livros, revistas e fotos ligados ao cinema de forma a compor uma grande cinemateca experimental do imaginário.

Jairo Ferreira faleceu em 2003 ao completar 58 anos, na mesma cidade de São Paulo em que nasceu. Incorporando uma observação do poeta Cláudio Willer no prefácio de Cinema de Invenção, podemos afirmar que para Jairo era importante marcar a ruptura e a transgressão para além da sua obra, relacionando-as com a própria vida, de forma a permanentemente violentar nossas convenções sociais. Ao mesmo tempo, sua vida & obra foram essencialmente marcadas pelo amor incondicional ao cinema, o que ele transmitia a todos em papos, nos textos e nos filmes que realizou.

Arthur Autran