Os Trapalhões e o Mágico
de Oroz,
de Dedé Santana e Vitor Lustosa

Brasil, 1984
Sexto
e penúltimo filme da fase temática sobre ícones das mazelas sociais brasileiras,
O Mágico de Oroz traz o quarteto Os Trapalhões no ápice de sua
representatividade midiática, quando tinham se tornado os principais interlocutores
com o público de cinema brasileiro (principalmente o infantil) e uma referência
central na constituição do imaginário audiovisual pré-abertura política.
Esse
sucesso de massas, articulado à parceria com o projeto estatal da Embrafilme,
fez de O Mágico de Oroz um
filme-síntese do que de melhor e pior havia conseguido o cinema dOs Trapalhões
até então. Depois da fase mágico-fantasiosa, baseada em paródias do universo
pop e dos contos de fada (retratada no documentário O Mundo Mágico
dos Trapalhões – 1981) e de uma série de filmes de crônica/denúncia
social, O Mágico de Oroz se destaca entre os títulos lançados em
DVD por tentar reunir, num mesmo filme, essas duas tendências.
Falar
diretamente da seca nordestina, da manipulação política da seca por um
coronel ganancioso, e ainda se colocar numa sintonia paródica com um dos maiores
clássicos da indústria hollywoodiana era um desafio complexo, pretensioso,
e pelo qual Os Trapalhões caminham numa série de passagens memoráveis
e dificuldades narrativas significativas.
É
importante observar que, a essa altura, a escolha dos papéis que cada
um representaria dentro do universo parodiado se dá num duplo movimento:
isso é, as personas Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são comentários sobre
as figuras de Dorothy, Espantalho, Homem de Lata e Leão Covarde; assim
como esses últimos são comentários sobre o próprio papel que cada um dos
Trapalhões representava dentro do quarteto. Já conhecidos em seus mínimos
detalhes pelo grande público em suas funcionalidades dramáticas, tornam-se,
eles mesmos, objeto de comentário. E assim se dá:
Didi
é Dorothy (herói ingênuo e errante, sem lar, inconsequente, em busca de
uma forma de poder voltar para sua casa – retirante); Dedé é o Leão Covarde
(misturando a figura do clown - palhaço meticuloso que serve de escada
para as piadas dos outros - com a idéia da figura assustadora/autoritária
que esconde sua grande covardia); Mussum é o Homem-de-Lata (solitário
malandro carioca e beberrão, sofre com a falta de um coração – “a pinga
não traz felicidade”); e Zacarias é o Espantalho (ingênuo e interiorano
– é a figura da fragilidade em busca de “miolos” que o façam menos manipulável).
Prova da riqueza que a figura dos Trapalhões traziam para um argumento
cinematográfico, essa apropriação do filme das imagens acumuladas na memória
do público (a repetição) é uma das marcas do grupo. É impossível imaginar
quanto o argumento de Arnaud Rodriguez perderia de sua força dramática se, no lugar
do quarteto, estivessem outros comediantes (de igual ou maior talento
individual, inclusive). Pois a maior marca do quarteto é justamente o
vasto universo de interações possíveis,
através de uma repetição constante de bordões e chistes, que reafirmam
suas funcionalidades. O modo de falar, as caretas recorrentes, as acrobacias
repetidas, os risos reiterados – após mais de 15 anos de carreira, Os
Trapalhões acumulavam cada vez mais valor às suas imagens, se tornando
referências culturais indiscutíveis.
Esse
peso de uma fama que ultrapassava os filmes (sucesso absoluto também na
TV) talvez tenha sido a responsável pela grande pretensão de O Mágico
de Oroz e dos deslizes do modelo trapalhônico. Tratar de um dos mais
complexos problemas sociais brasileiros (a seca) de forma alegórica –
tentando chegar a um certo aspecto de manifesto público pela solução do
problema é um peso difícil de carregar. A ingenuidade, o senso de bondade
irresponsável comum às personagens, é oprimido por uma consciência pesada
por parte dos artistas/figuras da mídia. O que dá ao filme um aspecto
de bolha dramática que Os Trapalhões não conseguem resolver de todo.
Porque
a seca, como fenômeno macro-social é muito mais vasta do que a luta apequenada
dos artistas de um circo (Saltimbancos), de alguns garimpeiros
(Serra Pelada) ou de mendigos na defesa de um menino (Vagabundos)...
O Mágico não trata do problema da cidadezinha de Oroz, ou do retirante
Didi, mas da questão do “continente esquecido”, pesadamente ditada pela
voz jornalística-documental que abre o filme. A ingenuidade, o heroísmo
doce dos Trapalhões é ameaçado por essa engajada consciência metonímica
do filme.
Após
o delirante encontro com um messias (do qual debocham com séries rimadas
de piadas) e com o Mágico de Oroz (“não será um mágico charlatão que resolverá
o problema da seca”), Os Trapalhões viajam em um osso mágico-nave espacial
(2001: uma Odisséia no Espaço) e chegam a uma cidade grande caótica
e idealizada. Um Rio de Janeiro onde os patrocinadores do filme brotam
com uma curiosa significância dramática (já que representam
justamente a presença desse universo de riquezas do sul-maravilha) e de
onde roubam uma torneira pública de onde brotaria água (solução mística).
Se em toda a sua filmografia pré-Saltimbancos, Os Trapalhões costumavam
ser recompensados por sua bravura ingênua, com soluções mágicas; aqui,
a solução pela primeira vez, falha. A torneira não jorra água em Oroz.
E os quatro são condenados. Decepção.
Pendurados
num pau-de-arara, os quatro estão derrotados, impotentes. O filme chega
a um dilema inédito na carreira do quarteto: a luta de Didi teria sido
inútil? A mistura da tomada de atitude de Os Saltimbancos
com as recompensas/dádivas de filmes anteriores, se colocava diante
uma ruptura inédita: Os Trapalhões falharam. Não uma pequena derrota passageira
como a morte da cadela de estimação de As Minas do Rei Salomão,
ou a recorrente solidão do desamado Didi, mas uma falha sem saída: a última
das alternativas se tornara estéril.
E
aí se abre a fissura final da narrativa, uma esperança passiva toma conta
do quarteto, as criativas fugas e acrobacias dão lugar a uma súplica,
as brincadeiras dos Trapalhões chegam a seu limite. Dá-se então um salto
narrativo, um milagre, um angustiante happy end em erupção diante do espectador:
A
chuva cai do céu simplesmente - uma
tempestade que liberta independente de toda e qualquer vontade.
Um
carnaval se instaura na cidade de Oroz, sem motivação narrativa, sem continuidade
dramática – uma licença poética idealizada, ilusória. O filme termina
assim, numa grande mentira, numa solução redentora e passageira – como
bem sabe o sorridente coronel, que observa a festa popular com deboche.
A alegria toma ares melancólicos, uma síntese do espaço da diversão precária.
Por um momento, enquanto cai a chuva, os Trapalhões e os moradores de
Oroz brincam...e a imagem se congela.
Todo
o circo trapalhônico, a participação dos moradores de Oroz como o “respeitável
público”, as cavernas de celofane, o osso mágico, a participação de Xuxa
(já associando sua imagem à de tia das criancinhas...), as maquiagens
expressivas, os chistes, os trocadilhos, a presença de Toni Tornado, abaixam
a cabeça diante de uma realidade de que não ousam mais falar em seus velhos
termos, de que não querem fazer piada, que escapa a seu espaço circense.
Da brilhante brincadeira do caça-urubus da primeira cena, passando pelo
referencial realista de José Dumont e Arnaud Rodrigues, pela magia mambembe
do musical do tema “Os animais” e do julgamento dos repentistas em praça
pública, o filme chega a essa descrença em sua própria narrativa. Desiste
de um desfecho trapalhônico e não termina – se congela antes.
Uma
pequena mensagem surge na tela, assinada pelos Trapalhões: “(...)e que
a chuva que caiu não esfrie as ações das autoridades para acabar com a
seca...” Um movimento marcado por um sobrevôo culpado, duvidoso de suas
próprias forças – ao mesmo tempo reafirmando suas preocupações e uma certa
impotência do cinema diante delas. Os Trapalhões fazem de sua imagem uma isca ao
olhar do espectador para uma questão extra-filme e dessa forma sacrificam
seu talento. Perdem frescor, perdem espontaneidade: as palavras finais
de Didi são como que ditadas por um Renato Aragão ciente de seu papel
de moralizador/formador de opiniões. De ídolo das crianças.
Papel
que tomaria cada vez maior importância em sua carreira (Unesco) e seria
responsável por grande parte das atividades do ator-produtor na década
seguinte, após a morte de dois de seus companheiros. O Didi original (dos
primeiros 15,16 anos) começava a dar sinais de uma possível fissura em
sua inconsequência patética, em sua malícia de palhaço sem rumo, de herói
do acaso. Ensaiando uma lenta despedida.
Felipe Bragança
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