Pura
Adrenalina,
de Wes Anderson

Bottle
Rocket, EUA, 1997
Bottle Rocket
deve sua origem a um encontro: o de Owen Wilson e Wes Anderson. Primeiro
trabalho escrito pela dupla, cuja história nasce de uma série
de situações vivenciadas no período em que conviveram,
o filme foi realizado com elenco e equipe quase integralmente formados
por um grupo de amigos. Dadas as condições de produção,
quase caseiras, o resultado final foi um curta-metragem em preto-e-branco,
que acabou achando sua maneira de chegar ao Sundance, ganhando alguma
visibilidade.
Por intermédio
de um amigo da família Wilson, o roteirista e produtor L. M. Kit
Carson (Paris, Texas; Breathless), o roteiro original chegou
às mãos de Polly Platt, uma sócia da Gracie Films,
empresa extremamente bem-sucedida do grande James L. Brooks. Dispostos
a investir cinco milhões de dólares neste projeto despretensioso,
a Gracie deu o sinal verde para uma refilmagem em longa-metragem com um
raro gesto de produção criativa, preservando na refilmagem
o elenco principal, mantendo assim inalterado o núcleo de criação
responsável pelo filme. A operação provou ser arriscada
em termos de mercado, rendendo pouco mais de um quinto do orçamento
gasto na produção; por outro lado, todos os envolvidos sabiam
terem em mãos uma obra excepcional.
Inspirado no sub-gênero
de filmes de assalto (O Grande Golpe, Um Dia de Cão),
revitalizado alguns anos antes por Tarantino em seu Cães de
Aluguel, Bottle Rocket é uma comédia sobre um
trio de jovens amigos que planeja uma grande invasão de uma fábrica.
Liderados por Dignan (Owen Wilson), eles realizam alguns pequenos golpes
em cidades vizinhas antes de encontrarem-se com Mr. Henry (James Caan),
um velho malandro local que se associa a eles para o grande assalto. Essa
é uma das sinopses possíveis para Bottle Rocket,
cuja mistura de gêneros e referências assim como sua atmosfera
geral desafiam qualquer definição mais apressada.
Uma das mais importantes
referências para se estabelecer uma abordagem do universo ficcional
de Bottle Rocket é o trabalho de Charles Schultz em Peanuts.
Popularizado com as animações de Bill Melendez, o universo
de Charlie Brown apresenta uma visão da infância bastante
peculiar, com sua abordagem melancólica da vida infantil e configuração
de um ritmo lento, estudando calmamente a passagem para a idade adulta.
Anderson chegou a utilizar no curta-metragem composições
originais da série (de Vince Guaraldi), passando, por problemas
legais, ao uso de uma trilha sonora original de autoria de Mark Mothersbaugh,
ex-integrante da banda Devo. A música guarda semelhanças
evidentes com o trabalho de Guaraldi: um feeling jazzístico, temas
leves, agradáveis. O carinho e respeito dedicado às suas
personagens também lembra muito Peanuts: uma adesão incondicional
a seu imaginário, a seus sonhos e ideais. Poucas vezes o cinema
americano lidou com tanta propriedade com um tema tão complexo
como a alienação juvenil (outro cineasta que nos vêm
à mente é Terrence Malick e seu Badlands, inspiração
confessa da dupla Anderson-Wilson).
Outra desses raros
estudos foi levado às telas por Martin Scorsese em seu Mean
Streets (Caminhos Perigosos). Pode não ser uma inspiração
confessa dos roteiristas, mas sua influência é evidente no
estilo de direção, montagem, e utilização
de pérolas do rock inglês da década de 70. Mesmo a
interpretação de Dignan (pelo próprio Owen Wilson)
parece se basear livremente no Johnny-Robert DeNiro de Mean Streets.
Não à toa, o filme despertou alguma curiosidade quando ninguém
menos que Martin Scorsese disse tratar-se de um dos melhores filmes da
década de 90.
Bottle Rocket
chamou a atenção de alguns críticos e também
o de pessoas importantes na indústria, abrindo caminho para a continuidade
do núcleo criativo Anderson-Wilson com o filme Rushmore,
outro fracasso de público que encontrou uma acolhida calorosa dos
críticos americanos. Segundo o crítico Jonathan Rosenbaum,
um dos grandes cultuadores de Rushmore, Bottle Rocket seria
"uma aquarela" enquanto o último seria "uma pintura à óleo".
Ele tem razão nesta comparação, mas Bottle Rocket
é um filme com qualidades inúmeras e nada vulgares que merecem
ser descobertas.
Fernando Verissimo
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