Rogério
Sganzerla, Vampiro
São Paulo Shimbum, 18 de dezembro de 1969


Jairo Ferreira
Senhoras
e senhores: não deixem de ir ver nossos filmes, mas, por favor,
não percam muito tempo com nossas mensagens neutras, não
levem muito a sério nosso cinema industrial (?) e muito menos o
de autor. Fazem muito bem, porque, como a Argentina e o México,
São Paulo está atrasada vinte anos em matéria de
cinema.
O
parágrafo acima é de Rogério Sganzerla, responsável
por A Mulher de Todos, cartaz do Art Palácio, Belas Artes
e circuito. Julio Bracho, medíocre diretor mexicano, também
tem um filme chamado La Mujer de Todos, mas isso não interessa.
Sganzerla realizou em 68 um dos filmes mais inteligentes da década
de 60: O Bandido da Luz Vermelha, coqueluche dos novos valores
do cinema brasileiro. Falando em direção a Augusto e Haroldo,
Rogério disse que "o grande problema continua sendo o da diluição
oficial dos novos valores". Para alguns, isso é uma tragédia,
mas para o público é bom que a inovação seja
diluída na redundância. A Mulher de Todos poderia
ser um copo de sangue, mas só alguns poucos estão interessados
em beber sangue. Se Luz Vermelha tem 70% de informação
nova, A Mulher de Todos tem 30% e o resto é diluição,
redundância estratégica.
Aqui
Rogério liberta-se mais das influências, satisfaz mais ao
público, afasta-se intelligentzia colonialista. A criticalha,
desmunhecante e descotovelada, está detestando o filme. Eu mesmo,
quando digo isso, não o faço como "crítico de
cinema" (os boçais são eles, recalcados ou reprimidos
que não sabem o a-b-c; só pode haver crítica quando
os problemas pessoais estão superados): vocês lendo a opinião
de um cara que está muito ligado ao cinema brasileiro em geral,
paulista em particular. Gostaria de escrever muito sobre A Mulher de
Todos, sobre Rogério Sganzerla, jovem artesão da sintaxe
cinematográfica. Mas não vou escrever coisa nenhuma: não
vou esmiuçar nada, porque tenho um compromisso comigo mesmo: fazer
os meus próprios filmes. Sobre A Mulher digo que é
um filme belíssimo, admirável por conseguir uma abordagem
até requintada, mesmo filmando a cafonice e o ridículo.
É um filme pessoal no melhor sentido: como todo inventor que se
preze, Rogério pode se neurotizar com sua problemática pessoal,
mas para nós o importante é que ele assume e desenvolve
tudo isso no plano crítico, no plano antropofagicamente crítico.
Jairo Ferreira
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