Psicose (Psycho),
de Gus Van Sant (EUA, 1998)

Prometo não comparar nenhuma vez o filme com o original. Pronto. Me livrei desde já do maior problema de todos que vão ver o filme de Gus Van Sant: a presença do filme de Hitchcock pairando no ar. Mas, embora Van Sant certamente soubesse que isso seria inevitável, me parece diluidor tentar categorizar um filme de acordo com uma relação tão distante, e acima de tudo, injusta. Digo isso pois não é possível jamais comparar um filme realizado há 30 anos com outro atual. Deve-se sim ver o que eles significam dentro dos contextos atuais de produção.

Assim sendo o que vi foi um filme extremamente esperto (no bom sentido), que está anos luz acima da atual produção de "terror", e milênios luz acima da maioria dos remakes. A primeira parte diz respeito simplesmente a estrutura narrativa. Psicose é um filme de idas e vindas de trama, e com personagens bem mais interessantes que qualquer Lenda Urbana da vida. Tem um ritmo diferente, mais pausado e deliberado, até porque segue as marcações de Hitchcock. Já com relação aos outros remakes seu interesse é justamente a relação que estabelece com o original. Enquanto ao tentar "atualizar" tramas para os anos 90 todos apelem para mudanças na estrutura simplificantes e de criação de heróis para o público jovem, Psicose segue a trama tintim por tintim e brinca com o visual de forma criativa, sem cair na naturalidade. Na verdade, van Sant, equipe e elenco parecem estar se divertindo o tempo todo.

A fotografia do filme é a melhor de 98 em Hollywood, fácil. Christopher Doyle (fotógrafo de todos os filmes de Wong Kar-Wai) usa de efeitos, sensibilidades fílmicas e filtros para dar ao filme um tom de filme preto e branco colorizado por computador, já brincando com a idéia do remake. Van Sant completa a homenagem com a mise-en-scène e o cuidado com a arte, onde tudo parece retrô, mas o filme se assume como 1998, criando um clima estranho de deslocamento temporal. Para completar os atores se divertem imensamente, desde Vince Vaughan criando um Norman Bates completamente gay, passando pela deusa Julianne Moore até os ótimos atores Anne Heche (uma genial Marion Crane) e William H. Macy. O único deslize do filme são justamente as inserções modernosas de imagens desconexas (videoclipescas à beça) na montagem dos assassinatos, que não acrescentam nada ao filme.

No final, o filme de Gus Van Sant consegue ser divertidíssimo e os fãs de Psicose deviam parar de ser tão carolinhas assim e ver que esta brincadeira é um grande prazer para quem viu o filme original, e nada de "profano", pois nada é sagrado, e o filme de Hitchcock continua aí para quem quiser se deliciar. Profano seria queimar seus negativos ou remontar o filme original. Brincar de refazer com uma linguagem visual e narrativa criativas (até principalmente por ser tão reverencial) só é heresia para quem nunca gostou de A Vida de Brian.

Eduardo Valente